LITURGIA DO DOMINGO

6º DOMINGO DO TEMPO COMUM 
11 DE FEVEREIRO DE 2018
Pouco a pouco o Evangelho de Marcos vai mostrando quem é Jesus. O episódio de hoje é o terceiro milagre recordado em vista desse objetivo.Já vimos, na I leitura, a situação de marginalidade em que se encontrava o leproso. Essa situação era mais grave no tempo de Jesus, pois tudo girava em torno do puro/impuro. Quem controlava esse rígido código de pureza eram os sacerdotes. Cabia a eles declarar o que podia ou não podia ter acesso a Deus. Deus estaria sob o controle dos sacerdotes e do código de pureza.O leproso certamente sabia disso. Sabia também que sua vida – e sua libertação da marginalidade – não dependiam do Templo e dos sacerdotes, pois estes só constatavam a cura ou a permanência da doença em seu corpo. Diante disso, o leproso toma uma decisão radical: não vai ao sacerdote, e sim a Jesus. Ajoelha-se diante dele e pede: “Se quiseres, podes curar-me”. Reconhece que o poder da cura que o tira da marginalidade não vem da religião dos sacerdotes, e sim de Jesus. Notemos outro aspecto importante: ao invés de ficar à distância e gritar sua marginalização, aproxima-se e manifesta sua adesão a Jesus enquanto fonte de libertação e vida: “Se quiseres, podes curar-me”. Viola a lei para ser curado.Jesus quer curar o leproso de sua marginalização, devolvendo-lhe a vida. Para os homens daquele tempo, curar um leproso era sinônimo de ressuscitar um morto. Mas a ação de Jesus é precedida por uma reação. De acordo com a maioria das traduções, a reação de Jesus se traduz em compaixão. Algumas traduções, porém, em vez de ler “compaixão”, lêem “ira”. Jesus teria ficado furioso. Não certamente contra o leproso, mas contra o código de pureza que, em nome de Deus, marginaliza as pessoas, considerando-as como mortas. É contra esse sistema religioso que Jesus se revolta. E o transgride também.De fato, acreditava-se que a lepra fosse contagiosa. Jesus quebra o código de pureza, tocando o leproso. Com isso, de acordo com o sistema religioso vigente, torna-se impuro: torna-se leproso e fonte de contaminação. Por exemplo no Lv 5,5-6, além de ficar impuro Jesus deveria oferecer um sacrifício!. Torna-se marginalizado e não poderá mais entrar publicamente numa cidade: deverá ficar fora, em lugares desertos, como os marginalizados. O Filho de Deus foi morar com os marginalizados. Aqui o Evangelho de Marcos mostra quem é Jesus: é aquele que rompe os esquemas fechados de uma religião elitista e segregadora, indo habitar entre os banidos do convívio social.Curado o leproso, Jesus o expulsa. É esse o sentido da expressão “o mandou logo embora”. A expressão é forte e, ao mesmo tempo, estranha. Mas não é estranha se a lermos na ótica da ira de Jesus contra o código de pureza que marginaliza as pessoas: ele não quer que elas continuem vítimas de um sistema social e religioso que rouba a vida.Jesus dá uma ordem ao curado: “Não conte isso a ninguém! Vá, mostre-se ao sacerdote e ofereça o sacrifício que Moisés mandou, como prova para eles!” Tudo leva a crer que a tarefa da pessoa curada consiste não em divulgar o milagre, mas em colaborar para que o código de pureza seja abolido. De fato, ele deverá se mostrar ao sacerdote para que este constate sua cura. Sinal de que a cura não depende do código de pureza, nem da religião do Templo. A expressão “como prova para eles” tem este sentido: o sacrifício serve como testemunho contra o sistema que o declarava um punido por Deus e banido do convívio social. O sacrifício tem, pois, caráter de denúncia e de abolição do código de pureza.Não sabemos se a pessoa curada teve a coragem de testemunhar contra o sistema religioso que o mantinha na marginalidade. Marcos diz que o curado “foi e começou a contar e a divulgar muito o fato” (v. 45a). A reação a esse anúncio é evidente: Jesus não pode mais entrar numa cidade, pois, segundo o código de pureza, está contaminado e é fonte de contaminação. Todavia, de toda parte o povo vai procurá-lo, sinal de que está aberto um novo acesso a Deus. Deus, em seu Filho, pode ser encontrado fora, na clandestinidade, entre os que o sistema religioso e social discriminou.
Padre Roger Araujo

5º DOMINGO DO TEMPO COMUM 
04 DE FEVEREIRO DE 2018

Jesus é o Senhor da vida, por isso, ela precisa ser colocada na presença de Jesus. Tudo aquilo que somos, temos e vivemos, precisam ser colocados na presença do Senhor.A nossa saúde, enfermidade e o nosso ser sadio, mas também, quando estamos enfermos, então, hoje, estamos colocando diante da presença de Jesus todas as enfermidades.Não deixe para procurar Jesus quando ficar doente ou enfermo. Entregue-se para Jesus, para que Ele cuide e ensine a viver uma vida sadia, mas, não podemos negar que todos nós experimentamos a fragilidade da vida, em qualquer época. Crianças ficam doentes pequenas, nossos idosos são frágeis, a nossa juventude não está imune, e tantas fragilidades da existência humana.Precisamos orar pelos doentes e enfermos, mas também, precisamos entregar as nossas fragilidades a Jesus, e deixar que Ele toque em nós. Necessitamos do toque, da graça e da presença de Jesus, para vivermos na saúde ou na doença em comunhão com Ele.A grande doença e enfermidade da vida é não termos em nós o Senhor da vida. Quando Jesus está em nós, somos curados da grande enfermidade do mal, que nos afasta da presença de Deus.Pode ser que enfrentemos uma enfermidade, até por um longo período, mas não podemos ficar longe da presença de Deus. Até podemos estar sadios, aparentemente bem, mas, a nossa alma está tão contaminada pelo mal que acabamos não vivendo a presença de Deus em nossas vidas.Jesus está curando as nossas enfermidades e expulsando os demônios da nossa vida. Os demônios que nos confundem, que nos afastam da presença de Deus, e que nos levam a voltarmos para nós mesmos, para o nosso ego, nossas vontades, e acabamos centrando o mundo em nós.O demônio não tem outra missão a não ser nos afastar de Deus. Não pense que o demônio age no mundo somente tornando as pessoas más. A grande maldade dele é a de enganar e iludir; e a maior ilusão da vida é achar que podemos viver sem Deus.
Deus abençoe você!
Padre Roger Araújo

4º DOMINGO DO TEMPO COMUM 
28 DE JANEIRO DE 2018


“Todos ficavam admirados com o seu ensinamento,
pois ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas”.
Hoje a Palavra a nós proclamada mostra o Senhor ensinando. O Evangelho nos dá conta que seu ensinamento causava admiração. E por quê? Porque Jesus não é um simples mestre, um mero rabi... Vocês escutaram na primeira leitura o que Moisés prometera – ou melhor, o que Deus mesmo prometera pela boca de Moisés: “O Senhor teu Deus fará surgir para ti, da tua nação e do meio de teus irmãos, um profeta como eu: a ele deverás escutar!” Eis! Moisés, o grande líder e libertador de Israel, aquele através do qual Deus falava ao seu povo e lhe dera a Lei, anuncia que Deus suscitará um profeta como ele. E os judeus esperavam esse profeta. Chegaram mesmo a perguntar a João Batista: “És o profeta?” (Jo 1,21), isto é, “És o profeta prometido por Moisés?” Pois bem, caríssimos: esse Profeta, esse que é o Novo Moisés, esse que é a própria Palavra de Deus chegou: é Jesus, nosso Senhor! Como Moisés, ele foi perseguido ainda pequeno por um rei que queria matar as criancinhas; como Moisés, ele teve que fugir do tirano cruel, como Moisés, sobre o Monte – não o Sinai, mas o das Bem-aventuranças – ele deu a Lei da vida ao seu povo; como Moisés, num lugar deserto, deu ao povo de comer, não mais o maná que perece, mas aquele pão que dura para a vida eterna. Jesus é o verdadeiro Moisés; e mais que Moisés, “porque a Lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17). Jesus é a plenitude da Lei de Moisés, Jesus não é somente um profeta, mas é o próprio Deus, Senhor dos profetas, Senhor de Moisés! Moisés deu testemunho dele no Tabor e cairia de joelhos a seus pés se o encontrasse. Jesus, caríssimos, é a própria Palavra do Pai feita carne, feita gente, habitando entre nós!
Mas, essa Palavra não é somente voz, sopro saído da boca. Essa Palavra que é Jesus é tão potente (lembrem-se que tudo foi criado através dela!), que não somente fala, mas faz a salvação acontecer. Por isso os milagres de Jesus, suas obras portentosas: para mostrar que ele é a Palavra eficaz e poderosa do nosso Deus. Ao curar um homem atormentado na sinagoga de Cafarnaum, Jesus nosso Senhor mostra toda a sua autoridade, seu poder e também o sentido de sua vinda entre nós: ele veio trazer-nos o Reino de Deus, do Pai, expulsando o reino de satanás, isto é, tudo aquilo que demoniza a nossa vida e nos escraviza! – Obrigado, Senhor, Jesus, pela tua vinda! Obrigado pela tua obra de libertação! Muito obrigado porque, em ti, tudo é Palavra potente: tua voz, tuas ações salvadoras, teu modo de viver, teus exemplos, tuas atitudes! Tu não somente tens palavras de vida eterna; tu mesmo és a Palavra de Vida! Obrigado! Dá-nos a capacidade de escutar-te sempre!
Se Jesus é essa Palavra potente, Palavra de vida, então viver sua Palavra é encontrar verdadeiramente a vida e a liberdade. Na leitura do Deuteronômio que escutamos, Deus dizia, falando do profeta que haveria de vir: “Porei em sua boca as minhas palavras e ele lhes comunicará tudo o que eu lhe mandar. Eu mesmo pedirei contas a quem não escutar as minhas palavras que ele pronunciar em meu nome”. Ora, se Jesus é a Palavra de Deus, então é nele que encontramos a luz para os nossos passos e o rumo da nossa existência. Num mundo como o nosso, que prega uma autonomia louca do homem em relação a Deus, uma autonomia contra Deus, nós que cremos em Jesus, devemos cuidar de nos converter sempre a ele, escutando sua palavra. Ele nos fala, caríssimos: fala-nos nas Escrituras, fala-nos na voz da sua Igreja, fala-nos íntimo do coração, fala-nos na vida e nos acontecimentos... Certamente, ouvi-lo não é fácil, pois muitas vezes sua palavra é convite a sairmos de nós mesmos, de nossos pensamentos egoístas, de nossas visões estreitas, de nossa sensibilidade quebrada e ferida pelo pecado. Sairmos de nós para irmos em direção ao Senhor, iluminados pela sua santa palavra – eis o que Cristo nos propõe hoje!
É tão grande a bênção de encontrar o Senhor, de viver nele e para ele, que São Paulo chega mesmo a aconselhar o celibato, para estarmos mais disponíveis para o Senhor. Vocês escutaram a segunda leitura da Missa deste hoje. O apóstolo recomenda o ficar solteiro, não por egoísmo ou ódio ao matrimônio, mas para ter mais condições de ser solícitos para com as coisas do Senhor e melhor permanecer junto ao senhor. É este o sentido do celibato dos religiosos e dos padres diocesanos: recordar ao mundo que Cristo é o Senhor absoluto de nossa vida e que por ele vale a pena deixar tudo, para com ele estar, para, como Maria irmã de Marta, estar a seus pés, escutando-o e para ele dando o melhor de nós. O celibato, que num mundo descrente e sedento de prazer sensual, é um escândalo, para os cristãos é um sinal do primado de Cristo e do seu Reino.
Rezemos para que aqueles que prometeram livremente viver celibatariamente cumpram seus compromissos com amor ao Senhor e à Igreja. Rezemos também para que os cristãos saibam ver no celibato não uma armadilha ou uma frustração, mas um belíssimo sinal profético, um verdadeiro grito de que Deus deve ser amado por tudo e em tudo, acima de todas as coisas. Se os casados mostram a nós, celibatários, a beleza do amor conjugal e do mistério de amor esponsal entre Cristo e a Igreja, nós, solteiros pelo Reino dos Céus, mostramos aos casados e ao mundo que tudo passa e tudo é relativo diante da beleza, da grandeza e do absoluto dAquele que Deus nos enviou: o seu Filho bendito, sua Palavra eterna, Verdade que ilumina, liberta e dá vida. A ele a glória para sempre.
dom Henrique Soares da Costa
3º DOMINGO DO TEMPO COMUM 
21 DE JANEIRO DE 2018

Pescadores de homens

A Liturgia continua o tema do chamado. a resposta do homem passa por um caminho de conversão pessoal e de identificação com Jesus.
A 1ª Leitura apresenta o Profeta Jonas anunciando a Palavra do Senhor aos habitantes de Nínive. (Jn 3,1-5.10)
Os ninivitas creram em Deus, acolheram o apelo de conversão, e provaram a misericórdia de Deus,  que é oferecida a todos os povos...
O Salmo nos ensina a caminhar guiados pela bondade e compaixão do Senhor. (Sl 25)
A 2ª Leitura convida a colocar a esperança nos valores eternos, que proporcionam viver como ressuscitados, dedicados ao serviço do reino. (1Cor 7,29-31)
No Evangelho, Jesus convida os primeiros discípulos  a integrarem a sua comunidade. (Mc 1,14-20)
O texto apresenta Jesus no início de sua vida pública, em povoados afastados e desconhecidos da Galiléia, meia pagã  É o resumo de toda a sua mensagem:
Uma Afirmação: "O tempo já se completou… o Reino de Deus está próximo…"
Reino de Deus resume a esperança de Israel num mundo novo  de Paz e de abundância, preparado por Deus ao seu Povo. Era um fato esperado há muito tempo pelo Povo de Deus. Agora o tempo da espera acabou. O Reino de Deus já chegou, ele já está presente, as promessas estão se realizando.
Duas Condições para participar desse Reino:
Convertei-vos… e crede no evangelho…" 
Converter-se não quer dizer mudar de religião. Quer dizer mudar a mente e o coração, reformular os valores da vida, para que Deus ocupe nela sempre o primeiro lugar. É rever e remover em nós tudo aquilo que nos afasta de Deus e dos irmãos…
Quem precisa de conversão? Só os outros?                  
Crer no evangelho não quer dizer apenas conhecer o que está escrito num livro.
Quer dizer aceitar Cristo e todos os valores que ele propõe para a nossa vida. É escutar a sua palavra e conformar a nossa vida aos seus mandamentos, que se resumem num só: O amor a Deus e ao próximo. 
E nós vivemos de fato o espírito do Evangelho?
Um Convite: Para continuar e completar esse Reino, Cristo convida os primeiros quatro apóstolos e... Hoje a todos nós: "Vinde comigo… farei de vós pescadores de homens".
Escolhe pessoas ignorantes, pobres, desconhecidas, grosseiras… Pareceria mais lógico a nós, que a escolha recaísse sobre os sacerdotes  De Jerusalém, sobre os fariseus e escribas, profundos conhecedores da  Bíblia.
E, no entanto, não… a escolha foi outra! Por que?  Deus não aparece na imponência dos fatos ou das pessoas, mas na humildade, na simplicidade, onde geralmente existe mais fé… Primeiramente estar com ele e depois evangelizar em seu nome... 
O Chamado continua hoje: cada um de nós recebeu e recebe continuamente esse chamado à conversão e a seguir Jesus.
 O texto é um Modelo de toda vocação cristã: é sempre uma iniciativa de Jesus dirigida a pessoas "normais".  Não aconteceu enquanto estavam rezando ou fazendo algo de extraordinário, mas enquanto estavam simplesmente exercendo a sua profissão. 
É sempre é radical e incondicional: o "Reino" deve ser um valor fundamental, a prioridade, o principal objetivo do discípulo para seguir Jesus e para se integrar à comunidade do Reino.  É um chamamento para aderir à pessoa de Jesus, para fazer com Ele uma experiência de vida, para aprender com Ele a ser uma pessoa nova que vive no amor a Deus e aos irmãos.
Exige uma resposta imediata, desapego e fidelidade. Esse chamamento é uma missão especial no mundo e na Igreja, confiada a todas as pessoas. Todos os batizados são chamados a serem discípulos de Jesus, a "converterem-se", a "acreditarem no Evangelho",  a seguirem Jesus nesse caminho de amor e de dom da vida.
Cristo continua dirigindo ainda HOJE o mesmo apelo: “Vinde após mim, farei de vós pescadores de homens…" Se tivermos medo, se nos sentirmos incapazes para tanto, olhemos esses pescadores da galiléia… pobres e ignorantes,  mas com uma generosidade sem limites…  Largaram tudo e seguiram a Jesus… A nós também, ele continua exigindo as mesmas condições, para poder segui-lo: "Convertei-vos e crede no evangelho…" 
Quando percebemos o chamado de Jesus, o que tivemos de abandonar, que laços tivemos de romper para seguir Cristo?

                                        Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa

2º DOMINGO DO TEMPO COMUM 
14 DE JANEIRO DE 2018


Após as santas festas do tempo do Natal do Senhor, estamos iniciando o tempo Comum. Terminada ontem a primeira semana deste tempo “verde”, entramos hoje no segundo domingo chamado comum: comum do dia-a-dia, da vida miúda, vivida na presença do Senhor que está sempre presente na sua Igreja na potência do seu Espírito Santo, dando vigor à Palavra e eficácia aos sacramentos. 
A Escritura que escutamos nesta Missa falou-nos de um Deus que chama, que entra na nossa vida e nos dirige o seu apelo. Foi assim com Samuel que, novinho, sequer sabia reconhecer a voz do Senhor; foi assim com os primeiros discípulos, traspassados pela palavra do Batista que, apresentando o Cordeiro de Deus, quase que forçava aqueles dois, André e Tiago, a seguirem Jesus. E lá vão eles: “Rabi, onde moras? Onde tens tua vida?” E Jesus os convida: “Vinde e vereis! Somente se tiverdes a coragem de virdes comigo, de comigo permanecerdes, podereis ver de verdade!” Não é impressionante, quase que inacreditável, caríssimos, que Deus nos conheça pelo nome, que o Senhor nos chame e nos queira parceiros seus no caminho da vida? E, no entanto, é assim! Também nós somos conhecidos pelo nome, nossos passos, nosso coração, nossa vida são conhecidos pelo Senhor... E ele nos chama com amor. A nós, que estamos procurando a felicidade e a realização na vida, o Senhor também dirige a pergunta: “O que estais procurando?” Vinde, fiquemos com o Senhor e encontraremos aquilo que nosso coração procura, aquilo que faz a vida valer a pena.
Mas, esse “estar com o Senhor”, esse “permanecer com ele”, que é o início da própria vida eterna já neste mundo, não pode se dar sem que realmente sejamos de Cristo, com todo o nosso ser, corpo e alma. Aqui aparece com toda clareza a urgência e atualidade da advertência de São Paulo, feita aos coríntios e a nós. Corinto era uma cidade particularmente devassa do Império Romano. E, como hoje, os cristãos eram tentados a “corintiar”, a entrarem na onda, achando tudo normal, moderno e compatível com a fé. O Apóstolo, em nome de Cristo, desmascara essa ilusão, tão comum entre os cristãos de hoje. Ouçamo-lo! É incômodo, é chato, mas é a Palavra de Deus, que nos ilumina, liberta e nos salva... Ouçamo-la! “O corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo!” Eis cristão: teu corpo pertence ao teu Senhor Jesus Cristo que nele habita pela potência do seu Espírito Santo desde o dia do teu Batismo: “Porventura ignorais que vossos corpos são membros de Cristo? Ou ignorais que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que habita em vós e que vos é dado por Deus? E, portanto, ignorais que não pertenceis a vós mesmos? Então, glorificai a Deus em vosso corpo!” Compreende, cristão! Tu pertences a Cristo, tu és sagrado porque no Batismo foste consagrado pelo Espírito de Cristo que habita em ti! Teu corpo foi lavado pela água, símbolo do Santo Espírito, foi ungido pelo óleo batismal, sinal da graça de Cristo, foi untado pelo santo Crisma, sinal da força e da energia do Espírito de Cristo; teu corpo foi alimentado com o Corpo do Senhor... Teu corpo é sagrado, cristão, teu corpo é santo, teu corpo pertence ao Senhor! “Portanto, ignorais que não pertenceis a vós mesmos? Então, glorificai a Deus em vosso corpo!” Solteiro ou casado, todos nós temos o dever sagrado, o dever de amor de fugir da imoralidade! À medida que o paganismo avança, perde-se o sentido cristão do corpo e da sexualidade! Tem-se a idéia que o corpo é para o prazer, para a satisfação da libido; pensa-se que o corpo é uma coisa, um objeto de prazer, que a bel prazer pode ser usado... Isso pensam os pagãos, isso vivem os pagãos. Nós sabemos que não é assim: “O corpo é para o Senhor e o Senhor é para o corpo...” para este corpo, que será ressuscitado para a glória de Cristo!
Eis, caríssimos em Cristo, os pecados de hoje: a impureza (ou seja a busca do prazer solitário e de atos e pensamentos sensuais que aguçam propositalmente o erotismo), a fornicação (isto é, o ato sexual antes do casamento com pessoas do mesmo ou do outro sexo) o adultério (ou seja, a relação fora do casamento). Nunca deveremos esquecer qual a verdade do Evangelho: o ato sexual somente é santo, responsável, bendito e plenamente agradável a Deus no casamento. Fora dele, é sempre um pecado – e esta regra não conhece nenhuma exceção! E mais: a vida sexual do casal deve ser santa. Como diz a Palavra do Senhor: “O matrimônio seja honrado por todos, e o leito conjugal, sem mancha; porque Deus julgará os fornicadores e os adúlteros” (Hb. 13,4).
O modo que os cristãos têm de vivenciar a sexualidade não pode ser o modo dos pagãos. Eles seguem seus caprichos, suas paixões... Nós, mesmo frágeis, mesmo com nossos instintos e tendências muitas vezes desordenadas, por amor do Cristo que nos amou, temos o dever de lutar para colocar nossa sexualidade debaixo do senhorio de Cristo! Esse senhorio é mistério de cruz, mas também de ressurreição. Nós, que somos um só corpo com o Senhor pelo batismo e a eucaristia, nós que pelo Espírito Santo nos tornamos uma só coisa com o Senhor, de corpo e alma, não podemos pensar e viver nossa sexualidade como os pagãos! Então, jovem solteiro, jovem solteira, tua vida sexual, teu namoro, devem ser vividos à luz do Senhor Jesus! Casados cristãos, vossa vida conjugal não deve ser como a dos pagãos, sujeita e ditada simplesmente pela libido... Vossa sexualidade deve ser vivida na luz do Senhor! Homossexual cristão, vive tua tendência de modo cristão, lutando para seres casto, recorrendo à oração, completando corajosamente na carne da tua vida e da tua luta, aquilo que falta à paixão do Cristo. Procura viver dignamente, procura acompanhamento espiritual e coloca em Cristo a tua esperança e a tua alegria. Solteiro cristão, vive tua sexualidade na castidade e na continência por amor a Cristo! Padre, religioso, religiosa, tem coragem e generosidade para viveres o que prometeste a Cristo diante de toda a Igreja reunida no dia da tua profissão religiosa ou da tua ordenação sacerdotal! O Senhor nos pedirá contas, a todos nós! Ninguém está acima da Palavra, ninguém está acima do juízo do Cristo Jesus! 
Talvez, alguns de vocês pensem como os judeus pensaram ao término do Discurso sobre o Pão da Vida: “Essa palavra é dura! Quem pode escutá-la?” (Jo. 6,60). Pois bem, a nós, com doçura e também com firmeza o Senhor diz: “Isto vos escandaliza? Quereis também vós ir embora?” (Jo. 6,61.67). Não é fácil, irmãos! Não somos melhores nem mais fortes que ninguém... Sentimos em nós pensamentos, afetos e desejos contraditórios... Mas, sabemos que Cristo nos chamou, nos amou e por nós entregou a vida. Então, que digamos como Pedro: “Senhor, a quem iremos? Tens palavra de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo. 6,69). 
É isto, dizer na vida como Samuel disse: “Eis-me aqui”; é isto atender ao convite do Senhor: “Vinde e vereis”; é isto, finalmente, “ir ver onde ele mora e permanecer com ele”.  Que ele nos dê também a nós a sua graça!
dom Henrique Soares da Costa

EPIFANIA DO SENHOR
07 DE JANEIRO DE 2018


Neste 07 de janeiro, com a Igreja celebramos a solenidade da Epifania, ou manifestação de Jesus. Lemos o texto de Mateus capítulo 2º versículos 1 a 12. Com os nossos irmãos ortodoxos celebramos o seu Natal, porque hoje é o Natal de toda a Ortodoxia oriental. Este texto, legendário por certo, nos afirma que certa vez três figuras exóticas chamadas magos, vieram do Oriente distante e se encontraram com Jesus, na cidadezinha de Belém. O texto de Mateus é legendário, não precisamos tomá-lo ao pé da letra, mas esses magos representam todos aqueles que na vida receberam a grande graça, de procurarem a Deus. Na verdade existem pessoas que tem poucas ambições na vida, pessoas que se contentam com pouca coisa. Existem pessoas que são insaciáveis, mas insaciáveis apenas no horizonte materialista da existência. Infelizmente existem pessoas com natureza cheia de desejos materiais, olhos famintos de tudo que se vê e, sobretudo vida auto-suficiente. Existem pessoas que se conduzem apenas nesse nível, mas existem muitas outras (e estas imitam os magos do conto evangélico de hoje) que deixam o seu comodismo e, baseados em sinais materiais que o próprio Deus se encarrega de fornecer, vão buscando o infinito, buscam a Deus. A qual desses dois grupos você pertence? Existem milhões de seres humanos à busca de Deus, para os quais este mundo, material, sozinho, não faz sentido. Se estas pessoas, como os magos, continuam a buscar a Deus é porque Deus em primeiro lugar de maneira escondida ou inconsciente, já se manifestou a elas. É Deus quem atrai qualquer ser humano para a busca de sua própria Face. Você não gostaria de transformar a sua vida numa busca incessante da face de Deus em Cristo, como os magos da festa de hoje? Você não gostaria que o rosto de Deus brilhasse em você? Mas que faz você, ou que propósitos têm no início deste ano? Mas você, como os magos, é capaz de se impor alguma mortificação ou pagar o preço de uma longa viagem ao encontro de Deus? A festa de hoje é também missionária. Se você encontrar algum dia o rosto de Deus dando sentido à sua vida, trate de mostrar esse rosto a outros irmãos que dele tem necessidade. Ainda que o conto dos magos seja legendário (e isso não destrói sua fé) Deus se serve desse Conto para transmitir a você uma rica mensagem. Concretize-a neste 2018.

SANTA MARIA MÃE DE DEUS
01 DE JANEIRO DE 2018

No primeiro dia do ano, queremos contemplar Jesus, o Filho de Deus que se fez homem e habitou no meio de nós por meio de uma mulher. É maravilhoso ver que o texto bíblico, a Carta aos Gálatas, enfatiza o fato de: o Filho de Deus ter nascido de uma mulher.Você pode pensar: “Toda criança vai nascer de uma mulher”. Enquanto as culturas antigas dão sempre valor ao lado patriarcal, ao homem, a Bíblia cria uma nova ordem, coloca essa mulher na primazia dos acontecimentos. A humanidade de Jesus viva, presente e encarnada no meio de nós, acontece por meio da Virgem Maria.É importante entender que, esse menino que nasce de Maria, é o Filho eterno de Deus. Ainda que Jesus esteja encarnado e nós O vejamos apenas na Sua forma humana, na Sua aparência humana, a maneira como Ele se manifesta no meio de nós, Ele é o filho eterno de Deus.A Igreja coloca no primeiro dia do ano a celebração de Maria, a Mãe de Deus. Muitos podem pensar: “Como Maria vai ser mãe de Deus, se Ele quem criou Maria?”. É verdade. Foi Deus quem A fez, Ela é uma criatura de Deus como nós, porém, foi uma criatura escolhida para que o Filho de Deus nascesse através Dela. Esse é o fato de nós A venerarmos e nos voltarmos para Ela.Jesus está encarnado no ventre de Maria. Eu vejo Jesus presente no Sacrário, na Hóstia Consagrada, mas, o primeiro Sacrário, a primeira morada de Jesus no meio de nós, foi no ventre de Maria. Aquele ventre nutriu, alimentou, deu vitalidade e vigor à humanidade de Jesus.Queremos, hoje, contemplar a nova criação, a nova criatura, o homem novo que nasce em Maria. Quando celebramos Maria, a Mãe de Deus, logo no primeiro dia do ano, é justamente para dizer que em Maria todas as coisas são recriadas e feitas. Jesus começou a salvação no ventre de Sua Mãe, ali se instalou o novo Paraíso, o novo Éden, o jardim que Deus criou para que vivêssemos a salvação e a nossa comunhão com Deus.O ventre de Maria é o lugar da nossa comunhão com Deus, é o lugar de nos resgatarmos, recriarmos e refazermos. Queremos começar esse ano tendo como meta a vida nova.Todo mundo fala: “Ano novo, vida nova”, mas não tem vida nova se não começarmos em Deus, se não permitirmos que Ele restaure e faça todas as coisas novas em nossa vida. Precisamos nos voltar para Deus, para que Ele restaure todas as coisas.Maria é a nova criatura, a nova Eva, a nova mulher, a nova humanidade; é o ser humano pleno, redimido. Que Ela nos aponte o caminho do Paraíso, do Éden, o caminho da nova criatura, porque, queremos ser novos a cada dia.
Deus abençoe você!
Padre Roger Araújo

SAGRADA FAMÍLIA
30 DE DEZEMBRO DE 2017


A Igreja preocupa-se de modo especial com a família. Ela é o espaço privilegiado onde se desenvolve o maravilhoso dom da vida de cada ser humano. O Documento de Aparecida lembra que “a família é sujeito e objeto de evangelização, centro evangelizador de comunhão e participação”. Para isso, “deve encontrar caminhos de renovação interna e de comunhão com a Igreja e o mundo” (DAp 568s). O papa Francisco convocou recentemente um sínodo sobre os desafios pastorais da família no contexto da evangelização. De fato, são muitos os desafios que enfrenta a família na atualidade. Nela repercutem as influências positivas e negativas das rápidas mudanças pelas quais passa o mundo. Há valores importantes que precisam ser preservados e aprofundados em cada nova geração. Os textos bíblicos escolhidos para esta celebração da Sagrada Família refletem sobre esses valores que autenticam o verdadeiro relacionamento entre os diversos membros que formam a família, ampliando-se para a comunidade. O texto do Eclesiástico dirige-se especialmente aos filhos, a fim de que saibam honrar e servir os seus pais, em obediência à lei de Deus. Assim, atrairão sobre si bênçãos divinas (1ª leitura). A carta aos Colossenses ressalta os sentimentos de que devem revestir-se os cristãos, como a compaixão, a bondade, a humildade, a mansidão e a paciência. Assim, a paz de Cristo reinará na vida da família-comunidade, pois todos os membros formam um só corpo (2ª leitura). Ao contemplar a família de Nazaré (evangelho), constatamos que Deus realiza o seu plano de amor por meio do assentimento de fé dos pais, como Maria e José. A família é sagrada na medida em que seus membros se amam, pois, onde há amor, Deus aí está.
1ª leitura (Ec. 3,3-7.14-17a)
Honrar pai e mãe
O livro do Eclesiástico (ou Sirácida) foi escrito originalmente em hebraico em torno do ano 200 a.C. por um senhor chamado de Jesus filho de Sirac. O original não chegou até nós. O que temos é a tradução em grego feita pelo neto do autor, por volta do ano 130 a.C. É um livro que busca preservar a tradição religiosa do povo judeu, cuja identidade está ameaçada pelo domínio grego. Um dos temas mais caros desse livro é a sabedoria aplicada ao cotidiano. O texto da liturgia de hoje ressalta a Sabedoria que se expressa no relacionamento dos filhos com os seus pais. Constitui um comentário do quarto mandamento do Decálogo. É bom verificar todo o conjunto do texto: 3,1-18. A honra aos pais refere-se tanto ao respeito à autoridade como ao sustento em suas necessidades. O desprezo desse mandamento corresponde à ofensa a Deus.
Apesar da cultura patriarcalista em que o autor está inserido, percebe-se (pelo menos neste texto) igualdade de tratamento para pai e mãe, assim como se constata também na formulação do quarto mandamento. Esse mandamento, como afirma a carta aos Efésios, é “o primeiro que vem acompanhado de uma promessa: para que sejas feliz e tenhas vida longa sobre a terra” (Ef 6,2-3). Essa promessa, no texto do Eclesiástico, é desdobrada em várias bênçãos divinas ao filho ou à filha que honra e respeita o seu pai e a sua mãe: alcança o perdão dos pecados; é como quem ajunta um tesouro; será respeitado pelos seus próprios filhos; quando rezar, será atendido; terá uma vida longa; dará alegria à sua mãe; a compaixão para com o pai não será esquecida e, em lugar dos pecados, serão aumentados os méritos; no dia da aflição, será lembrado por Deus…
2ª leitura (Cl. 3,12-21)
Santos e amados de Deus
Este texto da carta aos Colossenses, atribuída a Paulo, orienta a comunidade cristã no que se refere ao relacionamento na família. A cultura grega predominava em toda a região da Ásia Menor, onde se situava a cidade de Colossas. A casa, normalmente, era constituída por esposa e marido, pais e filhos, escravos e patrões. É esse o modelo de casa que tem presente o autor.
Ao ler o conjunto do texto (3,5-17), percebe-se o motivo pelo qual os membros da casa devem ser instruídos. Há comportamentos condenáveis, como a “imoralidade sexual, impureza, paixão, maus desejos, especialmente a ganância, que é uma idolatria” (3,5). E mais: há desordens provocadas por “ira, furor, malvadeza, ultrajes e palavras indecentes” (3,8) e também há mentiras (3,9) e discriminação de pessoas, “entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, estrangeiro ou bárbaro, escravo e livre” (3,11).
Esse modo de pensar e de agir, é claro, ameaça a vida familiar também dos cristãos. São comportamentos que contrariam o que deveria ser o modo de viver dos seguidores e seguidoras de Jesus, “eleitos de Deus, santos e amados”. Então, qual é a maneira coerente de viver desses “eleitos de Deus”? O texto (3,12-17) é tão claro, que prescinde de explicação. Constitui um caminho privilegiado para a felicidade das famílias no tempo atual.
No que se refere à “submissão” da mulher ao marido (3,18), deve-se levar em conta o sistema familiar dominante na época, em que o poder de decisão se concentrava na figura do pai/patrão. O autor é filho da sua época. À luz dos ensinamentos de Jesus, porém, foi restabelecida a igualdade entre mulher e homem, entre esposa e marido. Todos os seres humanos, cada qual com suas originalidades e especificidades de funções, possuem a mesma e imprescindível dignidade. Isto é agradável ao Senhor, que nos criou à sua imagem e semelhança.
Evangelho (Lc. 2,22-40)
A família de Nazaré
O texto de Lucas faz parte do conhecido “evangelho da infância” de Jesus (Lc. 1-2). Os personagens citados nesse evangelho da infância são retratados como escolhidos de Deus, por meio dos quais ele realiza o seu plano de amor e de salvação universal. A própria etimologia dos nomes, na língua hebraica, revela traços do rosto divino: Gabriel (Deus é forte), Zacarias (Deus se lembra), Isabel (Deus é plenitude), João (Deus é favorável), Maria (amada de Deus), José (Deus acrescente), Ana (misericórdia), Simeão (Deus ouviu) e Jesus (Deus salva).
O texto deste domingo apresenta alguns desses personagens, Maria e José, Simeão e Ana, como fiéis seguidores da tradição religiosa de Israel. Cumprindo o que está escrito na Lei, Maria e José levam o menino Jesus ao templo para ser apresentado diante do Senhor e para oferecer sacrifícios (Lv 12,2-8). Se a mãe “não dispuser de recursos suficientes para oferecer um cordeiro, tomará duas rolas ou dois pombinhos” (Lv. 12,8).
Lucas, em seu evangelho, faz questão de ressaltar que Deus se revela na história humana não por meio do poder, do dinheiro ou do prestígio social. É por intermédio dos simples e pequeninos que ele se dá a conhecer, e conta com eles para realizar o seu plano no mundo. Maria e José não faziam parte dos personagens importantes. Faziam parte dos “pobres de Javé”, isto é, punham sua total confiança em Deus e esperavam a vinda do Salvador; eram abertos à vontade de Deus e dispostos a assumir a missão que ele lhes indicava.
Também Simeão e Ana são apresentados por Lucas como pessoas afinadas com o plano de Deus. Não estão aí por acaso: representam o povo de Israel, que se manteve fiel na certeza da vinda do Salvador, conforme a promessa feita por meio dos profetas. O texto diz que Simeão “era justo e piedoso e esperava a consolação de Israel”; Ana era profetisa e “servia a Deus dia e noite com jejuns e orações”. São pessoas conduzidas pelo Espírito Santo que sabem discernir e acolher os sinais de Deus na história humana. Por isso, ambos se alegram, louvam a Deus e anunciam suas maravilhas.
Jesus, portanto, cresceu sob o cuidado de Maria e José, na simplicidade de um lar comum, participando de sua comunidade de fé e respeitando a tradição religiosa de seu povo. Conheceu a Deus com base no testemunho de seus pais e foi tomando consciência de sua identidade e de sua missão salvadora. “O menino foi crescendo, ficando forte e cheio de sabedoria. A graça de Deus estava com ele” (Lc. 2,40). A sagrada família de Nazaré inspira as famílias cristãs de nossos dias: quando Deus é levado a sério e seu amor é vivido entre todos os que estão na casa, essa família torna-se portadora da bênção divina, “sujeito e objeto de evangelização, centro evangelizador de comunhão e participação”. É uma família “sagrada”.
Pistas para reflexão
- A família é bênção de Deus que precisa ser cultivada. Nas entrelinhas dos textos do Eclesiástico e da carta aos Colossenses, podemos captar o alerta diante do que pode ameaçar a vida familiar. É necessário cultivar os valores que a tradição de fé nos deixou como herança. São valores que atraem a bênção divina, como o comportamento de honra e de respeito dos filhos para com os pais, bem como os sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência e perdão mútuo. A família de Nazaré inspira a família de hoje a ser “sagrada”, tendo em vista a plena realização de cada um dos seus membros e a sua missão evangelizadora no mundo, como esclarece o Documento de Aparecida: 
O casal santificado pelo sacramento do matrimônio é um testemunho da presença pascal do Senhor. A família cristã cultiva o espírito de amor e serviço. Quatro relações fundamentais da pessoa encontram seu pleno desenvolvimento na vida da família: paternidade, filiação, irmandade, nupcialidade. Essas mesmas relações compõem a vida da Igreja: experiência de Deus como Pai, experiência de Cristo como irmão, experiências de filhos em, com e pelo Filho, experiência de Cristo como esposo da Igreja. A vida em família reproduz essas quatro experiências fundamentais e as compartilha em miniatura: são quatro facetas do amor humano (DAp 583).
Outras reflexões sobre a família no Documento de Aparecida, números 567 a 616.
Celso Loraschi
NATAL - MISSA DO DIA
25 DE DEZEMBRO DE 2017


No visível, vemos a invisível glória de Deus
Jesus Cristo é o ponto máximo da revelação de Deus. Igual a Deus (2ª leitura), comunica-nos sua vida divina. É essa a melhor notícia que a humanidade poderia receber (1ª leitura) e pela qual, desde os seus primórdios, sempre esperou: o Verbo de Deus se encarna e nos dá o poder de nos tornarmos filhos de Deus. Nós o acolhemos pela fé, que nos faz experimentar algo da glória de Deus (Evangelho).
Evangelho (Jo 1,1-18)
O prólogo do Evangelho de são João fala da Palavra que, existindo em Deus, vem a
este mundo. Um dos pontos fortes de sua mensagem encontra-se nos v. 10-13. Eles apresentam o contraste entre aqueles que aceitam e os que rejeitam a vinda da Palavra feita homem. A Palavra de Deus, no prólogo de são João, não é só aquela por meio da qual o cosmo e o habitat humano foram feitos (v. 3.10), mas aquela que é a vida e que a comunica à humanidade (v. 3). Ela veio ao mundo humano (“estava no mundo” v. 10), mas – eis o paradoxo! – a humanidade, criada por meio dela e que dela tinha a vida, não a reconheceu (v. 10) em sua dignidade divina (v. 1) e em sua condescendência que a fez vir ao seu encontro (“ela veio”, v. 11a).
Não se fala que sua obra ou sua mensagem não foram aceitas, mas que sua Pessoa não foi aceita. Como é sério que a humanidade – uma parte dela – possa rejeitar Aquele que lhe vem ao encontro como fundamento da vida! Por que o fizeram? O texto não explica, apenas descreve o acontecimento, como se ele não precisasse de explicação ou, em outras palavras, como se ele fosse (considerado em si mesmo) inexplicável.
Esse mesmo pensamento volta no v. 11, mas de forma mais enfática, pois são precisamente os “seus” que não o aceitam. Também aqui se trata da humanidade inteira. Ela é “sua”, pertence à Palavra de Deus, pois foi criada por meio dela e dela recebeu a luz (v. 4.9). Mais tarde, o mesmo Evangelho dirá que é a humanidade amada até o extremo do amor (Jo 13,1: “ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até o extremo”).
Essa humanidade não recebeu em seu “mundo” o Verbo que é Senhor do mundo e da humanidade.
Houve, no entanto, quem o recebesse (v. 12). Fica claro, assim, que Deus deixou uma possibilidade de opção. A história é o lugar da decisão humana. Aqueles que se encontravam nas trevas (v. 4) podiam acolher a luz. “Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”, disse Jesus (Jo 9,5); e completou afirmando que essa presença da luz exige um discernimento entre aqueles que a recebem e os que a rejeitam (cf. Jo 9,39).
Fica claro igualmente que acolher a Palavra traz uma consequência maravilhosa: receber o poder de se tornar filho de Deus. A Palavra dá essa capacidade, como que transfere um poder que lhe é próprio (ele é o Filho Unigênito do Pai: v. 14) aos que a acolhem. Isso acontece pela fé (v. 12: “os que creem em seu nome”), que é a atitude fundamental para a salvação: “A obra de Deus é que acrediteis naquele que Ele enviou” (Jo 6,29); “Todo o que nele crer... tenha a vida eterna” (Jo 3,15); “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá... Crês nisso?” (Jo 11,25-26).
Essa fé, na prática da Igreja dos inícios, leva ao batismo, que é nascimento não segundo a natureza, mas nascimento “de Deus” (v. 13; cf. Jo 3,3: “nascer do alto”).
Num mundo que tantas vezes rejeita, teoricamente ou na prática, o Filho de Deus encarnado, é fundamental renovar nossa opção de fé, recebê-lo. Ele não veio de forma esplendorosa, impondo-se por uma presença cheia de poder. Mas, na simplicidade da vida humana que assumiu, tanto mais apela a que ultrapassemos o imediato e cheguemos a reconhecê-lo em sua realidade escondida.
Na fé que nos torna filhos de Deus, podemos, na sua vida humana, “ver a sua glória”, a “glória que Ele possui como Unigênito do Pai” (v. 14).
A celebração do Natal é apelo a renovar em nós a consciência de, no Filho Unigênito, sermos filhos de Deus. E como o Verbo veio ao mundo revelar quem é Deus, quem é Deus para nós e quem somos nós, quem somos nós para Deus, assim, cada um é chamado a entrar nessa dinâmica e levar a todos que encontramos, à sociedade em suas estruturas, às culturas, a Boa Notícia de um Deus que se faz próximo e que deseja ser recebido, para levar todos à plenitude da vida. Experimentando seu divino poder (sua glória), tornamo-nos testemunhas da Palavra que se fez carne e não só viveu neste mundo, mas ainda hoje vive (invisível, mas realmente) entre nós.
1ª leitura (Is. 52,7-10)
O texto de Isaías apresenta a grande exultação proveniente da boa notícia de que o povo pode finalmente retornar à sua terra, pois terminou o exílio na Babilônia. É um alegre anúncio, que traz uma realidade nova.
Não só os pés são belos, mas o que acontece, o anúncio da Boa Notícia. O mensageiro traz a notícia de algo que já aconteceu, que já está se realizando. E o centro de sua mensagem é: “Teu Deus reina”, ele é o Senhor.
À voz do mensageiro une-se então a voz das sentinelas. Elas gritam de alegria, pois veem Deus que retorna a Sião. É um modo de falar da certeza e da realidade da vinda de Deus, que, concretamente, significa que os exilados retornarão e reconstruirão a cidade de Jerusalém, que se encontra semidestruída.
Por fim, levantam a voz as “ruínas de Jerusalém”.
O povo que ficou na terra e também os que foram para o exílio se rejubilam com a nova época que está começando. Deus consolou o seu povo, mudou sua situação (v. 9).
Manifestou, assim, sua força aos estrangeiros (os babilônios e todos os que testemunharam a derrota de Babilônia e a volta dos exilados), que reconheceram então o poder de Deus que salva seu povo (v. 10).
No Novo Testamento, não se trata mais de Deus que retorna a Sião, mas do Verbo que “sai” de sua transcendência e vem à humanidade, para revelar a todos a Boa Notícia. Natal não é um acontecimento intimista. Mas, celebrado no coração, pessoalmente, embora no seio da comunidade eclesial, tem dimensões universais. Como tal, deve ser vivido, testemunhado, anunciado.
Natal é apelo à missão, ao anúncio que porta alegria, que renova as ruínas deste mundo, transformando-as de trevas em luz, levando-as ao máximo do que a humanidade pode desejar: a comunhão com Deus – a transbordar para todas as realidades.
2ª leitura (Hb. 1,1-6)
Enquanto o prólogo de São João acentua o Verbo na sua preexistência e em sua vinda na história, o início da carta aos Hebreus põe em relevo a Palavra como ponto ômega da revelação de Deus, dirigida a nós (“falou-nos”) “nestes dias que são os últimos” (v. 1). Insiste na dignidade, superior a tudo, dessa última e definitiva Palavra de Deus, Jesus:
– Tudo pertence a ele, ele é o herdeiro de tudo; por ele todo o universo foi criado (v. 2);
– Ele é a imagem pura e esplendorosa da glória, da transcendência e da beleza fascinante do Pai (v. 3) e, nisso, é igual ao Pai;
– Tendo realizado a salvação do gênero humano, está à direita do Pai, partilhando o mesmo poder (v. 3);
– Dá continuamente a todo o universo a possibilidade de existir (v. 3);
– É superior aos anjos (v. 4-6), pois é o próprio Deus.
Essa palavra, essa mensagem, fala diretamente a cada um, interpela pessoalmente (v. 2) e de cada um quer receber uma resposta.
No Natal, contemplamos a fraqueza de um recém-nascido. Deciframos na fé sua identidade divina, a beleza da glória do Pai que se visibiliza na sua vida humana. É-nos dado experimentar algo da sua glória (cf. Jo 1,14).
Podemos, então, avaliar melhor a bondade que o fez assumir nossa indigência. E assim cremos que ele assume também toda a fragilidade de nossa existência, da vida, da história e, nela e através dela, é capaz de mostrar seu poder, pelo qual nós somos transformados (cf. Hb. 2,10-11; 3,14; 6,19).
Dicas para reflexão
– Como a celebração do Natal pode nos ajudar a crescer na fé em Jesus, na nossa aceitação de sua Pessoa e de seu Evangelho?
– “O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus” (Rm. 8,16). Estamos abertos a essa voz?
Quais as consequências de, na vida cotidiana, sabermos que somos filhos de Deus: no nosso modo de agir, de falar, de pensar e no nosso modo de tratar os irmãos?
– Sabemos viver e anunciar o Evangelho como anúncio que traz alegria, que é capaz de renovar as ruínas de nossa vida, de nossa convivência fraterna, de nossos ambientes de trabalho, enfim, de toda a sociedade?
Maria de Lourdes Corrêa Lima
No visível, vemos a invisível glória de Deus
Jesus Cristo é o ponto máximo da revelação de Deus. Igual a Deus (2ª leitura), comunica-nos sua vida divina. É essa a melhor notícia que a humanidade poderia receber (1ª leitura) e pela qual, desde os seus primórdios, sempre esperou: o Verbo de Deus se encarna e nos dá o poder de nos tornarmos filhos de Deus. Nós o acolhemos pela fé, que nos faz experimentar algo da glória de Deus (Evangelho).
Evangelho (Jo 1,1-18)
O prólogo do Evangelho de são João fala da Palavra que, existindo em Deus, vem a
este mundo. Um dos pontos fortes de sua mensagem encontra-se nos v. 10-13. Eles apresentam o contraste entre aqueles que aceitam e os que rejeitam a vinda da Palavra feita homem. A Palavra de Deus, no prólogo de são João, não é só aquela por meio da qual o cosmo e o habitat humano foram feitos (v. 3.10), mas aquela que é a vida e que a comunica à humanidade (v. 3). Ela veio ao mundo humano (“estava no mundo” v. 10), mas – eis o paradoxo! – a humanidade, criada por meio dela e que dela tinha a vida, não a reconheceu (v. 10) em sua dignidade divina (v. 1) e em sua condescendência que a fez vir ao seu encontro (“ela veio”, v. 11a).
Não se fala que sua obra ou sua mensagem não foram aceitas, mas que sua Pessoa não foi aceita. Como é sério que a humanidade – uma parte dela – possa rejeitar Aquele que lhe vem ao encontro como fundamento da vida! Por que o fizeram? O texto não explica, apenas descreve o acontecimento, como se ele não precisasse de explicação ou, em outras palavras, como se ele fosse (considerado em si mesmo) inexplicável.
Esse mesmo pensamento volta no v. 11, mas de forma mais enfática, pois são precisamente os “seus” que não o aceitam. Também aqui se trata da humanidade inteira. Ela é “sua”, pertence à Palavra de Deus, pois foi criada por meio dela e dela recebeu a luz (v. 4.9). Mais tarde, o mesmo Evangelho dirá que é a humanidade amada até o extremo do amor (Jo 13,1: “ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até o extremo”).
Essa humanidade não recebeu em seu “mundo” o Verbo que é Senhor do mundo e da humanidade.
Houve, no entanto, quem o recebesse (v. 12). Fica claro, assim, que Deus deixou uma possibilidade de opção. A história é o lugar da decisão humana. Aqueles que se encontravam nas trevas (v. 4) podiam acolher a luz. “Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”, disse Jesus (Jo 9,5); e completou afirmando que essa presença da luz exige um discernimento entre aqueles que a recebem e os que a rejeitam (cf. Jo 9,39).
Fica claro igualmente que acolher a Palavra traz uma consequência maravilhosa: receber o poder de se tornar filho de Deus. A Palavra dá essa capacidade, como que transfere um poder que lhe é próprio (ele é o Filho Unigênito do Pai: v. 14) aos que a acolhem. Isso acontece pela fé (v. 12: “os que creem em seu nome”), que é a atitude fundamental para a salvação: “A obra de Deus é que acrediteis naquele que Ele enviou” (Jo 6,29); “Todo o que nele crer... tenha a vida eterna” (Jo 3,15); “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá... Crês nisso?” (Jo 11,25-26).
Essa fé, na prática da Igreja dos inícios, leva ao batismo, que é nascimento não segundo a natureza, mas nascimento “de Deus” (v. 13; cf. Jo 3,3: “nascer do alto”).
Num mundo que tantas vezes rejeita, teoricamente ou na prática, o Filho de Deus encarnado, é fundamental renovar nossa opção de fé, recebê-lo. Ele não veio de forma esplendorosa, impondo-se por uma presença cheia de poder. Mas, na simplicidade da vida humana que assumiu, tanto mais apela a que ultrapassemos o imediato e cheguemos a reconhecê-lo em sua realidade escondida.
Na fé que nos torna filhos de Deus, podemos, na sua vida humana, “ver a sua glória”, a “glória que Ele possui como Unigênito do Pai” (v. 14).
A celebração do Natal é apelo a renovar em nós a consciência de, no Filho Unigênito, sermos filhos de Deus. E como o Verbo veio ao mundo revelar quem é Deus, quem é Deus para nós e quem somos nós, quem somos nós para Deus, assim, cada um é chamado a entrar nessa dinâmica e levar a todos que encontramos, à sociedade em suas estruturas, às culturas, a Boa Notícia de um Deus que se faz próximo e que deseja ser recebido, para levar todos à plenitude da vida. Experimentando seu divino poder (sua glória), tornamo-nos testemunhas da Palavra que se fez carne e não só viveu neste mundo, mas ainda hoje vive (invisível, mas realmente) entre nós.
1ª leitura (Is. 52,7-10)
O texto de Isaías apresenta a grande exultação proveniente da boa notícia de que o povo pode finalmente retornar à sua terra, pois terminou o exílio na Babilônia. É um alegre anúncio, que traz uma realidade nova.
Não só os pés são belos, mas o que acontece, o anúncio da Boa Notícia. O mensageiro traz a notícia de algo que já aconteceu, que já está se realizando. E o centro de sua mensagem é: “Teu Deus reina”, ele é o Senhor.
À voz do mensageiro une-se então a voz das sentinelas. Elas gritam de alegria, pois veem Deus que retorna a Sião. É um modo de falar da certeza e da realidade da vinda de Deus, que, concretamente, significa que os exilados retornarão e reconstruirão a cidade de Jerusalém, que se encontra semidestruída.
Por fim, levantam a voz as “ruínas de Jerusalém”.
O povo que ficou na terra e também os que foram para o exílio se rejubilam com a nova época que está começando. Deus consolou o seu povo, mudou sua situação (v. 9).
Manifestou, assim, sua força aos estrangeiros (os babilônios e todos os que testemunharam a derrota de Babilônia e a volta dos exilados), que reconheceram então o poder de Deus que salva seu povo (v. 10).
No Novo Testamento, não se trata mais de Deus que retorna a Sião, mas do Verbo que “sai” de sua transcendência e vem à humanidade, para revelar a todos a Boa Notícia. Natal não é um acontecimento intimista. Mas, celebrado no coração, pessoalmente, embora no seio da comunidade eclesial, tem dimensões universais. Como tal, deve ser vivido, testemunhado, anunciado.
Natal é apelo à missão, ao anúncio que porta alegria, que renova as ruínas deste mundo, transformando-as de trevas em luz, levando-as ao máximo do que a humanidade pode desejar: a comunhão com Deus – a transbordar para todas as realidades.
2ª leitura (Hb. 1,1-6)
Enquanto o prólogo de São João acentua o Verbo na sua preexistência e em sua vinda na história, o início da carta aos Hebreus põe em relevo a Palavra como ponto ômega da revelação de Deus, dirigida a nós (“falou-nos”) “nestes dias que são os últimos” (v. 1). Insiste na dignidade, superior a tudo, dessa última e definitiva Palavra de Deus, Jesus:
– Tudo pertence a ele, ele é o herdeiro de tudo; por ele todo o universo foi criado (v. 2);
– Ele é a imagem pura e esplendorosa da glória, da transcendência e da beleza fascinante do Pai (v. 3) e, nisso, é igual ao Pai;
– Tendo realizado a salvação do gênero humano, está à direita do Pai, partilhando o mesmo poder (v. 3);
– Dá continuamente a todo o universo a possibilidade de existir (v. 3);
– É superior aos anjos (v. 4-6), pois é o próprio Deus.
Essa palavra, essa mensagem, fala diretamente a cada um, interpela pessoalmente (v. 2) e de cada um quer receber uma resposta.
No Natal, contemplamos a fraqueza de um recém-nascido. Deciframos na fé sua identidade divina, a beleza da glória do Pai que se visibiliza na sua vida humana. É-nos dado experimentar algo da sua glória (cf. Jo 1,14).
Podemos, então, avaliar melhor a bondade que o fez assumir nossa indigência. E assim cremos que ele assume também toda a fragilidade de nossa existência, da vida, da história e, nela e através dela, é capaz de mostrar seu poder, pelo qual nós somos transformados (cf. Hb. 2,10-11; 3,14; 6,19).
Dicas para reflexão
– Como a celebração do Natal pode nos ajudar a crescer na fé em Jesus, na nossa aceitação de sua Pessoa e de seu Evangelho?
– “O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus” (Rm. 8,16). Estamos abertos a essa voz?
Quais as consequências de, na vida cotidiana, sabermos que somos filhos de Deus: no nosso modo de agir, de falar, de pensar e no nosso modo de tratar os irmãos?
– Sabemos viver e anunciar o Evangelho como anúncio que traz alegria, que é capaz de renovar as ruínas de nossa vida, de nossa convivência fraterna, de nossos ambientes de trabalho, enfim, de toda a sociedade?
Maria de Lourdes Corrêa Lima

NATAL - MISSA DA NOITE
24 DE DEZEMBRO DE 2017

Uma Luz

A liturgia desta noite nos fala de um Deus que ama os homens;
por isso, não os deixa perdidos e abandonados a percorrer caminhos de sofrimento e de morte, mas envia "um menino" para lhes apresentar uma proposta de vida e de liberdade.
Nas "trevas" da Noite, queremos celebrar esse menino, que veio para ser a "Luz" de todos os Povos.
A 1ª Leitura anuncia a chegada de "um menino", da descendência de David, que inaugurará uma era de alegria, de felicidade e de paz sem fim. (Is 9,1-6)
No tempo de Isaías (732 a.C), a população da Galileia (Zabulon e Naftali) "andava nas trevas da morte", sob a opressão e a violência do império assírio.De repente, surge uma "Luz": um "Menino" será enviado por Deus para restaurar o trono de Davi e para estabelecer a paz, o direito e a justiça.
Essa promessa alimentou o sonho de um futuro novo de paz e de felicidade. Jesus é essa "Luz" anunciada pelo profeta, que veio vencer as "trevas da morte". A Galileia oprimida torna-se imagem de toda a humanidade,e aquele em quem ela coloca sua esperança deve ser o Salvador de todos.
O nascimento que celebramos esta noite significa que este "Reino" chegou. No entanto, ele já é de fato uma realidade viva na história humana?
Acolher Jesus, celebrar o seu nascimento, é aceitar esse projeto de justiça e de paz que Ele veio trazer aos homens. Em quê, ou em quem coloco eu a minha esperança e a minha segurança? Nos políticos, que prometem e se servem da minha ingenuidade para fins próprios? No dinheiro, que se desvaloriza e que não serve para comprar a paz do coração?
Na situação sólida da minha empresa, que pode desfazer-se nas convulsões sociais ou numa crise econômica?  Isaías diz que só podemos confiar em Deus e nesse "menino" que Ele mandou ao nosso encontro, se quisermos encontrar a "luz" e a paz.
Reparemos, ainda, no "jeito" de Deus: Ele não se serve da força e do poder para intervir na história e mudar o mundo. É através de um "menino", símbolo da fragilidade e da dependência, que Deus propõe aos homens o seu projeto de salvação. Temos consciência de que é na simplicidade e na humildade que Deus age no mundo?
A 2ª Leitura lembra-nos as razões pelas quais devemos viver uma vida cristã autêntica e comprometida. (Tt 2,1-14).
Se quisermos que a Luz se manifeste, essa vida nova recebida deve manifestar-se em nossa vida.
O Evangelho narra a realização da tão esperada promessa: O Sinal é um menino recém-nascido em Belém, envolto em faixas e deitado numa manjedoura. (Lc 2,1-14) Lucas pretende apresentar uma catequese sobre Jesus. Por isso, as indicações são mais teológicas do que geográficas ou históricas.
BELÉM: Sugere que Jesus é o Messias, da descendência de Davi, anunciado pelos profetas. Um lugar pequeno e afastado dos grandes centros.
O QUADRO do Nascimento: apresenta a pobreza e a simplicidade que rodeiam a vinda ao mundo do libertador dos homens: a falta de lugar na hospedaria, a manjedoura dos animais a fazer de berço, os panos improvisados que envolvem a criança, a visita dos pastores…  É na pobreza, na simplicidade, na fragilidade, que Deus se manifesta aos homens e lhes oferece a salvação.
As TESTEMUNHAS do Nascimento: Os Pastores, gente considerada rude, violenta, marginalizada, colocada ao lado dos publicanos e dos cobradores de impostos. Sugere que é para estes pecadores e marginalizados que Jesus vem; por isso, a chegada de um tal "salvador" é uma "boa notícia": a partir de agora, os pobres, os fracos, os marginalizados, os pecadores, são convidados a integrar a comunidade dos filhos amados de Deus.
Os TÍTULOS dados pelos anjos definem o papel e a Missão de Jesus: Ele é "o Salvador, Cristo e Senhor".
No Prefácio,  proclamamos hoje jubilosos nossa ação de graças ao Pai. "Quando o vosso Filho se fez homem,  nova LUZ da vossa glória brilhou para nós, para que, vendo a Deus com nossos olhos, aprendêssemos a amar nele a divindade que ao vemos" (prefácio).
Essa Luz já está presente em nossa vida, iluminando nossos atos? Por que ele quis nascer na pobreza, fora de casa, sem o aconchego de um berço bem quentinho? E depois, passar longos anos nessa pobreza,  vivendo com o trabalho de suas mãos e dar a vida por nós?
Porque nos ama tanto e ama a todos... Sejamos os anunciadores dessa Boa Nova: Cristo nasceu, trazendo-nos a alegria e a Paz.

                                    Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa - 24.12.2014





4º DOMINGO DO ADVENTO
23 de Dezembro de 2017

Eis! Estamos no último dos quatro domingos do santo Advento! Estamos já em plena Semana Santa do Natal, iniciada no dia 17 de dezembro. A Igreja, agora, é toda atenção, toda contemplação do mistério da encarnação, preparando-se para celebrar o Natal do Senhor. Sua vinda é a nossa salvação, sua chegada é o anúncio da esperança a todos os povos, a toda a humanidade, a anual celebração do seu Natal recorda-nos que nosso Deus não é de longe, mas de perto, de pertinho da humanidade toda e de cada um de nós. O Filho eterno de Pai fez-se homem para encher de Vida divina a nossa existência humana. É esta o Mistério de que fala são Paulo na segunda leitura da Missa de hoje: “Mistério mantido em sigilo desde sempre. Agora, este mistério foi manifestado e... conforme determinação do Deus eterno, foi levado ao conhecimento de todas as nações, para trazê-las à obediência da fé!” Antes, parecia que Deus era Deus somente de Israel, esquecendo os outros povos, a grande massa da humanidade. Agora, não! Com a aproximação do Santo Natal, contemplamos a benevolência de Deus para toda a humanidade: no segredo do seu coração havia um amoroso e misterioso projeto: salvar toda a humanidade pelo fruto que haveria de vir da raça de Israel, da tribo de Judá, da Casa de Davi.
O que nos deve encantar neste domingo, não é somente a grandiosidade desse mistério, dessa surpresa de um Deus que, desde sempre, preocupou-se com todos, com toda a humanidade e não só com Israel... o que nos deve encantar é também o modo como o Senhor realiza o seu desígnio: ele age nos escondido da história humana, no pequenininho de nossas vidas, nas humildes decisões de nossa existência. Pensemos bem! Primeiro, o rei Davi, humilde pastor de Belém, mais novo dos muitos filhos do velho Jessé. E Deus o escolheu: para rei e para dele fazer uma dinastia da qual nasceria o Santo Messias. Davi, que desejava humildemente construir uma casa, um templo para o Senhor, fica sabendo que é Deus quem lhe construirá uma Casa, isto é, uma dinastia, uma descendência, da qual nascerá Aquele bendito Descendente que enche de alegria o nosso coração: “O Senhor te anuncia que te fará uma casa. Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então, suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei a sua realiza. Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre!” Eis a bondade do Senhor, que de um simples pastorzinho fará nascer o Salvador que reina para sempre. Depois, podemos pensar em José, naquele que tinha recebido como prometida em casamento uma virgem mocinha chamada Maria... José, homem simples, moço de Deus. Membro pobre da família real de Davi, simples artesão. Moço de Deus, que vivia na justiça do Senhor, praticando a Lei do Deus de Israel. E o Senhor, misteriosamente o escolhe para ser o esposo daquela na qual se cumprirão as palavras do Senhor. Recordemo-nos do Evangelho segundo Mateus: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo de seus pecados” (Mt. 1,20-21). Pobre José! Bendito José! Jamais esperaria tal coisa, tal gesto imprevisto do Santo de Israel! Ele, um simples carpinteiro, cuidador, tutor, guardador, de um filho que não seria seu filho! Ele escutaria, doravante, o Filho eterno do eterno Pai, chamá-lo de pai!
Finalmente, pensemos em Maria. Aqui a surpresa de Deus chega ao máximo. Uma jovenzinha pobre, uma virgem sem nome importante, perdida nas montanhas do norte da Terra Santa, em Nazaré da Galiléia. E o Senhor Deus lhe dirige a palavra, faz-lhe a mais estonteante proposta que um pobre filho de Eva jamais escutara: ser, virginalmente, a mãe do Messias, a Mãe do Filho de Deus, a Terra bendita e santa na qual brotaria a Raiz de Jessé, o Rebento prometido; ser a doce a Aurora do Dia sem fim, ser a Estrela d’Alva que prenuncia o Sol eterno! “Alegra-te, Cheia de Graça! O Senhor é contigo, Virgem Maria! Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus!”.
São Bernardo de Claraval, no século XII, imaginando este encontro inaudito, entre a Virgem e o anjo, diz a Nossa Senhora: “Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz um filho, não por obra de homem, mas do Espírito Santo. O anjo espera tua resposta. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos tua palavra de misericórdia. Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação; se consentes, seremos livres; com uma breve resposta tua seremos chamados à vida! Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés. E não é sem razão, pois de tua palavra depende o alívio dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, enfim, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua raça. Apressa-te, ó virgem, em dar a tua resposta! Por que demoras? Por que hesitas? Crê, consente, recebe! Abre, Virgem santa, teu coração à fé, teus lábios ao consentimento, teu seio ao Criador. Levanta-te pela fé, corre pela entrega a Deus, abre pelo consentimento. ‘Eis aqui a serva do Senhor, diz a Virgem; faça-se e mim segundo a tua palavra’!”
Tão grande plano de Deus, tão grande salvação, deu-se na simplicidade de vidas humanas que foram dizendo sim ao Senhor, que foram se abrindo para ele nas pequenas e escondidas ocasiões da vida: Maria, a Virgem, José, o pobre descendente de Davi, Davi, o pastor que se tornou rei... E agora – ainda agora – o Senhor vem e nos convida a nós – a mim e a você – a que abramos nossa vida, nosso pequeno cotidiano, para a sua presença. Através de cada um de nós ele deseja continuar a obra de sua salvação, a marca da sua presença neste mundo enfermo e cansado.
Virgem Maria, Mãe de Deus, são José, esposo da virgem, são Davi, rei e profeta, intercedei por nós, para que sejamos dóceis e úteis instrumentos da salvação que Deus hoje quer revelar e atuar no coração dos homens e do mundo. Que através de nossa pobre vida, vivida com disponibilidade, o Senhor Jesus seja visto no nosso mundo tão confuso, tão disperso, tão superficial e ameaçado por tantas trevas.

dom Henrique Soares da Costa

3º DOMINGO DO ADVENTO
17 de Dezembro de 2017

A tradição litúrgica da Igreja chama este terceiro domingo do Advento de Gaudete, isto é “Alegrai-vos!” No missal romano, a antífona de entrada exclama: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto!” (Fl. 4,4.5). Como expressão dessa alegria, pode-se usar no lugar do roxo, o cor-de-rosa, no tom conhecido como “rosa antigo”. É um roxo suavizado, que exprime a exultação pela aproximação do Santo Natal. Alegrai-vos! Alegremo-nos! O Senhor está perto! Está próximo o Natal; está próxima a Vinda do Senhor; está próximo de nós o Salvador nosso nos diversos momentos de nossa existência! Ele não é Deus de longe; é Deus de perto: seu nome será para sempre Emanuel, Deus-conosco!
Alegrai-vos! Há quem se alegre no pecado, há quem se alegre em futilidades, há quem, mesmo alegrando-se com coisas que valem a pena, esquece que toda alegria é passageira. Quanto a vós, caríssimos, alegrai-vos com tudo quanto é bom e louvável, mas colocai vossa maior e definitiva alegria no Senhor! Somente nele o coração repousa plenamente, somente nele encontra-se a paz que dura mesmo em meio à tribulação mais dura, somente nele o anseio mais profundo de nossa alma. Alegrai-vos! Mas seja o Senhor o fundamento da vossa alegria, a causa última da vossa exultação!
Mas, quem é esse Senhor em quem nos mandam que nos alegremos? O Batista, neste hoje, nos adverte: “No meio de vós está Aquele que vós não conheceis!” Quem é ele? Quem é este “Aquele”? João Batista, como bom mensageiro faz questão de desaparecer: “Não sou o Messias, não sou Elias (coitados dos espíritas!), não sou o profeta anunciado por Moisés! Sou apenas a voz que grita no deserto: "Aplainai o caminho do Senhor!" Insistimos: quem é esse que está no nosso meio e que é preciso conhecer e reconhecer sempre de novo para ter a alegria verdadeira? Ele é o Messias, Jesus de Nazaré, o Ungido de Deus, o Enviado para trazer a salvação, a alegria e a paz para todos os pobres de todas as pobrezas do mundo. Ouçamo-lo, deixemos que ele se nos apresente: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a Boa Nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção aos cativos e a liberdade para os que estão presos; para proclamar o tempo da graça do Senhor!” Eis, o Messias que esperamos, o Salvador que Deus nos concedeu. Ele, que veio em Belém, que virá no final dos tempos, ele mesmo vem a cada dia de nossa atribulada existência! - Vem, Senhor Jesus! Vem, santo Messias! Teu povo suspira por ti, tua Igreja sofrida e caminheira precisa de ti! Não nos abandones, não nos deixes sozinhos! Vem, Ungido de Deus, prometido aos nossos pais, anunciado pelos profetas, apontado pelo Batista, colocado sob a guarda do carpinteiro José, concebido e dado à luz pela Virgem Mãe! Vem, e a Mãe Igreja exclamará (e nosso coração exclamará  com ela): “Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se no meu Deus; ele me vestiu com vestes de salvação; adornou-me como um noivo com sua coroa ou uma noiva com suas jóias!”
Eis a causa da nossa alegria. Nós, os cristãos, temos direito de nos alegrar, mesmo diante das tristezas do mundo; temos o dever de manter a esperança, mesmo quando as possibilidades humanas fracassam; temos a oportunidade de continuar esperando ainda quando os nossos cálculos mostrem-se errados. Porque nossa esperança e certeza não se fundam em nós nem em nossas possibilidades, mas naquele que vem, naquele que o Pai do céu nos envia, naquele que nunca conseguiremos conhecer totalmente, o Messias do Pai, Jesus, nosso Deus-Salvador!
Resta-nos, então, escutar com atenção o conselho do Apóstolo: estar sempre alegre em Cristo; com os olhos fixos nele; orar sem cessar, buscando realmente ser amigo íntimo do Senhor, dando graças em todas as circunstâncias, sabendo que ele está próximo de nós, nunca longe de nossas aflições e desafios. E mais: afastarmo-nos de toda maldade, procurando viver segundo Cristo e não segundo o mundo, santificando no Senhor nosso corpo, nossa alma e nosso espírito ou, em outras palavras, nossa dimensão física, nossa vida inteligente e nossa sede de Deus, nossa saudade de Infinito.
Num mundo que nos despreza porque somos cristãos, numa sociedade pagã, que nos ridiculariza e nos olha com indiferença, tenhamos esta certeza: “Quem vos chamou é fiel; ele mesmo realizará isso!” Ele nunca nos deixará!
Que a escuta da Palavra santa do Senhor e a participação no mistério do seu Corpo e do seu Sangue nos preparem não somente para as festas que se aproximam mas, sobretudo para o Dia da Vinda do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo!

dom Henrique Soares da Costa

2º DOMINGO DO ADVENTO
10 de Dezembro de 2017

O tempo do Advento coloca-nos diante da miséria da humanidade, da pobreza e aperto da Igreja, da nossa própria miséria. Pobre humanidade: por mais que se julgue auto-suficiente, é tão insuficiente, por mais que deseje ser seu próprio deus, não passa de pó que o vento leva. Pobre Igreja, tão santa pela santidade de Cristo, o Santo de Deus, mas tão envergonhada pelos pecados de seus filhos e até de seus pastores, que deveriam ser exemplo e orgulho do rebanho; tão difamada, tão vilipendiada, tão humilhada nos dias atuais. Pobres de nós, que vivemos uma vida tão cheia de percalços e angústias, de lutas e lágrimas, de desafios que, às vezes, pararem mais fortes que nós! Eis a humanidade! Como no passado, ainda hoje precisamos de um Salvador; como Israel que esperou, nós, Igreja de Cristo, suplicamos: Vem, Senhor! Manifesta o teu poder! Que passe logo este mundo de tanta ambigüidade e provação; que venha a plenitude do teu Reino, que venha o teu Dia, que venha logo a plenitude da tua graça! É este o horizonte para contemplarmos a Palavra de Deus deste II Domingo do Advento. No Missal romano, as palavras de entrada da Missa, tiradas do Profeta Isaías, já nos são de tanto consolo: “Povo de Sião – somos nós, meus irmãos, somos nós! – o Senhor vem para salvar as nações! E, na alegria do vosso coração, soará majestosa a sua voz!” (Is. 30,19.30). Sim! O Senhor vem! Aquele que nunca nos deixou e vem sempre nas pequenas coisas e ocasiões da vida, ele mesmo virá, um Dia, no fulgor da sua glória: ele, nossa justiça, ele, nosso esperança, ele, nosso Salvador!
Escutemos o Profeta, falando em nome de Deus! Escutemos as palavras que ele manda dizer à sua Igreja sofredora e humilhada, tentada pelo desânimo: “Consolai, consolai o meu povo! Falai ao coração de Jerusalém e dizei em alta voz que a sua servidão acabou!” O Senhor vem, cheio de mansidão e misericórdia, de bondade e compaixão! No Natal nós veremos que Deus é amor, veremos do que ele é capaz por nós: capaz de fazer-se pequeno, capaz de fazer-se criança, capaz de fazer-se pobre entre os pobres do mundo! “Sobe a um alto monte, tu que trazes a Boa Nova a Sião, levanta com força a tua voz; dize às cidades de Judá: ‘Eis o vosso Deus! Como um pastor, ele apascenta o rebanho, reúne com a força dos braços os cordeiros e carrega-os ao colo; ele mesmo tange as ovelhas que amamentam'”.
Caríssimos, não desanimemos, não temamos, não percamos o rumo da nossa vida, não esfriemos na nossa fé e na nossa esperança: tudo caminha para esse encontro com Aquele que vem! Deus não se esqueceu de nós, não virou as costas para o mundo, não abandonou a sua Igreja! Recobremos o ânimo, renovemos as nossas forças, colocando no nosso Deus a nossa esperança e a nossa certeza! Se olharmos para nós, quanto desânimo e incapacidade; se olharmos para o nosso Deus, quanta esperança e certeza de salvação!
Mas, a Vinda do Senhor, Vinda salvadora, será também uma Vinda de julgamento: na sua luz, bem e mal, santidade e pecado, retidão e maldade, fidelidade e infidelidade aparecerão. Na sua Vinda, tudo será queimado, purificado no fogo devorador do seu Espírito Santo, aquele que argüirá o mundo quanto à justiça, quanto ao julgamento e quanto ao pecado (cf. Jo. 16,8-11). A Palavra de Deus hoje nos adverte severa e insistentemente sobre isso: “Eis o vosso Deus, eis que o Senhor Deus vem com poder, seu braço tudo domina: eis, com ele, sua conquista, eis à sua frente a vitória! O Dia do Senhor chegará como um ladrão, e então os elementos, devorados pelas chamas, se dissolverão, e a terra será consumida com tudo o que nela se fez. O que nós esperamos são novos céus e nova terra, onde habitará a justiça!” O Senhor, portanto, julgará tudo: na luz, do seu Espírito Santo, tudo será colocado às claras; no fogo do seu Espírito Santo, tudo será purificado, e aquilo que não foi de acordo com o seu Evangelho, com a sua Verdade, com a sua Cruz, será consumido no nada, no pó, no choro e ranger de dentes. Na luz e no fogo do Espírito de Cristo, tudo será passado a limpo: a  história da humanidade e a nossa história pessoal...
Por isso mesmo, a insistente exortação que a Palavra nos faz hoje à vigilância. São Pedro, na segunda leitura, recorda-nos que este tempo de nossa vida é tempo da paciência de Deus, tempo de aproveitar para trabalhar para a nossa conversão: “O Senhor está usando de paciência para convosco. Pois não deseja que alguém se perca. Ao contrário, quer que todos venham a converter-se!" Bispos e padres, convertei-vos! Mudai vossa vida, abri vosso coração! Não vos iludais, pensando que podeis vos acostumar com o Senhor: pregais a Palavra dele e sereis julgados pela Palavra que pregais! Religiosos e religiosas, convertei-vos ou morrereis eternamente no fogo que não acaba! Não podeis fingir, não podeis enganar o Senhor! Povo todo de Deus: jovens e adultos, idosos e crianças, solteiros e pais e mães de família, convertei-vos, mudai vosso procedimento! Vivei de acordo com o que sois: sois a Igreja santa, sois o povo santo de Deus, sois a herança de Cristo! Convertei-vos todos, pois o Senhor a todos examinará! Com a vossa vida e o vosso procedimento, preparai no deserto de vossa vida o caminho do Senhor. Nivelem-se todos os vales de nossas baixezas e pecados, rebaixem-se todos os montes e colinas do nosso orgulho, soberba e prepotência; endireite-se o que é torto no nosso pensamento e no nosso procedimento e alisem-se as asperezas de nosso modo de tratar os irmãos. Então, a glória do Senhor se manifestará na nossa vida e nós seremos luz para a humanidade em trevas! Irmãos, não somos da noite, não somos das trevas! Somos filhos da Luz de Cristo, somos filhos do Dia do Senhor!
A figura de João Batista, com toda a sua austeridade e com suas palavras de advertência são um sério convite a que revisemos nosso modo de viver. Hoje, caríssimos, o mundo é todo paganizado; nosso País está se tornando cada vez mais pagão. Mas, isso não é o mais triste. O mais triste, o que nos corta o coração, é ver os cristãos vivendo como os pagãos, pensando como os pagãos, falando como os pagãos, agindo como os pagãos, gostando das coisas que agradam aos pagãos! Nós, que vimos a Luz; nós, que temos a consolação de Cristo; nós que temos o seu Espírito; nós, que nos alimentamos com o pão da sua Palavra e do seu Corpo e Sangue! Não fugiremos à Ira, caríssimos! Não escaparemos do tremendo tribunal de Cristo! João Batista é claro: “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo!” Não se brinca com Cristo: se João - austero, piedoso e coerente - não se sentia digno de desamarrar suas sandálias, que será de nós? Ele nos batizará, nos mergulhará no fogo do seu Espírito... e, então, ai do infiel, ai do que fez pouco caso da sua Palavra, das suas exigências, do seu amor, ai do cristão e nome e pagão de vida!

dom Henrique Soares da Costa

IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA
08 de Dezembro de 2017

O tempo do Advento tem, sem dúvida alguma, um sabor mariano. É com a Virgem que melhor aprendemos como esperar o Sol que nasce da Aurora, o Cristo, nosso Deus! Por isso, é muito conveniente celebrar hoje a solenidade da Imaculada Conceição de Maria, a Virgem.
O que a Igreja crê e celebra neste mistério? A Escritura Santa nos ensina que a humanidade fora criada por Deus para a comunhão com ele, para ser feliz convivendo com ele, com ele construindo a vida e o mundo. Mas, infelizmente, desde o início da história humana e até hoje, nossa raça foi dizendo “não” ao sonho de Deus: quisemos e queremos ainda ser como deuses, conhecedores do bem e do mal (cf. Gn. 3,4s); queremos viver a vida de modo autônomo, como se a existência fosse nossa e não um dom recebido de Deus. Se não dizemos, pensamos muitas vezes: a vida é minha; faço como eu quero! O resultado dessa atitude tem sido trágico: tornamo-nos uma humanidade ferida, esfacelada, num mundo também ferido e esfacelado. Somos todos presa de um enorme fechamento para Deus, uma desconfiança nele, uma tendência de não percebê-lo... por isso, somos profundamente desequilibrados no nosso modo de nos ver, de ver a vida, de nos relacionar com os outros e com o mundo. Somos um poço de contradições, de paixões, de anseios desencontrados e sentimentos muitas vezes destrutivos... Somos, pois, profundamente feridos; feridos de morte, feridos até a morte! É esta situação miserável que a Igreja denomina “pecado original”, pecado que já nos marca desde o primeiro momento de nossa existência: “Minha mãe já concebeu-me pecador” (Sl. 50,7). É desta situação miserável, sem saída, que Cristo nos arranca com a sua encarnação, sua vida, sua morte e ressurreição, com o dom do seu Espírito: “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus e são justificados gratuitamente em virtude da redenção realizada por Jesus Cristo” (Rm. 3,23s). 
Pois bem, a Igreja crê firmemente que a Virgem Maria, desde o primeiro momento em que foi concebida no seio de sua mãe, foi preservada por Deus desta solidariedade com esta situação de pecado. Nós, já nascemos marcados de morte; ela, desta marca de pecado foi preservada; nós, precisamos ser arrancados da lama do pecado graças à cruz do Cristo; ela, pela cruz do Cristo foi liberta desde a origem e sequer foi tocada por esta lama maldita; nós fomos redimidos porque lavados desta lama, ela, foi ainda mais perfeitamente redimida porque, pelos méritos da Paixão do Senhor, sequer experimentou esta situação de pecaminosidade. Desde o ventre materno, desde o primeiro instante de sua concepção, o Senhor a libertou, graças aos méritos de Cristo. Ela, a Virgem, pode ser chamada Toda Santa, isto é, Toda Santificada, ela pode cantar as palavras da profecia de Isaías: “Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me vestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias!”
A Igreja crê nesta Concepção Imaculada da Mãe de Jesus e com ela se alegra. E crê fundamentada na Escritura Sagrada. Não á a Palavra de Deus que afirma que o Senhor colocou uma inimizade de morte entre a Serpente e a Mulher, entre a descendência de Serpente e a da Mulher? Quem é esta Mulher? Não é aquela a quem Jesus chama Mulher em Caná e ao pé da cruz? Não é aquela de quem São Paulo diz: “Quando chegou a plenitude dos tempos, enviou Deus o seu Filho nascido de Mulher? Como, pois, poderia estar sob o domínio do pecado, fruto da serpente, a Mulher de quem nasceria o Cordeiro sem mancha, que tira o pecado do mundo? Estejamos atentos ainda no modo como Gabriel saudou a Virgem, no Evangelho: ele lhe muda o nome! Não diz”: alegra-te, Maria!”, mas “Alegra-te, Cheia de Graça!” Cheia de graça, kecharitomene, do verbo charitô, agraciar. Alegra-te, ó Toda cumulada pela Graça, Alegra-te, ó Mar de Graça, ó possuída totalmente pela graça! Em ti, Virgem Maria, não há o mínimo lugar, a mínima brecha para a “des-graça” do pecado! – É isto que significam as palavras de Gabriel! Podem crer: Deus juntou toda água um dia e chamou de mar; Deus juntou toda graça outro dia... e chamou Maria! 
A Virgem não é dona da graça; ela a recebeu totalmente. A Virgem não é imaculada por seus próprios méritos, mas pelos méritos daquele que, nascido de suas entranhas benditas, venceu a antiga Serpente e destruiu o antigo Inimigo. Observemos que esta idéia aparece na segunda leitura da Missa desta solenidade. O que diz o Apóstolo? O Pai “nos escolheu em Cristo, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar, no amor. Ele nos predestinou... por intermédio de Jesus Cristo (Ef 1,4s). Se todos somos fruto de um sonho eterno de Deus, se todos somos predestinados em Cristo desde antes da fundação do mundo, se o Senhor conheceu nossos dias antes mesmo que um só deles existisse, pois bem: em Cristo, Deus, o Pai, preservou a Mãe do seu Filho do pecado, graças ao seu Filho! Que nossos irmãos protestantes se alegrem conosco pela Imaculada Conceição de Maria: ela é bíblica, ela exalta enormemente a grandeza abundante da graça de Cristo, único Salvador! São Paulo diz que “todos pecaram e estão privados da glória de Deus”; assim estaria a Virgem sem a graça de Cristo; mas, disso foi libertada no primeiro momento de sua existência, graças a Cristo! 
Esta é a beleza desta festa: o triunfo da graça, celebrar a graça de Cristo que age antes mesmo do nascimento histórico de Cristo! Que graça tão grande, que Salvador tão potente, que Deus tão previdente! E para nós, que alegria contemplar o mistério, vislumbrar o mistério, mergulhar no mistério! Hoje, a Virgem foi concebida livre do pecado; hoje, começou a raiar a Aurora do Dia sem fim; hoje surgiu a puríssima Estrela d’Alva que anuncia o Sol, que é o Cristo, nosso Deus! A Igreja, exultante de alegria, tem palavras lindas na celebração litúrgica deste hoje. No Ofício Divino, ela assim se dirige à Virgem Toda Santa: “Com a vossa Imaculada Conceição, Virgem Maria, um anúncio de alegria percorreu o mundo inteiro” e, mais adiante, no Ofício, continua, admirada: “Toda bela sois, Virgem Maria, sem mancha original! Sois a glória de Sião, a alegria de Israel e a flor da humanidade”. E, imaginando a resposta da Virgem, coloca nos seus lábios estas palavras que ela dirige ao Senhor: “Foi nisto que eu vi, porque vós me escolhestes! Porque não triunfou sobre mim o inimigo, porque vós me escolhestes!” Isso mesmo: mais que ninguém, a Virgem é devedora a Cristo: ele a escolheu, ele a preservou, ele a sustentou, ele teve por ela uma predileção inigualável! 
Alegremo-nos nós também! Em Cristo, o pecado pode ser vencido! A Conceição Imaculada de Maria é sinal belíssimo desta vitória! Alegremo-nos, porque a Imaculada Conceição de Nossa Senhora é o feliz princípio e o primeiro albor da salvação que o Senhor Jesus nos traz! Bendita seja a cruz de Jesus, que antes de ser fincada no Calvário, já libertou com seus raios a Virgem de todo pecado! A Jesus, fruto bendito, do bendito ventre da bendita Virgem Maria, a glória pelos séculos dos séculos.
                                          dom Henrique Soares da Costa

1º DOMINGO DO ADVENTO
03 de Dezembro de 2017


Iniciamos, hoje, um novo ano litúrgico. Contemporaneamente, começamos nosso caminho de preparação para o Natal, com o tempo do Advento. O roxo, cor litúrgica destas quatro semanas, fala-nos de vigilância e de espera, espera que é esperança, pois Aquele que prometeu vir é fiel: não falhará. Na espera e na alegre vigilância, também não cantaremos o “Glória” na Missa e enfeitaremos nossas igrejas com muita simplicidade: estamos de sobreaviso, estamos esperando: o Senhor se aproxima!
As leituras deste primeiro domingo são de uma intensidade enorme e nos jogam de cheio no clima próprio deste tempo: enquanto nos preparamos para o Natal, celebração da primeira vinda do Senhor, feito pobre na nossa humanidade, preparamo-nos também para a sua Vinda gloriosa no final dos tempos. Três idéias nos chamam atenção na Palavra que ouvimos; três idéias que sintetizam maravilhosamente os sentimentos que devemos alimentar neste santo Advento.
Primeiro: somos pobres. A humanidade toda, por mais soberba e auto-suficiente que seja, é pobre, é pó! Violência, solidão, tantas feridas no coração, tanta falta de sentido para a existência, tanta descrença e superficialidade, tantas famílias destruídas, tantos corações vazios, tanta falta de paz, tantos vícios enraizados no coração, tanta vontade quebrada e fraca, tantas palavras bonitas e vazias, tantas promessas sem cumprimento algum... E o homem não se dá conta que é pó, que é insuficiente, que sozinho não consegue se realizar, porque foi criado para uma Plenitude que somente um Outro - o Deus Santo, Bom, Imenso e Eterno - nos pode conceder. Mas, nós cremos; nós, os cristãos, devemos ser conscientes da nossa pobreza e da pobreza da humanidade. Calha bem para nós o intenso lamento do profeta Isaías: “Senhor, tu és o nosso Pai, nosso redentor! Como nos deixaste andar longe de teus caminhos? Todos nós nos tornamos imundície, e todas as nossas boas obras são como um pano sujo; murchamos como folhas e nossas maldades empurram-nos como o vento. Não há quem invoque o teu nome, quem se levante para encontrar-se contigo. Assim mesmo, Senhor, tu és nosso pai, nós somos barro; tu, nosso oleiro, e nós todos, obra de tuas mãos”. Tão atual, caríssimos, esta palavra da Escritura! Exprime bem a humanidade perdida, sem graça, que busca plenitude onde não há plenitude: na tecnologia, na ciência, no consumo, na droga, na satisfação dos próprios instintos e vontades...
Nós, cristãos, sabemos que nada neste mundo nos pode saciar. Como o restante da humanidade, também sentimos sede, também sentimos tantas vezes a dor de viver; mas nós sabemos de onde vem a paz, onde se encontra a verdade da vida, de onde vem a esperança. Por isso pedimos, pensando Naquele que veio no Natal e virá no Fim dos tempos: “Ah! Se rasgásseis os céus e descesses! As montanhas se desmanchariam diante de ti! Nunca se ouviu dizer nem chegou aos ouvidos de ninguém, jamais olhos viram que um Deus, exceto tu, tenha feito tanto pelos que nele esperam!” Eis nosso brado de Advento: Somos pobres, somos insuficientes, não nos bastamos, não temos as condições de ser felizes com nossas próprias forças: Vem, Senhor Jesus! “A vós, Senhor, elevo a minha alma! Confio em vós, que eu não seja envergonhado! Não se riam de mim meus inimigos, pois não será desiludido quem em vós espera” (Sl. 24,1-3).
E aqui temos a segunda idéia desta Liturgia santa: diante de nossa pobreza, colocamos nossa esperança somente no Cristo Jesus; esperamos a sua Vinda. O cristão vive no mundo, mas sabe que caminha para a Pátria, para Casa, para Cristo! Na segunda leitura deste hoje, São Paulo nos recorda que não nos falta coisa alguma, não nos falta esperança, não nos falta o sentido da vida, não nos falta a consolação, não nos falta a direção a seguir, porque aguardamos “a revelação do Senhor nossos, Jesus Cristo. É ele também que vos dará a perseverança em vosso procedimento irrepreensível, até ao fim, até ao dia de nosso Senhor, Jesus Cristo”. Caríssimos, a grande tentação para os cristãos de hoje é esquecer que estamos a caminho, que nossa pátria é o Céu. Num mundo de abundância de bens materiais, de comodismo, de consumismo, de busca das próprias vontades e dos prazeres, o perigo imenso é esquecer o Senhor que vem e que sacia o nosso coração. Quantos de nós se distraem com o mundo, quantos que têm o nome de cristãos estão tão satisfeitos com os prazeres e curtições da vida! Cristãos infiéis num mundo infiel; cristãos cansados num mundo cansado, cristãos superficiais e vazios num mundo superficial e vazio! E deveríamos ser luz, deveríamos ser sal, deveríamos ser profetas! Deveríamos ser inquietos e insatisfeitos com tudo que seja menos que Deus, nossa verdadeira Plenitude!
Finalmente, o terceiro ponto. Conscientes da nossa insuficiência para sermos felizes sozinhos; conscientes de que somente no Cristo está nossa plenitude; certos de que ele virá ao nosso encontro, devemos estar vigilantes, devemos viver vigilantes! Nesta casa chamada mundo, nós somos os porteiros, aqueles que esperam o Senhor chegar. Escutai, irmãos, a advertência do nosso Senhor e Deus: “Cuidado! Ficai tentos, porque não sabeis quando chegará o momento. É como um homem que partiu e mandou o porteiro ficar vigiando. Vigiai, portanto, para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: Vigiai!”
O Senhor nos manda vigiar! Vigiemos pela oração, vigiemos pela prática dos sacramentos, vigiemos pelas boas obras, vigiemos pela vida fraterna, vigiemos pelo combate aos vícios, vigiemos pelo cuidado para com os pobres. Vigia à espera de Cristo quem rejeita as obras das trevas! “O que vos digo, digo a todos: Vigiai!” Mais uma vez, a misericórdia de Deus nos dá um tempo tão belo e santo quanto o Advento para pensarmos na vida, para levantar os olhos ao céu e suspirar pela plenitude para a qual o Senhor nos criou. Não vivamos desatentamente este santo tepo de graça! Irmãos, irmãs, o Senhor vem: preparemo-nos para ele! Amém.

dom Henrique Soares da Costa

SOLENIDADE CRISTO REI DO UNIVERSO
26 de Novembro de 2017

Neste último domingo do ano litúrgico, a Igreja nos apresenta Jesus Cristo como Rei do universo. O Evangelho no-lo mostra cercado de anjos, sentado num trono de glória para o julgamento final da história e da humanidade. Ele é Rei-Juiz, é o critério da verdade e da mentira, do bem e do mal, da vida e da morte. Por mais que a humanidade queira fazer a verdade do seu modo, por mais que distorça o bem em mal e o mal em bem e procure a vida onde não há vida verdadeira, vida plena, uma coisa é certa: somente em Jesus Cristo tudo aparecerá, um dia, na sua justa realidade, na sua inapelável verdade. Nós cremos com toda firmeza que a criação toda, a história toda e a vida de cada um de nós caminham para o Cristo e por ele serão passadas a limpo, nele serão julgadas! Ele é Rei-Juiz: ao final “todas as coisas estarão submetidas a ele”. Fora dele não haverá salvação, nem esperança nem vida. Ele é a Vida!
Mas, se Cristo Jesus é nosso Rei-Juiz, isto se deve ao fato de ser primeiramente nosso Rei-Pastor, aquele que dá a vida pelas ovelhas. Ele é “o que foi imolado”, o mesmo que, com ânsia e cuidado, procura suas ovelhas dispersas, toma conta do rebanho, cuida da ovelha doente e vigia e vela em favor da ovelha gorda e forte. Eis o nosso juiz, eis o juiz da humanidade: aquele ferido de amor por nós, aquele que por nós deu a vida, aquele que se fez um de nós, colocando-se no nosso meio! 
Atualmente, a nossa civilização ocidental perdeu quase que de modo total a consciência da realeza de Cristo. Dizem hoje, cheios de orgulho, os sábios da sabedoria do mundo: "O homem é rei!" Gritam: “Não queremos que esse Jesus reine sobre nós! Não queremos que nos diga o que fazer, como viver; não aceitamos limites do certo e do errado, do bem e do mal, do moral e do imoral... a não ser os nossos próprios limites. E, para nós, não há limites!” Eis o pecado original, a arrogância fundamental da humanidade atual. Nunca fomos tão prepotentes quanto agora; nunca tão iludidos e enganados como atualmente! 
E, no entanto, Cristo é Rei, o único Rei verdadeiro, cujo Reino jamais passará. Mas esse Rei nos escandaliza também a nós, cristãos. É que ele não é um rei mundano, estribado na vã demonstração de poder, de glória, de imposição. Não! Ele é o Rei-Pastor que se fez Rei-Cordeiro manso e humilde imolado por nós. Por isso “é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A ele o poder pelos séculos”. A grandeza e o poder do Senhor neste mundo não se manifestarão na grandeza, mas nas coisas pequenas, na fragilidade do amor, daquele amor que na cruz apareceu como capaz de entregar a vida pelos irmãos. Gostaríamos de um Cristo-Rei na medida das nossas vãs grandezas... Gostaríamos de uma Igreja forte, aplaudida, elogiada, reverenciada. Mas, não! A Igreja, continuadora na história do mistério salvífico de Cristo, tem de participar do escândalo do seu Senhor, de pobreza do seu Senhor. E, então, neste Cristo-Rei, vemo-la humilhada e manchada por tantos escândalos. Pobre Mãe católica! Não merecia isso de seus filhos, de seus ministros, de seus pastores! Mas, faz parte das dores do Reino do Senhor! Faz parte do mistério do Reino a pobreza de Cristo, a mansidão de Cristo, a derrota de Cristo na cruz, o silêncio de Cristo, a morte de Cristo. E tudo isso tem que estar presente também na vida da Igreja e na nossa vida! Como nos exorta são Paulo: “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado dentre os mortos. Fiel é esta palavra: Se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele sofremos, com ele reinaremos” (2Tm. 2,8.11).
Celebremos hoje a realeza de Cristo, dispondo-nos a participar da sua cruz. Na Igreja, no Reino de Deus, reinar é servir. Sirvamos, com Cristo, como Cristo e por amor de Cristo! No Evangelho desta solenidade, o critério para participar do Reinado do Senhor Jesus é tê-lo servido nos irmãos: no pobre, no despido, no doente, no prisioneiro, no fraco. Que Reino, o de Cristo! Manifesta-se nas coisas pequenas, nas pequenas sementes, nos pequenos gestos, no amor dado e recebido com pureza cada dia. 
Na verdade, segundo os santos Padres da Igreja, o Reino de Cristo, o Reino que ele entregará ao Pai, somos nós; nós, que fizemos como ele fez, lavando os pés do mundo e servindo ao mundo a única coisa que realmente compensa: a amor de Cristo, a verdade de Cristo, o Evangelho de Cristo, o exemplo de Cristo, a salvação de Cristo, a vida de Cristo... para que o mundo participe eternamente do Reino de Cristo! 
Despojemo-nos de todo pensamento mundano sobre reis, reinos e coroas. Fixemos nosso olhar no trono da cruz, naquele que ali se encontra despido e coroado de espinhos. Aprendamos com admiração, estupor e gratidão que nossa mais gloriosa herança neste mundo é participar do seu reinado, levando a humanidade a descobrir quão diferentes dos nossos são os critérios de Deus. Quando aprendermos isso, quando a humanidade aprender isso, o Reino entrará no mundo e o mundo entrará no Reino, Reino de Cristo, "Reino de verdade e de vida, Reino de santidade e de graça, Reino da justiça, do amor e da paz".

dom Henrique Soares da Costa

33º DOMINGO TEMPO COMUM
19 de Novembro de 2017

De um modo ou de outro, a Palavra do Senhor sempre nos fala da vida, nos revela o sentido, nos mostra o caminho. Hoje, o Senhor nos apresenta a existência como um punhado de talentos, de dons, de oportunidades que a providência gratuita e misteriosa de Deus colocou em nossas mãos para que façamos frutificar. Certamente, jamais compreenderemos porque nascemos desse modo ou somos daquele outro. Podemos, no entanto, ter a certeza que o Senhor nos deu uma vida, "a cada um de acordo com a sua capacidade". Ora, é esta vida, dom de Deus, fruto de um desígnio de amor sem fim, que cada um de nós deve responsavelmente cultivar e fazer frutificar em benefício nosso de dos irmãos. Na mulher forte e industriosa da primeira leitura, aparece um exemplo de alguém que não se contenta em passar pela vida, mas vai tecendo o fio da existência com as pequenas fidelidades de cada dia. Do mesmo modo, a segunda leitura chama-nos atenção para o fato que nos serão pedidas contas da vida, dom recebido de Deus. Daí, o conselho: "Não durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios".
Uma das grandes tentações do mundo atual é pensar que a existência é nossa de modo absoluto, como se cada um de nós se tivesse criado a si próprio, dado a si próprio a existência. Fechados em si próprios, os homens pensam que podem ser felizes construindo a vida de seu próprio modo, à medida de suas próprias idéias e objetivos. Ilusão! A vida é dom de Deus e somente nos faz felizes se dela fizermos um diálogo amoroso com o Senhor, autor e doador de nosso ser. Mais que talentos na vida, o Senhor nos concedeu a própria vida como um precioso talento. Desenvolvê-lo e ser feliz e buscar não a nossa própria satisfação, não nossa própria medida, não nosso próprio caminho, mas fazer da existência uma busca amorosa e cheia de generosidade da vontade de Deus. Eis! Somente seremos felizes e maduros quando tivermos a capacidade de arriscar verdadeiramente nos perder, nos deixar para nos encontrar no Senhor, alicerce e fonte de nossa vida. Eis o verdadeiro investimento!
Infelizmente, a dinâmica do mundo hodierno, pagão e ateu, não no ajuda nessa direção. Há distração demais, novidade demais, produto demais a ser consumido; há preocupação demais com uma felicidade compreendida como satisfação de nossos desejos, carências e vontades. Há consciência de menos de que a vida é dom e serviço, doação e abertura para o infinito; há percepção de menos de que aqui estamos de passagem e de que lá, junto ao Senhor, é que permaneceremos para sempre. Atolamo-nos de tal modo nos afazeres da vida, no corre-corre de nossas atividades, no esforço por satisfazer nossas vontades, na busca de nossa auto-afirmação, que perdemos a capacidade de compreender realmente que somos passageiros e viandantes numa existência breve e fugaz que somente valerá a pena será vivida na verdade se for compreendida como abertura para o Senhor e, por amor a ele, abertura generosa e servidora para os outros.
Estejamos atentos à advertência do Apóstolo: "Vós, meus irmãos, não estais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão. Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia" O Dia é Cristo, a Luz é Cristo. Viver na luz, viver no dia é viver na perspectiva de Cristo Jesus, é valorizar o que ele valoriza e desprezar o que ele despreza. Filhos da luz, filhos do dia – eis o que deveríamos ser! Mas, com tanta freqüência nossa mente e nosso coração, nossos pensamentos e nossos afetos encontram-se entenebrecidos como o dos pagãos... Quão grave para nós, porque conhecemos a Luz, cremos no Dia que é o Cristo-Deus!
Não nos iludamos, não façamos de conta que não sabemos: todos haveremos de dar contas a Deus de nossa existência, do sentido que lhe demos, daquilo que nela construímos. Queira Deus que nossa vida seja como a do Cristo Jesus: uma verdadeira e amorosa abertura para Deus e uma abertura para os outros! Queira Deus que consigamos, iluminados pela sua Palavra, nutridos pela sua eucaristia e animados pela oração diária, viver nossa existência na perspectiva de Deus, de tal modo que vivamos, vivamos de verdade, vivamos em abundância, vivamos uma vida que valha a pena!
dom Henrique Soares da Costa

32º DOMINGO TEMPO COMUM
12 de Novembro de 2017


A bela parábola das dez jovens virgens do Evangelho de hoje é para nós um símbolo ou uma comparação da maneira como vivemos nesta vida. Ora somos as jovens prudentes, ora imprudentes; ora somos aqueles que estão atentos, ligados e preparados, ora somos aqueles que estão desatentos, desligados e despreparados.O que me chama à atenção é o fato de saber que o Noivo é Cristo e nós somos as virgens que estão esperando Ele chegar. Parece, no entanto, que Ele está demorando, que só vai chegar daqui a um tempo, e que temos muito tempo pela frente. “Viverei muitos anos ainda. Lá na frente, eu me converto, torno-me melhor”. Temos de estar preparados para nos encontrar com o Noivo, porque Ele pode chegar hoje. Isso, no entanto, não quer dizer que Ele vai nos pegar de surpresa. Acho que a pior coisa da vida é sermos pegos de surpresa, desprevenidos com essa ou aquela situação. A pior coisa da vida é não vivermos preparados, a cada dia, para tudo aquilo que a vida exige de nós. Sabe por quê? Muitas vezes, não estamos preparados para dar as respostas à vida de acordo com cada tempo, pois estamos cochilando, dormindo, não estamos atentos à vida. E não cuidar da vida é não dar a ela a diligência que ela merece, é não estar de prontidão para suas exigências próprias. Em outras palavras, é viver de qualquer jeito. podemos viver simplesmente “empurrando” a vida. Temos para viver o dia que se chama “hoje”, o que temos para cuidar é o que precisamos cuidar hoje. Ao “empurrarmos” as coisas com a barriga, estamos fazendo tudo de qualquer jeito; e isso demonstra o grau de imprudência na qual levamos a nossa vida.Quando estamos com as lâmpadas acesas, enchendo-as, a cada dia, com o óleo da graça, do Espírito e da Palavra, com o óleo do amor de Deus, estamos ligados, atentos, sendo prudentes, porque a prudência é o que Deus espera de nós.

Padre Roger Araujo

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS
05 Novembro de 2017

Celebramos hoje a festa de TODOS OS SANTOS.
O Objetivo dessa festa é homenagear Todos os Santos (conhecidos ou não...) e apresentar o Ideal da Santidade,
 como possível hoje e como desejado por Deus:
"Esta é a vontade de Deus a vossa Santificação" (1 Tess 4,3)
 As Leituras nos revelam o projeto de Deus:
tornar o homem participante de sua santidade:
 A 1ª Leitura nos abre uma visão sobre o nosso futuro:
A vitória do Cordeiro transformou o caminho de morte
em caminho de vida para todos aqueles que o seguem. São numerosos e doravante participam do seu triunfo, numa festa eterna. (Ap 7, 2-4.9-14)
 A 2ª Leitura recorda que a vida divina
já está presente em nós desde agora. (1Jo 5,1-3)
No Evangelho, Cristo nos aponta o "caminho" da Santidade,
com as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a) :
- Os que têm um coração de pobre: despidos da vaidade e ambição...
- Os que choram: são sensíveis à dor dos irmãos...
- Os mansos...
- Os que têm fome e sede de justiça...
- Os misericordiosos...
- Os construtores da paz...
- Os que têm um coração puro...
- Os que são perseguidos por causa da justiça e dos valores do Reino.
 + Celebramos hoje o maravilhoso mundo da Santidade.
- Mundo imenso, onde os santos são inumeráveis,
  como nos diz a 1ª Leitura. (144 mil: 12 x 12 x 1000 = uma multidão)
- Mundo maravilhoso, onde muitos destes santos são nossos parentes,
  nossos amigos, gente grande e crianças que conhecemos.
- Mundo feliz realizando-se no mundo de trabalho e de sofrimento,
  de sonhos e realizações.
- Mundo de portas abertas, que cresce sem parar,
  porque cada dia que passa vê chegar novos eleitos.
 O Mundo dos Santos não é estranho para nós.
É um mundo feito de gente como nós, que, nas limitações humanas,
lutaram e venceram, viveram o evangelho de Jesus,
e serviram os irmãos nesta terra e continuam a servir por sua intercessão no céu.
Por isso somos convidados participar deste mundo desde agora.
+ Quem são os santos ?
- No princípio, a Bíblia reservou esse nome só a Deus: "Só Deus é santo".
- Jesus Cristo irradia a Santidade de Deus e
  transmite a Santidade à Igreja, por meio dos Sacramentos...
- Na Igreja primitiva: Santos são os que participam da Santidade de Deus...
  Por isso, santos eram todos os cristãos...
- Hoje, a Igreja nos diz que todos os homens têm uma vocação à santidade:
  "Os cristãos de qualquer condição e estado são chamados pelo Senhor,
    cada um por seu caminho, à perfeição da santidade pela qual é perfeito
    o próprio Pai. Todos os cristãos são chamados à plenitude da vida
    cristã e à perfeição da caridade.” (Concílio Vat. II)
 Portanto, SANTOS não são apenas pessoas privilegiadas já mortas,
que viveram no passado longe do mundo...
- Santos não são apenas os que foram declarados santos pela Igreja e
são honrados hoje em nossos altares...
- Santos são também muitos "desconhecidos", que viveram o ideal da santidade e muitas pessoas de hoje que andam no "caminho" de Deus...
- Santos... podemos e devemos ser também nós...
 + Por que essa Celebração?
  Para erigir um monumento ao "santo desconhecido"?...
- Não, é uma oportunidade para celebrar a "Comunhão dos santos".
  Essa comunhão espiritual de bens entre todos os fiéis que constituem                      
a Igreja na sua etapa peregrina, purificante e triunfante.
- Hoje a Igreja peregrina se alegra unida à Igreja triunfante no céu,
  como afirma o Prefácio da missa:
  "Festejamos hoje a cidade do céu, onde nossos irmãos, os santos,
   vos cercam e cantam eternamente o vosso louvor ".
- Hoje celebramos a santidade de Deus, que resplandece
  nos membros de seu povo, nos filhos da Igreja.
 + Por que culto e devoção aos Santos?
- Como o povo da antiga aliança estava em comunhão com os patriarcas e
  profetas, unidos na herança comum das promessas messiânicas,
  assim o novo povo de Deus, que é a Igreja, vive em união com Jesus Cristo,
  a virgem Maria, os apóstolos, os mártires e os santos.
- Esse culto e devoção não tem nada de mágico ou supersticioso,
  pois é culto e louvor a Deus, porque a sua glória resplandece nos santos.
  Assim eles se constituem para nós modelos e intercessores.
 + A festa de hoje é um apelo à Santidade,
   como um dom que o Pai nos concede,
   com a proposta desafiadora de Jesus:
   "Sede santos, como o Pai é santo!"
 Acolhamos o apelo de Deus à Santidade:
A santidade ainda hoje é possível e desejada por Deus...
E todos nós somos chamados a ela...
                                   Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa - 06.11.2011


30º DOMINGO TEMPO COMUM
29 de Outubro de 2017
No passado domingo, o Senhor Jesus ordenava: “Dai a Deus o que é de Deus!” De Deus é tudo, ainda que tudo pareça nosso: “Tudo pertence a vós: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes e as futuras.Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor. 3,21-23). Esta é, precisamente, a dificuldade, a miopia ou, mais ainda, a cegueira, o triste pecado do mundo atual: não perceber Deus, não enxergar com a razão, com o afeto, com o coração que Deus é o Tudo, o Substrato, o Sentido da nossa existência. Sem ele, nada tem sentido perene, nada tem valor duradouro, nada tem valor absoluto... nem a vida humana, que somente pode ser respeitada de modo absoluto quando é compreendida como imagem de Deus.
Pois bem, a Palavra deste Domingo prolonga a de oito dias atrás. “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”, da Lei de Moisés – perguntam ao Senhor para novamente tentar apanhá-lo em armadilha. Qual o preceito que, sendo observado, resume a observância de toda Lei? Jesus responde prontamente: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento!” Como bom judeu, o Senhor Jesus nada mais faz que retomar o preceito do Antigo Testamento. Amar a Deus! Amá-lo significa fazer dele o tudo da nossa existência, significa viver a vida aberta para ele, buscando sinceramente a sua santa vontade. Amá-lo é não conceber a vida como algo que é meu em sentido absoluto, mas um dom que recebi de Deus, que em diante de Deus devo viver e a Deus devo, um dia, devolver com frutos. Amá-lo é não viver na minha vontade, mas buscando a sua santa vontade, mesmo que esta não seja o que eu esperaria ou desejaria... Amá-lo é sair de mim para encontrar-me nele!
Mas, para que este amor a Deus não seja algo abstrato, teórico, meramente feito de palavras ou sentimentos superficiais, o Senhor Jesus nos aponta uma medida concreta desse amor. Seguindo ainda a tradição judaica do Antigo Testamento, ele liga, condiciona o amor a Deus ao amor aos outros, aos próximos, àqueles que a providência divina coloca no nosso caminho: “’Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”. Eis, portanto: a medida da verdade do amor a Deus é o amor, a dedicação para com os outros; e não os outros teoricamente, mas os próximos: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo!” Notemos que aqui Jesus não ensina nada de novo. Este preceito já valia para um bom judeu. Jesus está respondendo a um fariseu, um escriba judeu. Basta recordar como a primeira leitura de hoje, tirada da Torah, da Lei de Moisés, já ligava os dois amores, a Deus e ao próximo. O Senhor, já no Antigo Testamento, deixava claro que estará sempre do lado do nosso próximo, sobretudo se ele for débil e necessitado: “Se clamar por mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso.” Estejamos, portanto, atentos: o amor concreto para com o nosso próximo é a medida do nosso amor a Deus! O Evangelho – como todo o Novo Testamento e a reta e sadia Tradição da Igreja – desconhece uma relação com Deus baseada numa fé sem obras que nasçam do amor. Basta recordar o belíssimo hino ao amor, da Primeira Carta aos Coríntios: “Ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse a caridade, eu nada seria” (13,2). Que ninguém se iluda com um vazio discurso sobre uma fé vã sem as obras que dela nascem e a revelam! A fé sem amor a Deus e ao próximo, aquela fé que gosta de dizer “estou salvo” de se compraz em decretar a condenação dos outros é uma fé inútil, vazia, falsa e morta!
Caríssimos, se o Senhor Jesus respondeu ao escriba fariseu, dizendo que ele deveria amar a Deus e ao próximo como a si mesmo, a nós, seus discípulos, a nós, cristãos, ele aponta um ideal muito mais alto! Ouso afirmar que não basta, de modo algum para um cristão, amar os outros como a si mesmo! Recordai-vos todos que, na véspera de sua paixão santíssima, quando sentou-se à Mesa santa conosco, para dar-se a nós na Eucaristia, como maior dom de amor, o Senhor nosso e Deus nosso, Jesus Cristo, deu-nos, então, o mandamento pleno, completo: “Amai-vos como eu vos amei!” (Jo. 13,34); “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo. 13,15). Agora, às vésperas da cruz, agora, à Mesa da Eucaristia, agora, lavando-nos os pés, dando-se totalmente a nós, Jesus poderia ser compreendido! Ele é o amor verdadeiro, ele é a medida e o modelo do amor: “Não há maior prova de amor que dar a vida!” (Jo. 15,13) Amai-vos como eu vos amei!
Eis, caríssimos, como é grande a tarefa que o Senhor nos confia! Quem poderá realizá-la? Onde poderemos conseguir um amor assim? Eu vos digo: contemplando Jesus na oração, escutando Jesus na Escritura, comungando com Jesus na Eucaristia, procurando Jesus nos irmãos! É assim que teremos os mesmos sentimentos do Cristo Jesus (cf. Fl. 2,5) e viveremos a vida no amor total que ele, nosso Senhor, teve para com Deus, o Pai e para com os próximos. Fora disso, toda conversa sobre amor não passa de teoria, de ideologia que de cristã tem pouco ou nada. Que o Senhor nos conceda, então, por esta Eucaristia, o dom do verdadeiro amor. Amém.
dom Henrique Soares da Costa

29º DOMINGO TEMPO COMUM
22 de Outubro de 2017

“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Eis, caríssimos irmãos no Senhor, a frase que resume perfeitamente a Liturgia da Palavra deste Domingo. Frase tão conhecida, tão repetida e tão poucamente compreendida! E, no entanto, uma das frases mais radicais e revolucionárias do Evangelho; frase que bem serve de bandeira para os crentes do mundo descrente de hoje.
Recordemos o contexto. Os inimigos de Jesus prepararam-lhe uma inteligente armadilha. Primeiro o elogiaram com um elogio hipócrita, mas, fiel à realidade, que nos mostra bem a grandeza de caráter do Senhor nosso: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências”. Que belo elogio! Que belo exemplo a ser seguido! Mas, eis que vem a armadilha: “É lícito ou não pagar o imposto a César?” Se Jesus respondesse “sim”, seria acusado de peleguismo, de colaboracionismo com os opressores pagãos romanos, impuros e odiados pelo povo; se respondesse “não”, seria acusado de revoltoso anti-romano diante de Pôncio Pilatos pelos seus próprios inimigos; se respondesse “não sei”, seria desmoralizado como um rabi incompetente e estulto. Eis, pois: a armadilha era perfeita! Mas, a resposta de Jesus foi mais perfeita ainda, verdadeiramente admirável! Pediu uma moeda, perguntou de quem era a inscrição... “Então, se usais a moeda de César, é porque César é quem manda de fato! Dai, pois, a César o que é de César!” E, então vem o complemento. Impressionante: “Mas, dai a Deus o que é de Deus!”
Que significa tal resposta? À primeira vista, Jesus estaria dividindo o mundo, as realidades, em duas áreas: uma para Deus e outra para César. Deus e César, lado a lado... Nada disso! Ao ensinar a dar a César o que é de César, o Senhor nos convida a respeitar as estruturas da sociedade em que vivemos, a levá-las a sério, a bem viver nelas. César, aqui, significa o mundo em que vivemos, com toda sua riqueza e complexidade. César é a política, César é a Pátria, a família; César é o trabalho, o emprego, o esporte que praticamos; César são os amigos e os sonhos nossos... Tudo quanto é humano e legítimo pode e deve ser apreciado e respeitado pelos cristãos. Podemos dar a César o que é de César, sem medo nem temor! Mas, ao ensinar e exortar a dar a Deus o que é de Deus, o Senhor nos recorda com toda seriedade que somente Deus é Deus. E o que se deve dar a Deus? Tudo; absolutamente, tudo! De Deus é a nossa vida, de Deus é a nossa morte, de Deus é tudo quanto temos, vivemos e somos: Dai a César o que é de César, mas recordai que também César pertence a Deus! César não é Deus! E aqui está o genial e admirável da resposta de Nosso Senhor. César se julgava Deus, era chamado “Divino César”, considerava-se senhor da vida e da morte! Ora, Jesus nega a César tal pretensão! César é somente César e, como César, morrerá! Somente o Senhor é Deus! A ciência não é Deus, a tecnologia não é Deus, os grandes do mundo não são Deus! Só o Senhor é Deus! São Paulo faz eco a essas palavras de Jesus ao nos afirmar: “Tudo pertence a vós: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes e as futuras.Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor. 3,21-23).
A grande tentação nossa é colocar no lugar de Deus os tantos césares da vida. Não se endeusa a ciência? Não se absolutiza a tecnologia, não se adora o sexo? Os grandes do mundo – grandes pelo poder, ou pela riqueza, ou pelo sucesso – não se acham divinos, sem reconhecer, como Ciro, na primeira leitura de hoje, que tudo vem de Deus, que estamos nas suas mãos, que tudo é, misteriosamente, fruto da sua providência?
Cristão, tu deves participar da vida da humanidade, deves ser homem entre os homens, deves participar da construção da sociedade... Tu deves saber apreciar o que de bom e de belo existe no mundo... Mas, não te esqueças: nada disso é Deus, nada disso merece tua adoração, nada disso deve prender teu coração: nem família, nem pátria, nem amigos, nem posse, idéias ou poder! Só o Senhor é Deus! A César, o que é de César; a Deus tudo, pois tudo é de Deus! Viver assim é crer de verdade, é levar Deus a sério de verdade! Grande ilusão nossa é pensar que podemos colocar Deus no meio de tantos e tantos amores, de tantas e tantas paixões, fazendo dele apenas mais uma, entre tantas realidades da vida. Não! Ele é tudo, ele é o Tudo, como dizia São Francisco de Assis: “Tu és o Bem, todo o Bem, o Bem universal!”
Caríssimos, que na oração, na experiência da vida sacramental e na escuta da Palavra do Senhor nós aprendamos e reconhecer Deus como Deus na nossa vida, para que, como aconteceu com os cristãos de Tessalônica, na segunda leitura de hoje, estejam diante de Deus sem cessar “a atuação da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo”. Amém.

dom Henrique Soares da Costa


28º DOMINGO TEMPO COMUM
15 de Outubro de 2017

A Palavra de Deus do domingo último falava-nos da vinha; a Palavra de Deus deste hoje fala-nos de banquete! Quantas vezes, na Sagrada Escritura, o Reino dos céus é comparado a um banquete! Para os orientais, o banquete, a festa ao redor da mesa, é sinal de bênção, pois é lugar da convivência que dá gosto de existir, da fartura que garante a vida e do vinho que alegra o coração. É por isso que Jesus hoje nos diz que “o Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho”. Ora, caríssimos irmãos, foi isso que Deus faz desde a criação do homem: pouco a pouco, ele foi preparando a festa de casamento do Filho seu, Jesus nosso Senhor, com a humanidade!
Disso nos trata a primeira leitura de hoje: já no Antigo Testamento, Deus falava a Israel sobre o destino de vida, luz e paz que ele preparava para toda a humanidade: “O Senhor dará neste monte, para todos os povos, um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos. Ele removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos. O Senhor Deus dominará para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces...” Eis, caríssimos, é de paz o pensamento do Senhor para nós; é de vida, de liberdade, de felicidade! Se o Senhor havia escolhido Israel como seu povo, era para que fosse ministro dessa salvação. O monte Sião seria o lugar donde brotariam a salvação e a bênção de Deus para toda a humanidade. Infelizmente, Israel não compreendeu sua missão. É o que Jesus nos explica na parábola de hoje (a terceira que trata desta questão: a primeira foi a do irmão mais velho que disse que faria a vontade do pai e não fez; a segunda foi a dos vinhateiros homicidas, a terceira é a de hoje).
Na parábola, o rei é o Pai; o casamento do Filho Jesus é a Aliança nova que Deus quer selar com toda a humanidade; os empregados são os profetas e os apóstolos. Deus preparou tudo; em Jesus fez o convite: “Vinde para a Festa!”, mas Israel não aceitou! A festa de acolher o Messias, o Filho amado, Aquele que traz a vida a toda a humanidade! “O rei ficou indignado e mandou tropas para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles” – aqui Jesus se refere ao incêndio de Jerusalém, a Cidade Santa, que os romanos iriam realizar no ano 70, quarenta após a sua morte e ressurreição. Eis! Os convidados não quiseram participar da festa, Israel rejeitou o convite do Messias! Que fazer? O rei ordena aos servos: “Ide até às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes!” E a sala ficou cheia de convidados”. Somos nós, os que antes éramos pagãos e não conhecíamos o Deus de Israel. Pela voz dos apóstolos e dos pregadores do Evangelho, o Senhor nos reuniu de todos os povos da terra, das encruzilhadas dos caminhos da vida, e nos fez o seu povo, o novo povo, a Igreja! Assim, a sala do banquete, a sala da aliança nova e eterna, ficou repleta, porque o desejo de Deus é que todos se salvem!
Nunca deveríamos esquecer que a Igreja, da qual fazemos parte como membros e filhos, e que somos nós mesmos, é fruto de um desígnio de amor do Pai eterno que, na plenitude dos tempos, no chamou e reuniu em Cristo Jesus! Nunca deveríamos esquecer que este Banquete eucarístico do qual participamos agora é o banquete que o rei, o Pai eterno, nos preparou: banquete da aliança do seu Filho, o Esposo, com a Igreja, sua Esposa! Eis: somos os convidados para o banquete das núpcias da aliança do Cristo com a sua amada Esposa... e o alimento, o Cordeiro, é o próprio Jesus dado e recebido em comunhão! Pensemos um pouco na responsabilidade de sermos Povo de Deus, de sermos os escolhidos para ser o povo da Aliança...
Escutemos ainda, o final da parábola: “Quando o rei entrou para ver os convidados, observou aí um homem que não estava usando traje de festa!” Cristão, convidado para o banquete da eucaristia, banquete da Igreja, banquete das núpcias do Cordeiro, qual é o traje de festa? É a veste do teu batismo, aquela veste branca, que deves conservar pura pela tua vida, pelas tuas obras, pelo teu procedimento! Não aconteça ser tu esse homem que entrou na festa sem o traje apropriado! É o que aconteceria se viesses, é o que acontecerá se vieres para esta Eucaristia santa com uma vida enodoada pelas ações contrárias ao que o Evangelho do Reino te ensina! “Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?” – eis, que pergunta tremenda o Senhor nos faz! O que lhe responderemos? “O homem nada respondeu!” Não há o que responder! Amados, chamados, convidados, por que não nos esforçamos para ser dignos da tal rei, de tal Filho, de tal festa? “Então, o rei disse aos que serviam: ‘Amarrai-o e jogai-o fora, na escuridão! Aí haverá choro e ranger de dentes!” Eis, caríssimos, a nossa responsabilidade! O Senhor nos deu o dom de ser cristãos; cobrará de modo decidido o que fizermos com nossa fé, com nossa vida em Cristo! O próprio Jesus nos previne, de modo muito claro, que “muitos são chamados e poucos são escolhidos”... Ninguém se iluda, pensando que porque é cristão já está salvo! Isso é bobagem e prepotência! Ao Senhor pertence o julgamento; a nós, conservar pura e conosco a veste do nosso batismo!
Pensemos bem no modo como estamos vivendo nossa vida cristã e, de modo especial, nossa eucaristia! E que o Senhor nos dê a graça de participar dignamente do Banquete do Senhor, nesta vida, nas missas que celebramos, e um dia, por toda a eternidade!

dom Henrique Soares da Costa

27º DOMINGO TEMPO COMUM
08 de Outubro de 2017
A vinha de Deus
Um dos textos mais populares da literatura profética era o cântico da vinha, alegoria do profeta Isaías sobre a ingratidão da vinha escolhida por Deus, rodeada por ele com todos os cuidados possíveis e que, contudo, não produziu frutos. A vinha é Israel que, em vez de produzir a justiça - o bem que Deus deseja para todos -, institucionalizou o derramamento de sangue e a opressão. Esta é a 1ª leitura de hoje. Faz pensar na América Latina: era um continente paradisíaco (até hoje alguma coisa disso sobrou); foi dado aos cristãos da Europa, incentivados por indulgências e privilégios pontifícios para “propagar a fé”... Mas o fruto foi a violência institucionalizada.
Se alguém achar essa exegese atualizada demais, olhemos para a exegese atualizada do Cântico da Vinha que Jesus propõe (evangelho). Jesus não acusa a vinha, como Isaías, mas aos agricultores. Se o “senhor da vinha” nunca viu os frutos, não é porque a vinha não os produzia, mas porque os arrendatários os desviavam... Inclusive, maltratavam os emissários que o dono mandava (os profetas), e quando mandou seu próprio filho, o herdeiro, quiseram assegurar para si a herança da vinha, matando o herdeiro. Jesus, enviado junto ao povo de Israel para reclamar frutos de justiça, foi “jogado fora da vinha” (o calvário, fora dos muros de Jerusalém) e morto. O resultado foi que a vinha lhes foi tirada e confiada a quem entregasse a produção: os pagãos, que acolheram a pregação dos apóstolos antes dos judeus. E o texto acrescenta que isso realizou uma lógica que já estava nas Escrituras: a pedra jogada fora pelos construtores tornou-se pedra angular do edifício (SI 118/117,22s). Esta é a lógica da morte e ressurreição de Jesus, na qual está fundado o novo povo de Deus (cf. At. 2,33; 1Pd. 2,7).
Assim, esta parábola contém duas lições: 1) Deus esperava justiça de Israel, mas precisou colocar novos administradores para colher o fruto de sua vinha. Ora, o “fruto de justiça” é a fé que atua na caridade, pois justiça é aquilo que é conforme à vontade de Deus, e esta é, antes de tudo, que escutemos Jesus e ponhamos em prática o que ele ensina (cf. Mt. 17,5 e par.). O “fruto da justiça” inclui tudo o que a obediência à palavra de Cristo produz: amor sem fingimento, fraterna união, mútua doação etc. 2) A grandeza da obra de Deus: não há mal que por bem não venha. A rejeição de Cristo foi a prova da injustiça dos arrendatários, a abolição de seus privilégios, a transferência da vinha para os gentios que se converteram e produziram fruto: a Ressurreição do Cristo num povo novo.
Não leiamos esta parábola com olhos triunfalistas, considerando-nos os “bons”. A história se repete. A Nova Aliança, em que o antigo povo de Deus, ingrato, abre o lugar para o novo povo universal de Deus, é uma realidade escatológica, isto é, já iniciada, mas ainda não definitivamente estabelecida. Em outros termos, a qualquer momento podemos cair fora! Quando nos apropriamos dos frutos, fazendo do povo de Deus nosso negócio (pense na cristandade que sangrou a América Latina...), então, já não somos administradores da vinha. Para entender bem o evangelho de Mt, devemos sempre pensar que os fariseus somos nós mesmos! E seremos o novo povo de Deus, edificado no Cristo ressuscitado, apenas se entregarmos a Deus os frutos da justiça.
A 2ª leitura nos mostra o que são os frutos de justiça: tudo quanto for verdadeiro, nobre, reto, puro, amável, honrado, tudo o que for virtuoso e digno de louvor... Paulo não oferece um elenco de boas ações, de coisinhas para fazer. Ele tem confiança na consciência do bem que Deus nos deu. Sejamos gente, em nome de Cristo Jesus: então produziremos frutos de justiça! E o Deus da Paz (o dom messiânico por excelência) estará conosco.
A liturgia eucarística é marcada pela idéia da unidade de novo povo de Deus (sobretudo canto da comunhão, opção II). Na mesma linha, pode-se rezar o prefácio dos domingos do tempo comum VIII. A oração final expressa o fundamento desta trindade: a Eucaristia nos deve transformar naquele que recebemos. Recorrendo aos sinais eucarísticos, podemos dizer: somos o corpo de Cristo, a vinha do Pai.

padre Johan Konings "Liturgia dominical"


26º DOMINGO TEMPO COMUM
01 de Outubro de 2017

A Palavra de Deus deste domingo recorda-nos que nossa relação com o Senhor não é algo estático, congelado, adquirido uma vez por todas. Ninguém pode dizer que possui uma amizade permanente com o Senhor, amizade que é garantida para sempre e não poderia jamais ser perdida. Não! Não é assim! Nossa relação com o Senhor é um caminho, caminho dinâmico, que vai se configurando na nossa vida, crescendo ou diminuindo, aprofundando-se ou morrendo, conforme nossa atitude em cada fase de nossa existência. O Senhor é sempre fiel, não muda jamais; quanto a nós, devemos cuidar de ir sempre crescendo, de fé em fé, de esperança em esperança, de amor em amor, na nossa relação com o Senhor. É isto que as leituras de Ezequiel e do Evangelho nos sugerem. O profeta Ezequiel, em nome de Deus, previne: “Quando o justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre!” Eis, que exemplo trágico: o amigo de Deus que morre para a vida com Deus! E por quê? Porque se descuidou e foi matando a relação com o Senhor, a ponto de matar Deus no seu coração e morrer para a relação com Deus! Ninguém pode dizer: “Já fiz tanto, já dei tanto ao Senhor, já renunciei tanto. Agora basta! Vou estacionar!” Isso seria regredir, definhar no caminho do Senhor, morrer para a vida com Deus! Mas, o contrário também é verdadeiro. Escutemos: “Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. Arrependendo-se de todos os céus pecados, com certeza viverá; não morrerá!” Eis a bondade do Senhor, que não nos prende no passado pecaminoso: Senhor da vida, teu amor nos faz recomeçar sempre! Não há desculpas para não mudarmos de vida, para não recomeçarmos, para não deixarmos nosso atoleiro de pecado, de vício de preguiça espiritual! O Senhor nos espera sempre hoje, no aqui e no agora; ainda que não muitas vezes não acreditemos mais em nós mesmos, ele continua crendo em nós, ele nos dá sempre a chance de experimentar seu perdão e sua misericórdia!
O que o Senhor falou pela boca de Ezequiel, Jesus confirma na parábola do Evangelho deste hoje. Quem são os dois filhos? O primeiro, que não queria obedecer ao pai, mas depois se arrependeu, são os pecadores que, arrependidos e humilhados, de coração acolheram Jesus e o Reino que ele veio anunciar; o segundo filho, que prometeu fazer a vontade do pai e, depois, fez como bem quis e entendeu, são aqueles escribas e fariseus, justos aos seus próprios olhos, caprichosos e auto-suficientes, que terminaram perdendo o Reino de Deus por recusarem acolher Jesus e sua palavra. Eis, caríssimos: o que estamos sendo diante de Deus? Estamos sendo generosos para com ele? Temos acolhido sua vontade na nossa vida? Temos sido atentos aos seus apelos? Deveríamos sempre progredir no caminho do Senhor...
Progredimos quando o amamos, quando fazemos sua vontade, quando a ele nos dedicamos; progredimos quando crescemos na virtude, progredimos quando somos fiéis aos nossos compromissos para com ele... Mas, entre nós, há aqueles que regridem, que esmorecem, que esfriam e se afastam... aqueles que pensam que podem ser cristãos numa atitude de comodismo burguês...
Que fazer para não parar? Que fazer para crescer no caminho do Senhor? São Paulo nos indica um caminho de grande beleza, simplicidade e eficácia, um caminho indispensável a todos nós! Quereis crescer na estrada de Deus? Quereis experimentar seu amor? Quereis viver de verdade? Então, “tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus!” Que conselho! Contemplar Jesus, aprender dele, do seu coração, seus sentimentos de total amor e total doação em relação ao Pai e a nós; aprender sua doçura, sua humildade, sua obediência radical ao Pai: “Ele, existindo na condição divina, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo, tornando-se igual aos homens, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz”.
Em Cristo, temos o hábito de pensar em Jesus, de contemplar essa sua atitude? Olhemos a cruz, aprendamos a lição do Senhor! Cristo nunca se buscou a si próprio, mas esvaziou-se totalmente, desejando somente a vontade do Pai. Por isso foi livre, por isso foi a mais perfeita e completa manifestação do Reino de Deus, pois isso o Pai o exaltou, o glorificou, encheu-o de vida plena!
Pois, bem, o apóstolo nos convida a contemplar Jesus, escutar Jesus, para adquirir os sentimentos de Jesus e, assim, viver a vida de Jesus. Viver assim, é ser amigo de Deus, é viver de verdade e tornar-se sinal de vida divina para os outros. Isso os cristãos deveriam ser; isso a Igreja deve ser! Pensem no quadro encantador que São Paulo traça: “Se existe consolação na vida em Cristo, se existe alento no mútuo amor, se existe comunhão no Espírito, se existe ternura e compaixão... aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade. Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, e cada um não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro!” Eis, caríssimos, o que é ter os sentimentos do Cristo; eis o que é viver para Deus; eis o que é ser já agora, testemunha daquela verdadeira vida que o Senhor nos dará por toda a eternidade! Cresçamos nesse caminho, progridamos nessa vida, para vivermos de verdade. Como pede a oração inicial desta santa missa: “Ó Deus, derramai em nós a vossa graça, para que, caminhando ao encontro das vossas promessas, alcancemos os bens que nos reservais!”

dom Henrique Soares da Costa

25º DOMINGO TEMPO COMUM
24 de Setembro de 2017

Para nós, justiça é pagar algo com o preço equivalente. Mas para Deus, justo é o que é bom, certo. Para nós, justiça é pagar algo com o preço equivalente. Mas para Deus, justo é o que é bom, certo. Como uma tampa é justa quando ela serve direitinho. Deus, na sua justiça, “ajusta” tudo o que faz (Sl. 146[145], 17; salmo responsorial). Assim, a justiça de Deus não é contrária à sua
bondade. E idêntica! Em Ez. 18,25, Deus se defende da acusação de ser injusto quando perdoa ao pecador que se converte. Deus não está interessado em pagamento, mas em vida: “Não quero a morte do pecador, mas sim, que ele se converta e viva” (Ez. 18,23). A mesma mensagem traz a 1ª leitura de hoje, Is. 55,6-9, convite para o tempo messiânico, que é também o tempo da plena revelação da estranha justiça de Deus, que tanto ultrapassa a nossa quanto o céu transcende a terra.
Nessa perspectiva, a parábola de Jesus no evangelho não é apenas uma lição para fazer-nos refletir sobre a justiça de Deus, mas ainda uma proclamação de que chegou o Reino de Deus, a realidade messiânica: buscai o Senhor, é o momento (cf. Is. 55,6)! Como é, então, esse tempo messiânico, esse Reino em que se realiza sem restrição o que Deus deseja? É como um dono que, em vários momentos do dia, contrata operários por uma diária e os manda trabalhar na vinha. Ainda às cinco da tarde (“undécima hora’) encontra alguns que até então não foram contratados (pormenor importante!) e também os manda à vinha. Ao pôr-do-sol, fazem-se as contas. Para escândalo dos “bons”, que trabalharam desde cedo, o dono começa pelos últimos, pagando-lhes a diária completa, tanto quanto aos primeiros... Aí descarrilam os nossos cálculos de retribuição. Mas Deus não está retribuindo, ele está fazendo o melhor que pode: “Me olhas de mau olhar porque sou bom?” Os primeiros tiveram tudo de que precisavam: trabalho, segurança e diária. Os últimos sofreram a insegurança, mas eles também devem viver, portanto, é bom dar a diária completa a eles também. Entendemos isso apenas quando temos uma mentalidade de comunhão, não de varejista. Tudo é de Deus. Não importa que eu receba menos ou mais que um outro; o importante é que todos tenham o necessário. E, se depender de Deus, é isso que acontecerá, pois “ele acerta em todas as suas obras” (Sl. 145[l44],17).
“Os últimos serão os primeiros, e os primeiros os últimos” (Mt. 20,16). Deus desafia a justiça calculista, auto-suficiente... Se achamos que podemos colocar-nos na frente da fila para acertar nossas contas com ele, estamos enganados. Os israelitas foram chamados primeiros e se gloriavam disso, achando que, por serem filhos de Abraão, por circuncidarem-se e observarem a Lei e a tradição, podiam reclamar o céu. Na última hora, Deus encontrou os que ainda não tinham sido convidados, os gentios, e estes precederam os israelitas auto-suficientes no Reino. Inclusive, isso serve para que esses israelitas mudem de idéia e se abram para o espírito de participação e gratuidade, que é o espírito do Reino. A graça não se paga; recebe-se. As pessoas “muito de Igreja” incorrem no perigo do farisaísmo, de achar que merecem o céu. Um presente não se merece. Ser bom cristão não é merecer o céu: é guardar-se sempre em prontidão para o receber de graça. E não querer mal àqueles que recebem essa oportunidade “em cima do laço”.
Pensemos em Paulo (2ª leitura), que não sabe o que escolher: viver para um frutuoso trabalho ou morrer para estar com Cristo. Continuar a trabalhar não teria para ele o sentido de ganhar o céu; desejá-lo-ia somente porque seria bom para os filipenses. Mas o que ele deseja mesmo é participar plenamente da proximidade do Senhor Jesus. Viver, para ele, é Cristo. Uma vida animada pela amizade por Cristo, não pelo cálculo... Na mesma carta, ele dirá que seu espírito de merecimento, suas vantagens conforme os critérios farisaicos, ele considera tudo isso como perda, como esterco (FI. 3,7-8)! Só o impulsiona ainda a graça, a gratuita bondade que Deus lhe manifestou em Jesus Cristo.
É difícil para o cristão tradicional assimilar esse espírito. Deve converter-se da preocupação de fazer tudo direitinho para ganhar o céu! Pois deve saber que sempre ficará devendo (cf. 6º domingo do T.C.) e terá de contar com a gratuita bondade de Deus tanto quanto os pecadores, que, muitas vezes, compreendem melhor a necessidade da graça.

padre Johan Konings 

24º DOMINGO TEMPO COMUM
17 de Setembro de 2017

Não há nada mais divino do que o perdão e não há nada mais diabólico do que a falta de perdão. Estamos no meio desse fogo cruzado: o fogo da graça, que faz de nós criaturas novas, e o fogo do inferno, que perde a nossa alma e a nossa vida.
Enquanto o fogo do Espírito, o fogo de Deus, o fogo do Céu aniquila o ressentimento, a mágoa, a falta de misericórdia e perdão, o fogo do inferno faz de nós pessoas vingativas, rancorosas, maldosas e assim por diante. É verdade que nós somos humanos e a nossa humanidade se fere, machuca e reacende. Ou pegamos o fogo da graça para curar nossa humanidade ou deixamos que o fogo do inferno acenda em nós e torne a nossa humanidade pior, estragada e mais enferma do que ela já é. Muitos de nós estão doentes e enfermos no corpo, na alma e no espírito pela falta do perdão.
Cultivamos o ressentimento e a mágoa que só nos enfraquecem, tornam-nos mais doentes e piores para nós e para os outros. Quando não perdoamos, o azedume toma conta de nós, a amargura cresce em nosso coração, a raiva se dilacera em nossos atos, em nossas atitudes e naquilo que fazemos.
Perdoar não significa que somos bonzinhos, que somos anjos. Perdoar significa que estamos permitindo a graça de Deus reinar no nosso coração. Nada é mais divino do que perdoar!
Deus não se faz presente numa pessoa quando ela fala muito d’Ele. Deus se faz presente numa pessoa quando ela tem atitudes divinas, e não há atitude divina mais sublime do que a arte e a graça de perdoar as ofensas, as mágoas e tantas situações vividas. Você pode pensar: “Eu não consigo perdoar o meu irmão, a dor foi grande demais!”. Humanamente, pode ser que não consigamos, mas, com a graça divina, o fogo do Espírito queima aquilo que ficou em nós: o ressentimento, a mágoa. O perdão é vivo, é concreto e real.
Não busquemos simplesmente respostas humanas para perdoar, busquemos o auxílio da graça, a vida em Deus e na oração. Busquemos o remédio divino da salvação, para que possamos ser canais do perdão e misericórdia de Deus.
O perdão de Deus para nós não tem limites, não cabe dentro dos cálculos humanos, o perdão que Deus quer que exale de nós é o perdão que brota da cruz, do amor, de uma verdadeira experiência com Deus.
Se não conseguimos perdoar, que Deus nos dê a graça e a força necessária para que vivamos o perdão setenta vezes sete, todos os dias e em todos os momentos e situações da vida.
Padre Roger Araujo

23º DOMINGO TEMPO COMUM
10 de Setembro de 2017

Deus quer que ganhemos o nosso irmão, porque não quer que o percamos. Não podemos permitir que muitas situações que acontecem em nosso meio, situações desagradáveis, que causam quedas e embaraços em nossa vida sejam um entrave para salvar o nosso irmão.
É mais fácil vender ou entregar o irmão, é mais fácil falar mal do irmão, escandalizar-se com ele, porém o mais fácil não é o mais evangélico nem o caminho de Cristo, porque o caminho de Cristo é o mais difícil e o mais exigente.
O mais exigente e o mais necessário é salvar o irmão, é salvar a relação, é salvar aquilo que se tornou complicado por causa de situações que constrangeram a nós e a tantas pessoas. É preciso da nossa parte termos a humildade para buscar a reconciliação e a correção fraterna.
Como é que corrigimos os outros? Primeiro, deixando-nos corrigir por Deus. É preciso ter a humildade de saber que todos nós precisamos de correção, de ajuda e auxílio; precisamos de ajuda para reconhecer as fraquezas que muitas vezes não enxergamos.
Tenha uma certeza na vida: é mais fácil enxergar os defeitos e pecados alheios do que os nossos. Muitas vezes, estamos atirando pedras, estamos acusando o outro e não estamos tendo a humildade de reconhecer as nossas próprias fraquezas.
Quando eu vejo a fraqueza de alguém, o pecado de alguém, alguma situação que causou constrangimento, a minha primeira atitude é voltar-me para mim mesmo, e como diz aquele velho ditado: “Colocar a barba de molho”, olhar para minha própria vida, corrigir meus limites e tudo aquilo que eu estou vivendo ou fazendo.
A primeira atitude é cada um saber corrigir a si mesmo, olhar para dentro de si e saber o que necessário mudar na vida de cada um. E a partir disso teremos a graça necessária e o espírito necessários para que possamos ajudar o outro.
Corrigir é, acima de tudo, ajudar, levantar e salvar a outra pessoa. Corrigir não quer dizer humilhar, jogar na cara da outra pessoa, fazer com que ela fique envergonhada com seus atos ou com qualquer outra coisa que ela tenha cometido. Corrigir é amar, é querer bem o outro, por isso não podemos sair falando dos defeitos de ninguém, acusando ou colocando a culpa em alguém. Amemos o irmão em particular e, com a caridade que nunca pode faltar, tentemos ganhá-lo, salvá-lo e conquistá-lo para que ele não se desvie do caminho do Senhor.
Deus abençoe você!
Padre Roger Araujo

22º DOMINGO TEMPO COMUM
03 de Setembro de 2017


Deus quer que encontremos o sentido para nossa vida, mais do que isso, Ele quer dar sentido a nossa vida, Ele não quer que a percamos nem que vivamos perdidos. Nossa vida precisa de sentido e direção.
Quem encontra o sentido e a direção para sua vida? Quem sabe fazer pouco caso da sua vida. Alguns podem pensar: “Como vou fazer pouco caso da minha vida? Ela é o dom mais precioso que eu tenho!”. É verdade! A vida é o dom mais sublime, temos que cuidar, amar, querer bem demais e ser responsável por ela. Só não podemos viver uma vida apegados às coisas ou às situações. Nós precisamos sempre desamarrar da vida para que ela cresça, floresça e vá adiante.
Muitas pessoas não saem do estágio um da vida, mas Deus quer que nós atinjamos o estágio máximo dela. No entanto, isso só acontecerá quando soubermos nos desapegar de nós mesmos. Somos apegados a querer as coisas do nosso jeito. “Fico só daquele jeito. Aprendi assim. Tem de ser assim e não pode ser de outro jeito”.
Não crescemos, não aprendemos mais, não amadurecemos na vida; e quando não amadurecemos, ficamos para trás no crescimento, na capacidade, naquilo que podemos fazer. Renunciar a si mesmo não quer dizer não ter vontade própria; renunciar a si mesmo quer dizer: “Eu não coloco a minha vontade em primeiro lugar. Eu sei sacrificar a minha vontade. Sei que, muitas vezes, não estou certo. Eu sei que, muitas vezes, é preferível ceder aqui para que o melhor aconteça, para que a paz seja edificada, para que o diálogo seja construído”.
Renunciar a si mesmo quer dizer: “Eu não sou o centro do mundo. Eu não sou sempre o dono da razão nem preciso ser”. Renunciar a si mesmo quer dizer trabalhar pela paz, pelo diálogo, pelo entendimento, pela compreensão. É tomar a cruz de cada dia para seguir Jesus. Não é viver um cristianismo, um seguimento de Jesus de forma superficial, mas sim um cristianismo de rosas e flores, onde parece que seguir a Deus é ver tudo florido, é ter “paz e amor” em tudo.
A paz é o amor de Deus em nós, é saber que enfrentamos as cruzes, as dificuldades, os problemas e os desafios, é saber que a vida precisa ser vivida, a cada dia, com a intensidade que ela exige, e que as dificuldades que temos pela frente não são maldições, não acontecem, porque Deus se esqueceu de nós. Elas acontecem, porque estamos vivendo, e viver a vida é uma luta a cada dia, é abraçar a nossa cruz, assumir o que precisamos sem fugir das nossas responsabilidades.
Deus abençoe você!
Padre Roger Araujo

21º DOMINGO TEMPO COMUM
27 de Agosto de 2017
A responsabilidade de Pedro
Ponto alto dos evangelhos sinóticos é a profissão de fé de Pedro, em Cesárea de Filipe. Em Mt, este episódio é enriquecido com a narração da transferência do “poder das chaves” a Pedro, chefe dos apóstolos. O significado dessa atribuição é ilustrado pela 1ª leitura, que narra a missão de Isaías junto a Sobna, prefeito do palácio (a cidade-templo de Jerusalém), para o depor de seu cargo e instalar no seu lugar Eliacim, filho de Helcias, “pondo sobre seus ombros as chaves da casa de Davi”. (Ao mordomo-prefeito cabia a tarefa de admitir ou recusar as pessoas diante do rei, como também a responsabilidade de sua hospedagem; daí ele ser chamado de “pai para os habitantes de Jerusalém”: aquele que dirigia a casa).
Em Mt. 16,13-20 (evangelho), a atribuição do “poder das chaves” a Simão Pedro é provocada por sua proclamação de fé messiânica em Jesus, em nome dos outros apóstolos. Simão pode ser o “pai” da comunidade: ele assume a responsabilidade. Jesus lhe dá nome de Cefas, em grego Pedro, que significa “rocha”. A própria Igreja é comparada com uma cidade, contra a qual aquela outra (as “portas”, ou seja, a cidade do inferno), não tem poder algum. E o prefeito desta cidade é aquele que se responsabilizou pela profissão de fé messiânica, Simão. Ele tem o poder de ligar (= ordenar, obrigar) e desligar (= deixar livre), portanto, o dom do governo, ratificado por Deus (o que o responsável faz aqui na terra, Deus o ratifica no céu).
Como os v. 17-19 são típicos de Mateus, e a 1ª leitura serve de ilustração exatamente destes versículos, pode-se considerar como tema especial deste domingo o poder de Pedro, ou melhor, sua “responsabilidade” (ele “respondeu” em nome dos outros). Mt traz alguns textos sobre Pedro que os outros evangelhos não trazem (Mt. 14,28-31; 16,17-19). Pedro é quem responde pela fé da Igreja. Prefigura-se aqui o carisma – pois não é uma inspiração de “carne e sangue”, mas de Deus mesmo (v. 17) – de enunciar a palavra decisiva quando é preciso formular o que a Igreja indefectivelmente assume na sua fé. (A “infalibilidade papal”) tem por objeto a fé que a Igreja quer conservar e expressar, mas não a fórmula considerada de modo meramente verbal. O responsável tem também a última palavra no governo (disciplina), embora não em seu próprio nome, mas como mordomo da casa do Cristo. Nesse sentido, é “vigário”, lugar-tenente de Cristo aqui na terra. O texto mostra também que Simão se tornou chefe pela iniciativa de Cristo (imposição do novo nome, que significa Chefe ou Rocha). Liderar a Igreja não pode ser uma ambição pessoal: na comunidade cristã não há lugar para tais ambições (cf. Mt. 18, 1-4; 20, 24-28). Só porque o único Mestre e Senhor assim o quer, Pedro pode revestir esta responsabilidade, e do mesmo modo os seus sucessores. Daí que, desde o início, o Papa é escolhido, sob a invocação do Espírito Santo – provavelmente a mais antiga tradição ininterrupta de governo por eleição que existe no mundo! O salmo responsorial sublinha, aliás, que Deus olha para os humildes ao distribuir os seus dons.
A 2ª leitura de hoje é o hino pelo qual Paulo conclui a parte doutrinal da Epístola aos Romanos, tendo versado durante onze capítulos sobre o Mistério da Salvação e da justificação gratuita pela graça de Deus e pela fé em Jesus Cristo. Depois de tanta meditação só lhe resta exclamar a imensurável profundidade deste mistério da graça. Deus não fica devendo a ninguém. “Quem primeiro deu-lhe o dom (a graça), para receber em troca?” (v. 33). Este hino cabe em qualquer circunstância de nossa vida. As orações participam do mesmo espírito de mistério e discreta alegria deste hino.

padre Johan Konings "Liturgia dominical"


ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA
20 de Agosto de 2017
A Mãe gloriosa e a grandeza dos humildes
Em 1950, o papa Pio XII proclamou o dogma da Assunção de Nossa Senhora ao céu. Um dogma é um marco referencial de nossa fé, por trás do qual ela não pode retroceder e sem o qual ela não é completa. Proclamamos que Maria, no fim de sua vida, foi acolhida por Deus no céu “com corpo e alma”, ou seja, coroada, plena e definitivamente, com a glória que Deus preparou para os seus santos. Assim como ela foi a primeira a servir Cristo na fé, é a primeira a participar na plenitude de sua glória, a “perfeitissimamente redimida”. Maria foi acolhida, completamente, de corpo e alma, no céu, porque ela acolheu o céu nela – inseparavelmente.
A presente festa é uma grande felicitação de Maria por parte dos fiéis, que nela veem, a um só tempo, a glória da Igreja e a prefiguração da própria glorificação. A festa tem uma dimensão de solidariedade dos fiéis com aquela que é a primeira a crer em Cristo e, por isso, também, é a mãe de todos os fiéis. Daí a facilidade com que se aplica a Maria o texto do Apocalipse, na primeira leitura, originariamente uma descrição do povo de Deus, que deu à luz o Salvador e depois se refugiou no deserto. Na segunda leitura, a assunção de Maria ao céu é considerada como antecipação da ressurreição dos fiéis, que serão ressuscitados em Cristo. Observe-se, portanto, que a glória de Maria não a separa de nós, mas a torna unida a nós mais intimamente.
Merece consideração, sobretudo, o texto do evangelho, o Magnificat, que hoje ganha nova atualidade, por traduzir a pedagogia divina: Deus recorre aos humildes para realizar suas grandes obras. Esse pensamento pode ser o fio condutor da celebração. Na homilia, convém que se repita e se faça entrar no ouvido e no coração esse pensamento ou uma frase do Magnificat que o exprima.
1º leitura (Ap. 11,19a; 12,1.3-6a.10ab)
O sinal da Mulher, no Apocalipse, aplica-se em primeiro lugar ao povo de Deus do qual nasce o Messias: à Igreja do Novo Testamento, nascida dos que seguem o Messias. Aparece no céu a Mulher que gera o Messias; as doze estrelas indicam quem ela é: o povo das doze tribos, Israel – não só o Israel antigo, do qual nasce Jesus, mas também o novo Israel, a Igreja, que, no século I d.C., quando o livro foi escrito, precisava esconder-se da perseguição, até que, no fim glorioso, o Cristo se possa revelar em plenitude. Ao ouvir esse texto, a liturgia pensa em Maria. Maria assunta ao céu sintetiza em si, por assim dizer, todas as qualidades desse povo prenhe de Deus, aguardando a revelação de sua glória.
Salmo responsorial (Sl. 45/44,10bc.11-12ab.16)
O salmo responsorial é belo canto nupcial em honra da esposa régia. Em Maria se reconhece o povo-esposa, Sião, que se apresenta em toda a sua beleza para as núpcias messiânicas: Deus que será dele como ele é de Deus.
2º leitura (1Cor. 15,20-27a)
No quadro da glória celestial, a segunda leitura evoca a visão da vitória de Cristo sobre a morte (presente também na liturgia da festa de Cristo Rei no ano A). O sinal da vitória definitiva de Cristo é a ressurreição, seu triunfo sobre a morte. Essa vitória se realizou na sua própria morte e se realizará também na morte dos que o seguem. Maria já está associada a Jesus nessa vitória definitiva; nela, a humanidade redimida reconhece sua meta.
Evangelho (Lc. 1,39-56)
O evangelho de hoje é o Magnificat. O quadro narrativo é significativo: Maria vai ajudar sua parenta Isabel, grávida, no sexto mês. Ao dar as boas-vindas à prima, Isabel interpreta a admiração dos fiéis diante daquilo que Deus operou em Maria. Esta responde, revelando sua percepção do mistério do agir divino: um agir de pura graça, que não se baseia em poder humano; pelo contrário, envergonha esse poder, ao elevar e engrandecer o pequeno e humilhado, porém dedicado ao serviço de sua vontade amorosa. O amor de Deus se realiza por meio não da força, mas da humilde dedicação e doação. E nisso manifesta sua grandeza e glória.
O Magnificat, hoje, ganha nova atualidade, por traduzir a pedagogia divina: Deus recorre aos humildes para realizar suas grandes obras. Ele escolhe o lado de quem, aos olhos do mundo, é insignificante. Podemos ler no Magnificat a expressão da consciência de pessoas “humildes” no sentido bíblico: rebaixadas, humilhadas, oprimidas. A “humildade” não é vista como virtude aplaudida, mas como baixo estado social mesmo, como a “humilhação” de Maria, que nem tinha o status de casada, e de toda a comunidade de humildes, o “pequeno rebanho” tão característico do Evangelho de Lucas (cf. 12,32, texto peculiar de Lc.). Na maravilha acontecida a Maria, a comunidade dos humildes vê claramente que Deus não obra por meio dos poderosos. É a antecipação da realidade escatológica, na qual será grande quem confiou em Deus e se tornou seu servo (sua serva), não quem quis ser grande pelas próprias forças, pisando os outros. Assim, realiza-se tudo o que Deus deixou entrever desde o tempo dos patriarcas (as promessas).
A glorificação de Maria no céu é a realização dessa perspectiva final e definitiva. Em Maria são coroadas a fé e a disponibilidade de quem se torna servo da justiça e da bondade de Deus; impotente aos olhos do mundo, mas grande na obra que Deus realiza. É a Igreja dos pobres de Deus que hoje é coroada.
A celebração litúrgica deverá, portanto, suscitar nos fiéis dois sentimentos dificilmente conjugáveis: o triunfo e a humildade. O único meio para unir esses dois momentos é pôr tudo nas mãos de Deus, ou seja, esvaziar-se de toda glória pessoal, na fé em que Deus já começou a realizar a plenitude das promessas.

Em Maria vislumbramos a combinação ideal da glória e da humildade: ela deixou Deus ser grande na sua vida.

19º DOMINGO TEMPO COMUM
13 de Agosto de 2017
Chamados no mar de injustiças e contradições humanas

Estamos iniciando o mês de agosto. Neste mês, a igreja propõe para as comunidades a reflexão em torno ao tema da vocação: cada domingo é dedicado, respectivamente, a uma delas: sacerdócio, pai, religiosa e leiga.
Vocação vem do latim: vocare – chamar. Muitos, pensando na profissão, dizem que não têm vocação para isso ou aquilo. Outros pensam que somente padres e religiosos (as) é que têm vocação. As duas afirmativas procedem. Faremos bem algo quando temos vocação para tal. Muitos até exercem uma profissão sem o devido sacerdócio, isto é, a dedicação. Imagine se um médico não está disponível quando um doente precisar dele. Vocação tem muito a ver com a intensidade e paixão no fazer e consequente felicidade. Quando o teólogo alemão completou bodas de vida sacerdotal, perguntaram-lhe pelo segredo da felicidade, e ele respondeu sabiamente: “Se você quer ser feliz por um dia: vá pescar; se quer ser feliz por um mês: case-se; se quer ser feliz por toda a vida: faça tudo com intensidade a cada minuto de sua vida”. Neste primeiro domingo de agosto, dediquemo-nos a refletir sobre a vocação sacerdotal. No último dia 4, celebramos o patrono dos padres, são João Maria Vianey, homem dedicado ao sacerdócio, que, no seu tempo, soube responder com eficácia ao chamado de Deus. Nas leituras de hoje, veremos que Deus chama o profeta Elias; Jesus convoca Pedro para caminhar sobre as águas do mar; Paulo fala, com tristeza, da não correspondência de seus compatriotas, os israelitas, ao chamado de Deus.
1ª leitura (1 Reis 19,9ª 11-13a)
Deus chama na brisa leve e convoca o profeta para uma missão conflituosa.
Elias, o grande profeta do povo judeu, é relembrado anualmente no jantar da ceia pascal. Os judeus deixam à mesa uma cadeira vazia para Elias e o recebem nas casas com uma taça de vinho. O livro de Malaquias atesta a promessa divina da volta de Elias, antes do Dia do Senhor, de modo que ele possa fazer voltar o coração dos pais para os filhos (Ml. 3,23-24). Não por menos, muitos cristãos acreditam que Jesus, o Messias, morreu invocando Elias (Mt. 27,47.49). A trajetória profética de Elias foi marcada, sobretudo, pela saída do palácio do rei. Com ele, se o rei precisasse ouvir o conselho de um profeta, teria que ir aonde povo estava, pois ali se encontrava o profeta. Elias multiplicou a farinha e o óleo de uma pobre viúva (1Rs. 17,7-16); ressuscitou o filho de outra, em Serepta (1Rs. 17,17-24); provocou seca; fez descer fogo do céu; predisse a chegada da chuva; degolou 450 profetas de Baal, após o sacrifício no monte Carmelo (1Rs. 18). Por tudo isso, Elias foi chamado de “homem de Deus” pelas pobres viúvas, mas, de assassino, pela rainha de Israel, Jezabel. Elias restaurou, em Israel, a fé em Javé, o Deus libertador. Tendo realizado todos esses feitos e vendo a perseguição bater às suas portas, Elias teve medo e fugiu para o monte Sinai. Qual outro Moisés que, após matar o soldado egípcio que matara o seu irmão de sangue, defendendo os direitos de seu povo, fugiu da casa do Faraó, onde teria sido criado (Ex. 2,11-3,22). Chegando ao monte Sinai, após quarenta dias e quarenta noites, fato simbólico que relembra a peregrinação do povo no deserto, Elias entra numa gruta. Deus lhe pede que saia e revela-se para ele em uma brisa suave (v. 12). Neste mesmo lugar, Deus havia se manifestado por meio de trovões, luzes, terremotos. Com Elias é diferente. Deus fala por meio de uma brisa suave. Muitos interpretam esse fato vocacional na vida de Elias como um chamado à serenidade, própria de Deus e do seu escolhido. Mesmo que essa afirmativa seja verdadeira, não é bem assim a missão dada a Elias, que os versículos posteriores retratam: Elias teria que descer do monte e retomar o caminho, ungir Hazael como rei de Aram; Jeú, rei de Israel e Eliseu, profeta em seu lugar. E o que é mais drástico: todos os três deveriam provocar uma matança geral, resguardando sete mil homens fiéis, que não aderiram a Baal (v. 18).
A vocação de Elias é marcada por: contato próximo de Deus; falar em nome de Deus; medo ao assumir a missão e suas consequências inevitáveis; denunciar as injustiças sociais; defender os pobres; purificar a religião por um estado que governa em nome de Deus e, se preciso for, matar os opositores de Javé. Aos nossos ouvidos pode soar estranho esse último ponto de sua vocação. Não podemos simplesmente, de forma anacrônica, justificar essas suas atitudes em nossos dias. Assim viveu Israel, nos primórdios de sua fé. A vocação sacerdotal, sobre a qual estamos refletindo, neste domingo, tem muito de Elias. Deus o chama ao sacerdócio, isto é, ao serviço de ser ‘ponte’ entre o povo de Israel e Deus. Elias tem medo, pois a sua missão não é fácil. O idílico do chamado na brisa leve vai muito além, no enfretamento aos desafios hodiernos de uma religião comprometida com a justiça social. O sacerdote, se não for, como Elias, um homem de oração e de serviço, não poderá corresponder ao chamado de Deus.
Evangelho (Mt. 14,22-33)
Segura nas mãos e vai... na fé
O evangelho de hoje, dando continuidade ao do domingo anterior, o da multiplicação dos pães, mostra Jesus subindo ao monte para rezar. No fim da tarde, ele volta caminhando sobre o mar. Os discípulos, com medo, pensam que se tratava de um fantasma. Jesus se apresenta e os convoca a ter fé. Pedro dialoga com ele e sai caminhando sobre o mar. Quando duvida, começa a se afogar, mas Jesus o acolhe pela mão. Os discípulos manifestam a fé em Jesus como Filho de Deus. Esse é o conteúdo do evangelho que ouvimos. Em que ele ilumina o tema de nossa reflexão, a vocação sacerdotal? Vejamos. Jesus caminha firme sobre o mar. Ele poderia realizar tal proeza, pois era o Filho de Deus. O mar é o lugar do medo, do não dominado, do mal, do não conhecimento humano, de onde vinha o leviatã, o demônio. O medo que vem do mar é contrastado, no evangelho, como o medo dos discípulos. Para o mar, Jesus havia enviado uma legião de porcos – animais impuros como o mar -, e possuídos de demônios, assim como a legião de romanos (Mt. 8,28-34). Pedro, a pedra, representa aquele que tem pouca fé e vacila no caminho. A mão de Deus, Jesus, o segura nas dificuldades e amaina o vento forte que vem do mar. A barca é o lugar seguro, apesar do mar violento e perigoso. Aqui vale lembrar a música: “Se as águas do mar da vida quiserem te afundar, segura nas mãos de Deus, e vai”... O sacerdote, assim como todo cristão, é chamado a enfrentar as dificuldades do ‘mar da vida’, a ter fé, apesar do medo. Caminhar sempre, professar a sua fé em Jesus, o Filho de Deus. E, assim como Jesus, buscar força na oração nos ‘montes’ da vida. Para o povo da Bíblia, o monte era o lugar da proximidade com Deus. O padre, fraco na fé, como Pedro, humano como outro humano qualquer, celebra ‘in persona Christi’ os sacramentos. Testemunhando, no altar e na vida, a paixão, morte e ressurreição de Jesus, o Filho de Deus.
2ª leitura (Rm. 9,1-5)
Quem nos separará do amor de Deus
Paulo, que de perseguidor dos cristãos, por causa da vocação – chamado de Deus que lhe aparece na pessoa do ressuscitado -, transformou-se em um homem de muita fé, contrário a Pedro do evangelho de hoje. A preocupação de Paulo, sobretudo no trecho que hoje ouvimos da Carta aos romanos, reside no fato de os seus parentes na carne, os israelitas, não demonstrarem fé em Cristo, descendente dos patriarcas e Deus bendito pelos séculos. Paulo tem consciência de que Deus escolhe Israel como seu povo e com ele fez uma aliança eterna. Paulo tem esperança de que os seus compatriotas iriam compreender o mistério da revelação de Deus em Jesus. Os judeus tinham Paulo como inimigo e traidor deles (At. 21,28). Paulo manifesta sua fé na divindade de Jesus. Essa questão percorreria longos séculos de discussão entre os cristãos, até o consenso final, no Concílio de Calcedônia, em 451, em que a igreja criou o dogma de fé na Trindade. Essa decisão, no entanto, provocou o surgimento de outra religião, o islamismo, que não aceitou a divindade de Jesus (cf. Faria, Jacir de Freitas, Apócrifos aberrantes, complementares e cristianismos alternativos – Poder e heresias! 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2010, p.147). Como Paulo, o sacerdote e os cristãos são chamados a testemunhar a fé em Cristo, Deus bendito pelos séculos.

frei Jacir de Freitas Faria, ofm

TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR
06 de Agosto de 2017


A Igreja propõe para a nossa meditação a passagem da Transfiguração de Jesus. Os discípulos de Jesus são levados "a um lugar à parte, sobre uma alta montanha", a fim de se encontrarem com Deus, por meio da oração.
Santa Teresa de Jesus diz:
"Que não é outra coisa a oração mental senão tratar de amizade, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama".
Então, a oração trata-se de amizade com Deus. E essa amizade brota do relacionamento intratrinitário, da amizade que o Pai tem pelo Filho, expressa nas palavras: "Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado". Para que também nós entremos nessa amizade e nos transfiguremos, por assim dizer, junto com Jesus, devemos atender ao apelo do Pai, que diz: "Escutai-o!". Da oração brota, então, um ato efetivo de amor a Deus: determinamo-nos a transformar a nossa vontade na vontade de Deus, como o próprio Jesus indica em outra passagem: "Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando".
Mas Jesus também quer que o nosso amor a Deus se desdobre no amor ao próximo: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos". Jesus leva-nos para o monte, mas não para que fiquemos aí, isolados em tendas, como sugeriu São Pedro; mas, ao contrário, para que, descendo o monte, entreguemos nossa vida por Ele e pelos outros. Então, a oração, que é amizade com Deus, desabrocha, concretamente, na prática quaresmal da caridade.
Ainda sobre a oração, Santa Teresa dá-nos algumas indicações preciosas:
"[O iniciante] pode fazer muito para se determinar a servir bastante a Deus e despertar o amor. A pessoa pode imaginar que está diante de Cristo e acostumar-se a enamorar-se da Sua sagrada Humanidade, tendo-O sempre consigo, falando com Ele, pedindo-lhe auxílio em suas necessidades, queixando-se dos seus sofrimentos, alegrando-se com Ele em seus contentamentos e nunca esquecendo-se Dele por nenhum motivo, e sem procurar orações prontas, preferindo palavras que exprimam seus desejos e necessidades.
É excelente maneira de progredir, e com rapidez. E adianto que quem trabalhar para ter consigo essa preciosa companhia, aproveitando muito dela e adquirindo um verdadeiro amor por esse Senhor a quem tanto devemos, terá grande benefício.
Para isso, não façamos caso de não ter devoção sensível— como eu disse —, mas agradeçamos ao Senhor, que nos permite estar desejosos de contentá-Lo, embora as nossas obras sejam fracas. Esse modo de trazer Cristo conosco é útil em todos os estados, sendo um meio seguríssimo para tirar proveito do primeiro e breve chegar ao segundo grau de oração, bem como, nos últimos graus, para ficarmos livres dos perigos que o demônio pode pôr.
Quem quiser passar daqui e levantar o espírito a sentir gostos, que não lhe são dados, perde, a meu ver, tudo." A oração não consiste em "sentir gostos", mas em determinar-se no amor. Que, nesta Quaresma, lembremo-nos de cultivar a verdadeira oração, "que não é outra coisa (...) senão tratar de amizade (...) com quem sabemos que nos ama".
Padre Paulo Ricardo


17º DOMINGO TEMPO COMUM
30 de Julho de 2017

O Reino: tesouro, pérola e rede
As leituras de hoje se entrelaçam na dinâmica da sabedoria divina a ser usufruída com o desejo incansável de um pescador e de alguém que busca pérolas preciosas. O reino pregado por Jesus exige decisão, empenho e discernimento. Caso contrário, cada um deverá pagar pela sua opção, sendo rejeitado ao separar as coisas boas das ruins, assim como o joio e o trigo, sobre os quais refletimos na semana anterior. A primeira leitura e o evangelho, complementados pela segunda leitura, são de grande simplicidade e trazem profunda mensagem de fé e esperança. Vejamos.
1ª leitura (1Rs. 3,5.7-12)
A sabedoria que Salomão não soube usar
Salomão ficou famoso por causa de sua sabedoria. É muito conhecido o episódio das duas mulheres prostitutas que brigavam por um mesmo filho (1Rs 3,16-28). Salomão solucionou o caso, mandando partir a criança ao meio e dividi-la entre as duas mulheres. Quando uma das mães reagiu, dizendo que ele poderia dar o filho à outra, e esta prontamente aceitou a proposta do rei, Salomão logo concluiu que a primeira era a verdadeira e ordenou que fosse considerada a mãe legítima. E o rei foi louvado pela sua sabedoria ao julgar. Na leitura de hoje, Salomão pede a Deus sabedoria para governar, julgar com equidade e bom senso ao discernir. Deus lhe concede além do pedido: um coração sábio e inteligente, como ninguém teve antes dele e ninguém terá depois dele (v. 12). No mundo bíblico, o coração é a sede do pensar e do conhecimento. É isso que Deus esperava de Salomão: sabedoria para governar. O leitor menos avisado logo pensará que Salomão, fazendo uso da sabedoria divina, terá feito um ótimo governo em Israel. Não é bem assim. Salomão explorou o povo com duros trabalhos, tirou o povo da roça e o levou para Jerusalém, de modo que pudesse, por meio de trabalhos pesados, construir um suntuoso templo em Jerusalém. Ademais, impôs-lhe um jugo pesado de impostos (1Rs. 5,12-12,11). Quando ele morreu, o país foi dividido em dois reinos, entre o norte e o sul, Israel e Judá, respectivamente. O povo clamou por alívio, mas seu filho e sucessor, Roboão, prometeu governar com dureza ainda maior: “Meu pai vos castigou com açoites, e eu vos açoitarei com escorpiões”, respondeu-lhes. Diante disso, surge a pergunta: por que, então, a nossa primeira leitura de hoje, 1Rs 3,5.7-12, enaltece tanto a Salomão? A resposta é simples: o texto se refere ao início de sua atividade governamental.
Ainda em nossos dias, muitos governos iniciam bem o mandato, mas acabam se corrompendo e explorando o povo. “Nada há de novo debaixo do sol”, já registrou a sabedoria de Eclesiastes 1,9. Salomão não soube usar a sabedoria que Deus lhe deu. A sabedoria de Deus é coisa boa, mas o ser humano, assim como tantos Salomões de hoje, desvia-a para o mal, pois não sabe discernir entre o bem e o mal. Para que isso aconteça, é preciso muita sabedoria. É o que vemos, na sequência, no evangelho de hoje.
Evangelho (Mt. 13,44-52)
O reino de Deus é como um tesouro, uma pérola e uma rede
A comunidade de Mateus termina o discurso de Jesus em parábolas com três outras comparações: o reino é como o tesouro, a pérola e a rede. Todas elas procuram ligar a sabedoria com a busca incessante do reino de Deus. Destaque, no entanto, para a última, explicada alegoricamente, associando o ato do pescador de separar os peixes com o fim do mundo.
O reino de Deus, na primeira parábola, é comparado ao tesouro encontrado no campo por um trabalhador. Encontrá-lo, assim como uma pérola, leva-o a comprar a terra, onde ele decide esconder o precioso achado. Fato semelhante ocorre em nossos dias: basta encontrar minério ou gás em terras outrora desvalorizadas, como ocorreu recentemente com o norte de Minas Gerais, que as terras se tornam supervalorizadas da noite para o dia. O tesouro encontrado é sinal de vida. A terra também. O sacrifício torna-se justificável na aquisição da terra. Jesus alude à sabedoria de quem busca incansavelmente o reino pregado por ele. Na tradição do Primeiro Testamento, o livro dos Provérbios diz: “Feliz o homem que encontrou a sabedoria..., mais feliz ainda é quem a retém” (Pr. 3,13-18). Reter o reino é considerá-lo como uma pérola preciosa que o comerciante sai à procura até encontrar. Não medindo esforços, ele vende tudo para comprá-la. O historiador Flávio Josefo, em Guerra judaica VII, 115, informa-nos que os romanos, depois da guerra de 70 que assolou Jerusalém, encontraram enterrados ouro, prata e objetos preciosos que pertenciam aos judeus. Esse fato ocorreu não somente com os romanos, pois era costume entre judeus, ante uma invasão estrangeira, enterrar os bens. O povo simples almejava encontrá-los. Imagine, então, a repercussão da fala parabólica de Jesus? O ensinamento de Jesus provoca encantamento no povo e desejo de deixar tudo para sair à procura do reino.
Os rabinos contavam uma parábola parecida. Havia um mestre que guardava em seu turbante uma pérola preciosa. Passando em uma ponte, deixou-a cair no rio e um peixe a engoliu. O mestre, então, passou a comprar todos os peixes na feira de sua cidade até encontrar novamente a sua pérola.
A terceira e última comparação com o reino de Deus é a rede que o pescador lança ao mar. Mar e rede se encontram nas mãos de pescadores. O mar é o símbolo do mal. Dele emanava tudo que não prestava. Nele morava o Leviatã, a força do mal opositora de Deus. Para ele se atiraram os porcos da cidade de Gerasa, os quais receberam os demônios que Jesus tinha expulsado (Mt 8,30-32). No episódio dos porcos, trata-se de uma linguagem apocalíptica: os porcos representam a legião romana – o mal que devia voltar de onde veio, o mar. Não por menos, a pesca exige separar o que presta do que não presta. Assim será no fim dos tempos: Deus julgará a todos pelas suas ações más e justas. Quem em vida foi sábio, procurou o reino e sua justiça, será considerado justo e se encontrará com Deus. Para quem não agiu assim restará a fornalha ardente e o ranger de dentes.
O evangelho termina citando uma personagem importante na sociedade daquela época, o escriba. A comunidade judaico-cristã de Mateus lhe confere a autoridade de seguidor do reino e de sábio que sabe distinguir entre as coisas da tradição judaica e aquelas que Jesus ensinava. Em outras palavras: o escriba judeu é o novo mestre dos ensinamentos de Jesus à luz da tradição judaica. Como ele, somos chamados a ler e atualizar sempre a palavra de Deus à luz dos acontecimentos do nosso tempo.
2ª leitura (Rm 8,28-30)
Ser imagem do Filho e pertencer ao reino de Deus
Complementando o que foi dito nas leituras acima, esse pequeno trecho da carta aos Romanos, ao tratar do ser imagem do Filho, remete-nos a um tema referencial de nossa fé judaico-cristã, nossa criação como imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26). Imagem é ser igual a Deus, e semelhança, um vir a ser. Nessa perspectiva, Paulo afirma que aos que Deus chamou e ama, ele lhes confere o ser imagem do seu Filho e nele recuperar a glória perdida.

Jesus e o reino de Deus das leituras anteriores são, na pregação paulina, a filiação divina do ser humano e a fraternidade universal do mundo com Deus, na justiça.

16º DOMINGO TEMPO COMUM
23 de Julho de 2017


O Joio

Olhando o mundo de hoje,
vemos que o BEM e o MAL caminham juntos.
Por que Deus permite tudo isso?
Por que não intervém para castigar os pecadores?

A Liturgia nos fala da PACIÊNCIA DE DEUS e
nos convida a convivermos com os dois com paciência e prudência.

A 1a Leitura apresenta um Deus indulgente e misericordioso
para com os homens, mesmo quando eles praticam o mal. (Sb 12,13.16-19)

A conquista da terra prometida realizou-se após muitos anos de guerras.
Deus poderia ter evitado o sofrimento, eliminando esses povos pagãos.
Ele não teve pressa em puni-los.
Ama todas as pessoas que criou, mesmo quando praticam o mal.
* Às vezes julgamos certos males como "castigos de Deus".
Deus é tolerante e justo, em quem a bondade e a misericórdia
se sobrepõem à vontade de castigar.
E convida-nos a adotar a mesma atitude.

A 2ª Leitura sublinha a Bondade e Misericórdia de Deus,
afirmando que o Espírito Santo "vem em auxílio de nossa fraqueza",
guiando-nos no caminho para a vida plena. (Rm 8,26-27)

O Evangelho destaca a Paciência de Deus. (Mt 13,24-43)
A presença do "Reino" no mundo é irreversível e
nele todos (bons e maus) têm lugar para crescer e amadurecer.

Na volta da Missão, nota-se a Impaciência dos Apóstolos
para com aqueles que não os acolheram:
"Queres que mandemos que desça o fogo do céu para destruí-los?"
- Jesus critica a pressa dos Apóstolos com TRÊS PARÁBOLAS:
  O trigo e o joio, o grão de mostarda e o fermento na massa...

+ A 1a Parábola (do trigo e do joio) nos revela DUAS ATITUDES:

- A Impaciência dos homens: "Senhor, queres que arranquemos o joio?"
                                                                           
- A Paciência de Deus: "Deixai crescer junto até a colheita..."

Deus não quer a destruição do pecador e a segregação dos maus.
"Deus é paciente e misericordioso lento para a ira e rico de misericórdia" (Sl 85)
Na construção do Reino, é preciso ter Paciência e
esperar a hora certa para a separação final na colheita.

* A "paciência de Deus" com o joio nos convida a rejeitar as atitudes
de rigidez, de intolerância, de incompreensão, de vingança,
e a contemplar os irmãos (com as suas falhas, defeitos, comportamentos)
com os olhos benevolentes, compreensivos e pacientes de Deus.
+ Joio e Trigo estão em toda parte: Mesmo em nossas Comunidades cristãs,
vemos presente tanto joio de desunião, de inveja, de fofocas...

E qual é a nossa primeira atitude? Arrancar o joio? "Nossa História de católicos,
  muitas vezes, se tornou História de arrancadores de joio,
  enquanto deveria ter sido história de perdão, de misericórdia e de amor."

- Esquecemos que o mal e o bem se misturam no mundo, na vida e no coração...
- Esquecemos que o Reino de Deus é um mundo de trigo e de joio,
  de guerra e de paz, de gozo e inquietação...
- Esquecemos que o joio de hoje poderá se tornar amanhã trigo para Deus...
- Esquecemos que mesmo dentro de cada um nós há trigo e joio.
- E Cristo ainda hoje continua repetindo: "Deixai crescer junto, até a colheita".

* O Reino de Deus é uma realidade irreversível,
  que está num processo de crescimento no mundo.

+ O que essa Parábola diz...

- Para LÍDERES de Comunidade
  que querem uma comunidade perfeita da noite para o dia?
- Para alguns PAIS
  que querem os filhos mudados num piscar de olhos?
- Para ANIMADORES de movimentos ou pastorais,
  que querem todo mundo atuando como eles?

è É importante saber conviver, no meio dos conflitos...

E então, ficar de braços cruzados passivamente?

Não, as outras duas parábolas complementam a mensagem:

+ Devemos ser a SEMENTE DE MOSTARDA, pequena, insignificante,
   mas que cresce até aninhar os pássaros em seus ramos.
+ Devemos ser o FERMENTO, que leveda toda a massa da farinha,
   o mundo em que vivemos...

à Assim estaremos transformando o JOIO em TRIGO...
O Reino de Deus já está presente entre nós, mesmo misturado com o joio,
mesmo pequeno como o grão de mostarda, ou um pouco de fermento...
O Reino não é um "condomínio fechado" formado de "bons" e "perfeitos".
Estão presentes também "outros", onde o Amor de Deus vai introduzindo
um dinamismo de conversão, de transformação, de vida nova.

* E NÓS?   - Somos TRIGO LIMPO: de amor, dedicação e colaboração?
                   - ou talvez JOIO de ódio, discórdia e calúnia?...

Um modo de ajudar a mudar o mundo do mal pelo mundo do bem
é semearmos sempre trigo e nunca joio.
Só com a vivência do Evangelho pode-se mudar o mundo.
O Espírito vem em nosso auxílio para sermos transformados e transformadores.

                                    Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa - 23.07.2017

15º DOMINGO TEMPO COMUM
16 de Julho de 2017


Na proclamação da Palavra deste domingo, iniciamos a escuta do capítulo 13 do Evangelho de Mateus, que nos traz o encantador discurso das parábolas sobre o Reino dos céus. Neste e nos próximos dois domingos, escutaremos essas sete sugestivas parábolas. Atenção, caríssimos, porque este capítulo 13 é o centro do Evangelho segundo Mateus! Para que possamos compreender bem o que nosso Senhor nos quer dizer, recordemo-nos que o Reino dos céus é o núcleo, o tema, o objetivo da pregação de Jesus: ele veio para instaurar o Reino entre nós e nos fazer participar dele em plenitude após nosso caminho neste mundo. Quando Mateus diz "Reino dos céus" é o mesmo que dizer "Reino de Deus", pois o céu é Deus e fora de Deus não pode haver céu! O anúncio do Reino dos céus é, portanto, o anúncio do reinado do Deus de Jesus, aquele mesmo Deus a quem ele chamava de Pai, Pai que é todo amor, todo ternura, todo compaixão e misericórdia! Por isso, o reinado de Deus é nossa vida e nossa felicidade!
Pois bem, caríssimos, com sete parábolas (sete significa perfeição, completude) o Senhor Jesus nos fala dos mistérios do Reino dos céus. São parábolas para serem ouvidas com essas perguntas no coração: Que é o Reino? Por que não aparece claramente neste mundo? Por que parece tão frágil? Onde ele está? Como se pode descobri-lo? Escutemos, porque o Senhor nos vai falar. Coloquemo-nos ao lado dos seus ouvintes, na tão doce cena do Evangelho de hoje: "Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galiléia. Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. E disse-lhes muitas coisas em parábolas..." Sentemo-nos nós também com essa multidão e escutemos as parábolas desses três domingos!
Ó Mestre, porque falas em parábolas? – perguntaram a Jesus. As parábolas, caríssimos, têm, primeiramente, um sentido didático: Jesus falava do Reino com imagens e cenas da vida do povo... Era fácil compreender, era acessível aos simples... Mas também, exatamente por serem simples e cheias de figuras, as parábolas somente poderiam ser compreendidas por quem tivesse um coração simples e cheio de boa vontade. Os soberbos, os de má vontade, os auto-suficientes jamais poderiam compreender, penetrar com o coração o mistério tão doce e suave que Jesus revela em suas parábolas. Por isso ele nos diz: "A vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado. Ao que tem será dado mais e terá em abundância; mas ao que não tem, será tirado até o pouco que tem... Porque eles, olhando, não vêem, ouvindo, eles não escutam nem compreendem... Deste modo, cumpre-se a palavra do profeta: 'Havereis de ouvir, sem nada entender. Havereis de olhar, sem nada ver. Porque o coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade e fecharam seus olhos para não ver com os olhos nem ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração..." Também nós, sem um coração pobre, humilde e confiante, jamais compreenderemos a verdade do mistério que Jesus nos apresentará nessas sete estupendas parábolas...
Comecemos, pois, a escutá-lo nesta primeira das sete: a Parábola do Semeador. A semente é a Palavra de Deus, que é sempre fecunda "como a chuva e a neve que descem do céu e para lá não voltam, mas vêm irrigar e fecundar a terra"... A Palavra que Jesus, o Semeador, joga no terreno do nosso coração, nunca ficará sem efeito; é uma Palavra eficaz! O padre Antônio Vieira, comentando esse Evangelho afirmava que a Palavra pode não dar fruto, mas dará sempre efeito: efeito de salvação ou efeito de condenação! É verdade: ninguém ficará neutro diante da Palavra do Senhor que escutou: ou a acolhe, dá fruto nela e acolhe a salvação, ou a rejeita, para ela se fecha e por causa dela se perde!
Se o semeador é Jesus e a semente é a Palavra, os diversos tipos de terrenos são os diversos tipos de coração. Sim, o terreno somos nós, caríssimos! E aqui está a nossa responsabilidade: tornar o nosso coração uma terra boa! Que não seja terra ruim, que não seja terra estéril. Não aconteça que sejamos daqueles que ouvindo, não escutam e vendo, não vêem! Por isso mesmo, essa Palavra deste hoje nos deve inquietar... Que tipo de terreno tenho sido? Que tipo de terreno tenho preparado no meu coração? Que fruto a Palavra está dando na minha vida? Recordemos, caríssimos em Cristo: se a Palavra não tiver fruto, ainda assim terá efeito!
Mas, há outro recado, outro ensinamento do Senhor nesta estória. Notem que a Palavra que anuncia o Reino é tão precária, a maior parte da semente parece ter um destino inglório, sem fruto! A Palavra onipotente aparece nesta parábola escandalosamente impotente – como na cruz! Mas, ao fim, ela triunfará, dará fruto: Ä semente que caiu na terra é aquele que ouve a Palavra e a compreende. Esse produz fruto: um dá cem, outro sessenta e outro, trinta". Não nos iludamos: ao final, o Reino triunfará, ainda que pareça inútil, ainda que muito da semente semeada pareça destinada ao fracasso e à esterilidade... A semente dará fruto... Que frutifique, pois, em nós!
Para isso, cuidemos do aqui e do agora de nossa existência, porque são nas coisas pequenas que o Reino aparece, que o Reino se faz, que a semente germina: no irmão que acolhi, na dor que suportei, na presença de Deus que descobri mesmo no meio das trevas da vida... Só quem ouve, só quem compreende pode acolher esse Reino e dar fruto de vida.
A humanidade inteira e a criação toda esperam o testemunho dos cristãos, esperam o nosso fruto no aqui e agora da existência, que antecipa e prepara a manifestação final da glória, que é a plena manifestação do Reino dos céus. A criação geme, a humanidade geme, tateando nas trevas em busca da luz, faminta em busca do alimento, mortal em busca da vida. Quem pode apontar a luz, quem pode trazer o pão, quem pode testemunhar a vida? Os cristãos, nós, se deixarmos que a semente da Palavra faça o Reino germinar em nós para que o Reino seja presença no mundo. Eis, portanto, que mistério tão grande: o Reino passa por nós, pela nossa pequena vida! Os cristãos, a Igreja, são como a respiração do mundo; sem nós, o mundo morreria asfixiado...
A parábola de hoje nos convida a preparar nossa existência para que o Reino possa brotar; convida-nos também ao espírito de fé para ouvir, para ver, para compreender mesmo nas coisas pequenas da vida; convida-nos à paciência e à fidelidade no dia a dia; convida-nos à consciência de que é Deus quem age, fazendo a semente crescer, desde que não impeçamos o dinamismo da semente. Eis! O Reino está em nós, está no meio de nós! Abramo-nos a ele...

dom Henrique Soares da Costa


14º DOMINGO TEMPO COMUM
09 de Julho de 2017


O profeta cristão deve ser um pequenino: a eficácia de sua mensagem se confirma na reação de bondade gratuita que ele provoca no coração dos que recebem a mensagem. No evangelho de hoje, contemplamos o modelo deste tipo de profeta: Jesus. Não apenas como mensageiro, mas como detentor de tudo o que o Pai lhe deu nas mãos, ele é humilde e livre de toda forma de violência (militar, política, intelectual, religiosa e cultural). Nele reconhecemos a plena realização da figura de Zc. 9,9-10 (1ª leitura), o Messias humilde, que troca o cavalo militar por um jumentinho.
1ª leitura (Zc. 9,9-10)
A primeira leitura apresenta o rei messiânico é humilde. É tirada da segunda parte do livro de Zacarias (Zc. 9-14), que contém pregações do século IV a.C. Naquele tempo, os judeus já não tinham rei próprio. Os direitos régios, naquele tempo, estavam nas mãos de reis estrangeiros, Alexandre Magno e seu sucessores. Zacarias exprime a “saudade do futuro”, o anseio por um rei não violento e opressor, um rei que fosse justo e não recorresse à violência (é isso que o termo “manso” quer dizer). O profeta imagina este Esperado de Deus, o Messias, como um rei diferente: em vez de entrar na cidade sentado num cavalo guerreiro, está sentado num jumento, animal que simboliza, ao mesmo tempo, a mansidão e a paz, pois, sendo animal de carga, serve para o bem-estar do povo e não para a destruição. Esse rei acabará com os carros e os arcos de guerra e estenderá, como outrora Davi, um império de paz de um mar (o Mediterrâneo) a outro (o golfo de Ácaba). Este rei está na mesma linha que o justo oprimido por seu próprio povo (cf. Zc. 12,10; 13,7-9), assim como, anteriormente, o Servo Padecente de Deus (cf. Is. 42,1-4; 52,13-53,12). Ele é justo e dedicado a Deus, que o ajuda e faz dele o salvador do povo que tinha sido dispersado pelo exílio babilônico e por outras violências.
Evangelho (Mt. 11,25-30)
O evangelho de hoje sugere que Jesus é quem leva à plenitude o “messianismo diferente” presente em Zc. 9 (1ª leitura). Com maior clareza ainda, encontraremos essa realização da profecia de Zacarias em outro cenário do evangelho: a entrada de Jesus em Jerusalém, situada, significativamente, no começo da semana da Paixão (cf. Mt. 21,1-10 e paralelos). Quanto ao evangelho de hoje, sua relação com o texto de Zc. 9 está, sobretudo, no tema da mansidão. Jesus acolhe os humildes e revela a eles – e não aos sábios e entendidos – algo que não vem de instância humana, mas do Pai (cf. Mt. 11,25-27). E, por causa de sua mansidão, seu “jugo” (= sua doutrina e orientação) é leve e suave (cf. Mt. 11,28-30, festa do Sagrado Coração).
O contexto em que a leitura do evangelho de hoje se situa é o seguinte: Jesus acaba de censurar as cidades da Galileia por causa de sua autossuficiência e orgulho (cf. Mt. 11,20-24). Em oposição a esse orgulho, surge a figura do mestre humilde, do revelador de Deus que se dirige aos simples e “pequenos” (apelido aplicado aos discípulos-missionários cristãos). Aqui, o que vale não são os critérios de grandeza humana, mas o puro dom gratuito de Deus: Jesus é o Filho, aquele que conhece o Pai por dentro e pode dispor de tudo o que é do Pai (cf. Mt. 11,25-27, o “júbilo de Jesus”).
Concatenada com essas palavras de júbilo, segue outra sentença (v. 28-30): um convite aos humildes para que acolham o “jugo” do mestre humilde. Jesus é um mestre diferente. Seu jugo, à diferença do de outros rabinos, não pesa nem machuca: é suave, dá paz e descanso às almas. Jesus é o mestre humilde e manso de coração, porém não no estilo “água com açúcar”. Para compreender melhor o que se quer dizer com humildade e mansidão, veja-se o que é o contrário. O contrário da humildade (literalmente, “estado baixo”) são o orgulho e a ostentação, que caracterizam os “grandes” de todos os tempos. E o contrário da mansidão (ou mansuetude) de Jesus é a violência. Ora, se a missão de Jesus e do missionário cristão é abrir as portas dos corações, para que serviria a violência?
A violência não converte ninguém. Da violência não se pode esperar resultado válido e duradouro. Mesmo que, às vezes, a ética nos obrigue a usar de pressão ou força (por exemplo, para proteger a vida de um inocente contra um criminoso), nunca se recorrerá à violência para comunicar uma convicção ou, como o fazia a Inquisição, impor a fé! Antes pelo contrário: na violência que se lhe opõe, o coração violento encontrará uma justificativa para si! Só a “mansidão” (no sentido de firmeza permanente) desmancha os argumentos da violência – lição do grande Mahatma Gandhi e, sobretudo, de Jesus crucificado.
2ª leitura (Rm. 8,9.11-13)
Na segunda leitura, encontramos uma mensagem semelhante: viver conforme o Espírito. Fechado a Deus, o ser humano é “carne”, existência humana limitada, sem perspectiva. Se ele não se abre a Deus, também seu intelecto é “carnal”. Mas quem se abre ao Espírito (que vivificou o Cristo), até seu corpo se torna espiritual, destinado para a vida verdadeira. A oposição “carne-espírito” corresponde à oposição “morte-vida”. Toda a nossa vida – corporal, psicológica, intelectual – deve estar a serviço do Espírito; à “carne” (no sentido paulino de autossuficiência) não devemos nada.
Os critérios da vida nova em Cristo, ou seja, da vida espiritual, são bem diferentes dos da vida antiga, carnal. O Espírito é a força vivificadora e transformadora que nos é dada em Jesus Cristo e da qual sua ressurreição é o sinal (v. 11). Não devemos nada aos critérios estreitamente humanos, fechados no egoísmo. É difícil convencer-nos disso. Estamos sempre prestando contas a critérios humanos, que nos são impostos sem a mínima “razão razoável”: moda, consumo, aparência, ditadura, medo. Parece até que temos medo de não ter algum poder ao qual prestar contas. Temos medo da liberdade do Espírito, da liberdade dos filhos de Deus. Ora, não estamos devendo nada àquilo que, nesses critérios mundanos, se opõe à vontade de Deus. Quantas vezes participamos ativa ou passivamente de atitudes e juízos injustos, de pressões exercidas sobre outras pessoas, de “proveitos” injustos e de egoísmo grupal! A tudo isso, não estamos devendo nada. Nosso compromisso é outro.
padre Johan Konings, sj

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO
02 de Julho de 2017

Os valores que Jesus pregou durante toda a sua vida e que chegaram até nós graças ao trabalho apostólico não podem ser somente objetos do nosso conhecimento, mas precisam ser encarnados na nossa vida e na nossa história. Esses valores precisam de uma mediação institucional para fazer parte da vida das pessoas. Jesus Cristo escolheu como mediação para essa encarnação a Igreja, conforme nos revela o Evangelho de hoje. Deste modo, fica claro para todos nós qual é o papel da Igreja e de todos os seus membros no processo de construção do Reino de Deus, como também a responsabilidade de todos no sentido de procurar fazer com que cada vez mais a Igreja seja fiel aos ensinamentos de Jesus.
Fonte CNBB

A AFIRMAÇÃO DE PEDRO Mt 16,13-19
HOMILIA

Na narrativa de Mateus encontramos duas de suas características dominantes. Ele acentua a dimensão messiânica de Jesus e já apresenta sinais da instituição eclesial nascente. Escreve na década de 80, quando os discípulos de Jesus oriundos do judaísmo estavam sendo expulsos das sinagogas que até então frequentavam. Ele pretende convencer estes discípulos de que em Jesus se realizam suas esperanças messiânicas moldadas sob a antiga tradição de Israel. Daí o acentuado caráter messiânico atribuído a Jesus por Mateus. Os cristãos, afastados das sinagogas, começam a estruturar-se em uma instituição religiosa própria, na qual a figura de referência é Pedro, já martirizado em Roma. Pedro é apresentado como o fundamento da Igreja e detentor das chaves do Reino dos Céus.
Ó Deus, hoje nos concedeis a alegria de festejar S. Pedro e S.Paulo… apóstolos que nos deram as primícias da fé. Estamos aqui como Igreja a reconhecer a unidade de fé que viveram na diversidade de missão. Por isso os celebramos juntos. Sua fé em Jesus foi força que encontraram para suas vidas e para sua missão. O Espírito moldou seus corações de tal modo que puderam, como diz Paulo, dizer: “Para mim, viver é Cristo” (Fl 1,21). Pedro faz a primeira expressão de fé do discípulo: “Tu és o Messias, o Filho de Deus Vivo” (Mt 16.16). Eu tenho a tentação de ver Pedro mais ligado à tradição e Paulo como um tipo mais avançado e rebelde. Os dois eram parecidos. Vemos Pedro romper com a tradição judaica e entrar em casa de pagãos consciente de que não devia chamar de impuro o que Deus declarara puro (At 10,15). Pedro abre as portas do paganismo ao Evangelho, no Concílio de Jerusalém, tachando a tradição judaica de um jugo impossível de suportar (At.15,10). Era uma grande libertação que fazia dentro de si mesmo pela ação do Espírito. Essa posição liberou a Igreja. Esse ato dá liberdade total a Paulo para evangelizar os pagãos (v.12). Paulo tão forte na liberdade, mantém tradições judaicas como cortar cabelos para cumprir um voto (At 18,18) e, por causa dos judeus, circuncidar Timóteo que tinha pai grego (At 16,3). A fé professada por Pedro se dá em um momento crucial da vida de Jesus, e O anima a seguir rumo à Paixão. Pedro recebe uma bem-aventurança: “Feliz és tu Simão, pois não foi um ser humano que te revelou isso, mas meu Pai que está nos céus”. Tem o dom de ser pedra de alicerce sobre a qual Jesus constrói a Igreja e lhe dá o poder de ligar e desligar (Mt 16,17-19). Paulo reconhece a ação do Espírito: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4,7).
Deram a vida pela Igreja e por Cristo. Rezamos no prefácio: “Unidos pela coroa do martírio, recebem igual veneração”. Eles têm consciência durante sua vida de que a perseguição que sofrem é por causa do Evangelho. Herodes desencadeou a perseguição sobre a Igreja; Matou Tiago e prendeu Pedro para apresentá-lo ao povo e ser morto. Ele foi libertado da prisão por um anjo (At 12,1-11). Paulo tem consciência do fim: “Já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida” (2Tm 4,8). Os dois têm a experiência de que são protegidos pelo Senhor: “O Senhor esteve a meu lado e me deu forças” (v. 17); Pedro reconhece: “Agora sei que o Senhor enviou seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava” (v.11).
O ensinamento desta festa à Igreja é a abertura à tradição e ao acolhimento da novidade para ser fiel. A Igreja tem que se voltar sempre para o dinamismo destes dois homens que deram a vida pelo evangelho. Eles nos ensinam. Não podemos ficar na superficialidade e celebrar sem refletir o que os fez grandes. Eles não só são colunas da fé, mas também dão rumos para seu futuro. Vivemos tempos nos quais há tendências de voltar à tradição pela tradição e à novidade pela novidade. Mas devemos partir da fé que professamos em cada celebração.
A Igreja celebra Pedro e Paulo no mesmo dia porque trabalharam na unidade da fé e na diversidade de modalidades. Sua força apostólica está na fé em Jesus. Pedro e Paulo não se diferem pelo apego à tradição ou inovação, mas pelo campo. Ambos têm a tradição que preserva e a inovação que assume caminhos novos. Ambos vivem da fé.
Unidos pelo martírio recebem igual veneração. Sofrem por causa do Evangelho. Herodes prende Pedro e Paulo está preso em Roma com a consciência de ter combatido o bom combate e guardado e fé. Ambos sabem que o Senhor esteve sempre com eles.
O ensinamento desta festa é a abertura à tradição e o acolhimento da novidade para ser fiel. Eles são colunas da Igreja, mas também dão rumos. Há tendência de voltar à tradição pela tradição ou ir à novidade pela novidade. Como Pe. Vitor Coelho dizia: a Igreja não é de bronze, pois enferruja. É uma árvore que cresce porque tem ramos novos e permanece porque tem tronco.
Celebrando S. Pedro e S. Paulo nós celebramos a ação de Deus em Jesus para implantar o seu Reino no mundo. Ele usou duas luvas de briga: uma grosseira, Pedro, e outra mais caprichada, Paulo. Por que essa diferença?
Os dois implantaram a Igreja de Deus em dois mundos diferentes, mundo judeu e mundo pagão. Missão diferente, mas o mesmo fim. Diferente é o modo de compreender a fé. Isso enriquece. O judaísmo tende ao ritualismo; o paganismo tende a um modo mais livre de vida. A Igreja se enriquece com esses dois modos de entender.
Eles se fundam na fé. Pedro e Paulo vivem Jesus. Mesmo passando na boca do leão, foram salvos e preservados. Deram a vida por Jesus. Eles falavam grosso e tinham o que dizer sobre Deus. Eu e você, o que temos feito no que toca a nossa fé em Deus?
Pai consolida minha fé, a exemplo do apóstolo Pedro que, em meio às provações, soube dar, com o seu martírio, testemunho consumado de adesão a Jesus.


12º DOMINGO TEMPO COMUM
25 de Junho de 2017

Para ser povo sacerdotal e profético a Igreja e seus membros deverão enfrentar a sorte dos profetas. Morrer e ser rejeitado por seus próprios destinatários é uma constante na vida dos profetas. É o que ocorreu a Jeremias, embora tivesse certeza de que, em última instância, Deus estava com ele (1ª leitura; o salmo tem o mesmo sentido). A Igreja conhecerá abalos e perseguições, mas não deverá ter medo; é preciso confiar em Deus. É um tema preferido de Mateus, que forma a moldura de seu evangelho: “Emanuel, Deus conosco” (1,23); “Estarei convosco até o fim do mundo” (28,20). Quando a Igreja cumprir sua missão profética, não deverá recear os que matam o corpo, pois Deus cuida até de um par de pardais (evangelho). Daí as admoestações de Cristo no Sermão missionário para não temer os homens (Mt. 10). Quem se solidariza com Cristo, Cristo se solidariza com ele.
1ª leitura (Jr. 20,10-13)
A força do profeta perseguido
A situação vivida por Jeremias não tem comparação com a dos demais profetas por sua dramaticidade. Foi o profeta que mais intensamente experimentou a rejeição e a perseguição. Foi chamado a profetizar num período particularmente crítico, às vésperas da ruína do reino de Judá, no século VI a.C. Caçado por seus perseguidores, preso, maltratado, sua tarefa consistia em “arrancar e destruir, exterminar e demolir, construir e plantar” (1,10), e isso contra sua própria gente, seus conterrâneos.
Sua mensagem demolidora contra as instituições do tempo provoca-lhe uma série de ameaças, calúnias, processos e perseguição. Ele anuncia “o terror de todos os lados”, que culminaria na deportação e exílio em Babilônia. Seus adversários, já não suportando o refrão, devolvem-lhe a moeda, acusando-o de terrorista, e, aos cochichos, tramam denúncias (v. 10a). Até os amigos do profeta foram subornados e procuram armar-lhe ciladas, para ver se deixa seduzir-se, se cai na armadilha, a fim de se desforrarem dele (v. 10b). Jeremias está com seu espaço vital minado. Não se sabe exatamente em que consistiam essas ciladas. Mas pela confiança que ele deposita em Deus – e pela forma como exprime essa confiança –, podemos captar a ação dos inimigos do profeta: fazem-lhe violência física para eliminá-lo (atentados, emboscadas) e procuram arrastá-lo ao tribunal para, mediante falsas acusações, condená-lo à morte.
De fato, a confiança do profeta perseguido repousa em Javé, que o protege, “como valente guerreiro” (v. 11a), da violência física. Javé é o guarda-costas do profeta. Examinando o justo, sondando-lhe os rins e o coração (v. 12a), Javé desmascara as falsas acusações contra Jeremias. Javé, portanto, é guarda-costas e advogado de defesa do profeta. Isso não quer dizer que o conflito teria sido eliminado; pelo contrário, existe com toda a violência de que é capaz. Porém, o profeta perseguido já vive na certeza da libertação: Deus já salvou! Sua luta não é estéril: Deus é o guarda-costas e o juiz! 
Evangelho (Mt. 10,26-33)
Confiança e fidelidade na perseguição
Jesus enviou seus discípulos para anunciar e implantar o Reino de Deus (cf. evangelho do 11º domingo comum). No evangelho de hoje, ensina-lhes a firmeza profética. Ensina-os a não ter medo daqueles que matam o corpo e a viver a confiança em Deus acima de tudo.
O Evangelho de Mateus nasceu de uma comunidade que já havia experimentado a violência da perseguição por causa de Jesus. Para os primeiros cristãos, a perseguição entrava na lógica do anúncio evangélico: aconteceu assim com Jesus, assim acontecerá com os que lhe forem fiéis. Contudo, os cristãos se perguntavam: Não existe outra forma de viver o evangelho sem passar pela perseguição? Até que ponto o testemunho cristão tem de passar necessariamente pela rejeição, enfrentando a violência? Como se posicionar diante da morte violenta? Onde está Deus nessa situação?
Essas perguntas estão por trás do capítulo 10 de Mateus – ao qual nosso texto pertence –, que trata da missão da comunidade cristã diante dos conflitos e perseguições por causa do testemunho. Os colaboradores para a justiça do Reino enfrentam as mesmas rejeições enfrentadas pelo Mestre da Justiça.
A expressão “Não tenham medo” aparece três vezes no texto (vv. 26.28.31). É, portanto, uma espécie de refrão, marcando com força a idéia de que é preciso ter coragem. O v. 28 mostra a quem a comunidade deve temer. Mas temer aí significa obedecer. Sabemos de que medo se trata: é o medo das consequências que a prática de Jesus suscita – hostilidades, perseguições, sentenças sumárias e morte. Esse medo tinha levado alguns da comunidade a buscar uma forma alternativa de testemunho, contornando os conflitos e perseguições, dando à religião um caráter intimista, de sacristia. Jesus garante que não deve ser assim; pelo contrário, “o que está encoberto será descoberto, e o que está escondido será revelado” (v. 26). Em outras palavras, aquelas intuições nascidas da prática de Jesus precisam ser levadas às últimas consequências, sem fugir delas. Essas intuições desmascaram os sistemas encobertos que promovem a morte. A luta pela justiça do Reino esbarra na resistência dos que não querem mudanças sociais. Foi assim com Jesus. Por que não o será com os discípulos dele?
Declarar-se a favor de Jesus é superar o medo e enfrentar inclusive a morte. O contexto desses versículos recorda os processos contra os cristãos nos tribunais. Para os primeiros cristãos, o martírio era o momento solene em que podiam proclamar, antes de serem executados, qual razão animava sua vida. Por causa dessa razão, perdiam a vida, sem que ninguém os defendesse. Contudo, o contexto desses versículos recorda outro processo, diante de Deus. Aí, os que confessam Jesus o terão por advogado diante do Pai. O cristão que se declara solidário com Jesus e seu projeto já tem Jesus a seu favor, declarando-se solidário com quem o confessa.
Segundo esses versículos, portanto, podemos entender qual o sentido da morte para o cristão. Ela tem sentido enquanto solidariedade com Jesus e seu projeto. E essa solidariedade é imediatamente envolvida pela solidariedade de Jesus, o vencedor da morte e comunicador da vida. Essa certeza capacita o cristão para o testemunho de Jesus. Resta, contudo, um desafio: aceitar a proposta, com suas consequências, ou rejeitá-la. Ser ou não ser solidário com Jesus. Ser ou não ser cristão!
2ª leitura (Rm. 5,12-15)
Com Jesus, passamos da morte à vida
No texto de hoje, são Paulo põe em contraste duas figuras, que representam duas opções de vida diferentes, com consequências contrastantes. Essas figuras são Adão e Jesus Cristo. Adão, o homem velho, por meio do qual o pecado entrou no mundo, trazendo como consequência a morte, contrasta com Jesus Cristo, o homem novo, mediante o qual a graça de Deus se torna presente no mundo, trazendo como consequência a vida em plenitude.
A humanidade inteira é solidária de Adão, no sentido de que todos pecam, sem poder se salvar por conta própria. Mais ainda: cada um de nós é Adão.
Jesus, com sua morte e ressurreição, rompeu o círculo fechado do pecado, salvando-nos por sua misericórdia e poder. É solidário conosco por causa de nossa incapacidade de salvar-nos.
O pecado estraga o mundo e a vida, mas a graça de Deus supera tudo isso. A misericórdia de Deus se manifesta no fato de quebrar o círculo vicioso do pecado, que gera sempre novas mortes, para introduzir a humanidade na esfera da graça e da vida. É assim que Paulo sintetiza o projeto de Deus realizado em Cristo Jesus.
Pistas para reflexão
- O tema fundamental deste domingo é o reconhecimento e gratidão pela graça de Deus, manifestada nos profetas e, sobretudo, em Jesus Cristo. Esse reconhecimento nos leva à convicção e à coragem de professar a fé, apesar das ameaças, do escárnio ou do pouco caso que esse testemunho encontre. Em que pesem as dificuldades e perseguições, sabemos que Deus está conosco.

- Testemunhar Cristo significa testemunhar a Justiça. Na sociedade atual significa ser contra os que fazem do lucro e do poder seus ídolos; significa não ceder a esses ídolos. Pelo reconhecimento da graça de Deus e por sua profissão de fé, o cristão se empenha para que a graça se encarne no mundo e supere as estruturas de pecado que promovem injustiças e desgraças e trazem sofrimento para a humanidade.

11º DOMINGO TEMPO COMUM
18 de Junho de 2017
"A messe é grande, mas poucos são os operários"
O evangelho de hoje nos relata uma parte do chamado discurso missionário de Jesus; ou seja, o grande apelo do mestre de que os seus discípulos participem da sua missão de levar a salvação àqueles que ainda não a possuem. Como enviado do Pai, Jesus veio no nosso meio e assumiu a nossa condição humana, para cumprir a sua missão de nos ensinar um novo modo de viver entre nós: como irmãos; e nos fazer descobrir e viver a nossa grande dignidade de filhos de Deus. Foi justamente para salvar a criatura mais amada por Deus: o homem, daquela situação de dor e de sofrimento que o pecado o reduziu, que Jesus se encarna e vai ele próprio à busca de quem se perdeu no caminho que conduz à vida. Mas essa tarefa é grande! Enormes são as exigências da messe. O número daqueles que necessitam ouvir a boa nova da libertação, a boa nova da vida, é grande; e, portanto, se faz necessário uma ajuda. E Jesus, vai confiar essa sua mesma missão aos seus discípulos, dando a eles o seu mesmo poder de lutar, de destruir, de aniquilar todas aquelas coisas que vão contra a vida e a felicidade do ser humano. Jesus, portanto, chama e envia os seus discípulos a serem mensageiros do reino de Deus. Reino este, que é vida nova, é esperança para quem ainda jaz debaixo do peso da escravidão do pecado. Mas quem são aqueles que o Senhor chama para serem seus enviados ao longo de todos os tempos? A resposta é simples: somos nós, os seus discípulos. Aqueles que o receberam como Senhor e mestre. Aqueles que primeiramente experimentaram a vida nova que ele nos trouxe. Portanto, esse convite comprometedor é feito também para nós hoje. Jesus interpela também, a cada um de nós, a sermos seus missionários, portadores de vida e de esperança, para o nosso mundo, para a nossa realidade de pobreza, miséria, violência, vícios, divórcios, e tantas outras coisas mais, que estão matando aos poucos e, silenciosamente, os irmãos. E por que, poderíamos nos perguntar, fazer isso, se já busco viver bem a minha fé, se quem está lá fora não quer saber de nada? Porque é nosso dever. É um pedido de Jesus. Porque também, se somos o que somos, é porque Deus por primeiro usou de misericórdia para conosco.  Porque tudo aquilo que temos e somos, foi gratuitamente que o recebemos. Seria egoísmo demais não desejar que também os outros tenham vida, tenham esperança. Como nos lembra Jesus: "Gratuitamente recebemos, e gratuitamente devemos dar". Assim como Deus não exigiu nada de nós na hora de nos enriquecer dos seus dons, do mesmo modo, devemos ter este espírito de gratuidade na hora de trabalhar para que o reino de Deus chegue também para nossos irmãos. Da generosidade de Deus, deve brotar a nossa generosidade para com os outros. Como nos dirá São Paulo na sua carta aos romanos: "Quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós". Hoje, também é tempo de estabelecer o reino de Deus, e Deus necessita de alguém que seja a sua voz portadora de boa nova para os sofredores; para a multidão "abatida e cansada, como ovelhas sem pastor". Hoje, somos nós os novos enviados de Jesus, que como Ele somos chamados a sentir compaixão dos cansados e oprimidos do nosso tempo. E não é esta justamente a missão que recebemos no fim de toda celebração Eucarística, quando depois da benção o sacerdote ou o diácono nos envia a anunciar o reino de Deus, colocando em prática aquilo que o Senhor nos manda, e que nós mesmos experimentamos na celebração da Eucaristia? Pois é justamente, neste momento da celebração, que nos comprometemos em acolher o convite, de sermos missionários, que Jesus nos faz. Assim como Ele fez com seus discípulos, chamando-os a si, ensinando-os e  fortalecendo-os com seu poder, do mesmo modo, ele nos reúne na celebração da Eucaristia, nos amestra com a sua palavra e nos fortalece com o poder do seu corpo e do seu sangue; para depois nos enviar ao mundo, como seus porta-vozes na nossa família, no nosso trabalho, na nossa comunidade.


SANTÍSSIMA TRINDADE
11 de Junho de 2017

O Deus de amor
O tempo pascal pôs-nos diante dos olhos a unidade da obra do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Cristo veio cumprir a obra do Pai e nos deu seu Espírito, para que ficássemos nele e mantivéssemos o que ele fundou, renovando-o constantemente, nesse mesmo Espírito. Assim, a festa de hoje vem completar o tempo pascal, como uma espécie de síntese. Síntese não intelectual (isso seria como a história, atribuída a santo Agostinho, da criança que queria colocar o mar num pequeno poço na areia), mas “misterial”, isto é, celebrando a nossa participação na obra das pessoas divinas. Se a oração do dia, hoje, implora pela perseverança na verdadeira fé, não visa à fé meramente dogmática, mas à adesão ao mistério que se apresenta no Pai, no Filho e no Espírito Santo. O cristão se caracteriza por não conhecer outro Deus exceto aquele que é o Pai de Jesus Cristo e doador do Espírito que animou Jesus e os seus, presente e atuante nas três “pessoas” que constituem sua realidade divina, o “acontecer de Deus” em nossa vida, na história e no universo.
Para compreender bem o espírito desta liturgia, convém aproximar a primeira leitura do evangelho, como faremos a seguir.
1ª leitura (Ex. 34,4b-6.8-9)
A primeira leitura é uma das páginas mais impressionantes e, literalmente, “reveladoras” da Bíblia. Depois do episódio do bezerro de ouro e da idolatria de Israel, Moisés pediu a Deus que se mostrasse, para que ele, Moisés, pudesse continuar seu caminho contando com sua presença (Gn. 33,12-23). Então, ao passar diante de Moisés, Deus revela seu íntimo, apresentando-se como Deus misericordioso e fiel (34,1-7). Deus é compassivo e misericordioso, lento para a cólera, rico em bondade e fidelidade (Ex. 34,6). Diante desse Deus, sentimos o peso do pecado, mas também o desejo de ser seus (Ex 34,9). Assim, o “Deus do Antigo Testamento” não é um Deus castigador, como muitas vezes se diz. Sua bondade ultrapassa de longe sua “vingança” (cf. 34,7, infelizmente suprimido no texto litúrgico). O “castigo” de Deus – o próprio mal que se vinga por suas consequências – tem fim, sua misericórdia não. Não há oposição entre o Deus do Antigo Testamento e o do Novo. É verdade que o Antigo Testamento não oferecia uma visão completa sobre Deus; Moisés só pôde ver Deus de costas (Ex. 33,23), de modo que João tem razão quando diz que ninguém jamais viu Deus, mas o Filho unigênito o deu a conhecer (1,18), pois quem vê Jesus, vê Deus mesmo (14,9). Mas o Deus do Antigo Testamento é o mesmo Deus do Novo. Deus é um só: o Deus de amor (1Jo 4,8.16). Nós é que temos, às vezes, uma visão muito parcial dele. Em Cristo, ele se deu a conhecer como aquele que ama o mundo até entregar por ele seu próprio Filho (cf. o evangelho).
Evangelho (Jo 3,16-18)
O evangelho alude ao sacrifício de Isaac. Abraão está disposto a sacrificar seu “filho unigênito” – sua única chance de ter um herdeiro. Assim, Deus deu ao mundo seu Filho unigênito. A obra de Cristo é o plano do amor do Pai para com o mundo. Quem o aceita na fé está salvo. O Deus que em Jesus Cristo se manifesta (cf. Jo 1,18) é o Deus da “graça e verdade” (cf. Jo 1,14.16-17), o que se pode traduzir também, conforme a índole da língua hebraica, por “amor e fidelidade”, as qualidades de Deus conforme a primeira leitura. Se na primeira leitura se falou da autorrevelação do Deus misericordioso e fiel diante de Moisés, o evangelho evoca que o amor de Deus se revela no dom de seu Filho único. O amor une Pai e Filho na mesma obra salvadora (Jo 3,16). Jesus conhece o interior de Deus (Jo 3,11) e o mostra (14,9). Deus se dá ao Filho e, diante disso, o mundo pode encontrar a salvação, a superação de suas contradições e a soltura das cadeias em que se encontra – em última análise, as cadeias do egoísmo. Assim, o ser humano é chamado a aproximar-se da luz, mas há quem se agarre às suas próprias obras, que não aguentam a luz do dia (Jo 3,19-21).
O mistério que nos envolve, hoje, é o da unidade do Pai e do Filho, no seu amor para o mundo (compare Jo 3,16 com 1Jo 3,16). Essa unidade no amor para dentro e para fora, Agostinho a identificou com o Espírito Santo, o Espírito de amor e de unidade que, faz oito dias, celebramos em Pentecostes.
2ª leitura (2Cor. 13,11-13)
A segunda leitura concentra a atenção sobre aquilo que a Trindade opera nos fiéis: a graça do Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo – tal como se repete numa das fórmulas de saudação no início da celebração eucarística. O mistério de Cristo na Igreja só se entende considerando a atuação das três pessoas divinas: o amor de Deus, que se manifesta na graça (no dom) de Jesus Cristo e opera na comunhão do Espírito, o qual anima a Igreja desde a ressurreição. O resultado é: alegria. Nesse final da segunda carta aos Coríntios, Paulo condensa toda a sua teologia. O mistério da Santíssima Trindade não está longe. Estamos envolvidos nele.
Daí ser bem adequada a saudação final, pela qual Paulo deseja aos fiéis o Deus da paz e pede que se saúdem com o “beijo santo” (o nosso “abraço da paz”) no nome das três pessoas divinas, caracterizadas por ele como segue: o Filho, graça; o Pai, amor; o Espírito, comunhão.
Amor e fidelidade
Uma pista para a atualização desta mensagem: nosso povo simples é muito comunicativo; partilha a tal ponto seus bens, pensamentos e sentimentos, que, às vezes, não faz diferença falar com fulano ou com sicrano – falando com um, fala-se com o outro. Falar com o filho da casa é a mesma coisa que falar com o pai: duas pessoas distintas, mas a “causa” (“o negócio”) é a mesma. Assim acontece também com as três pessoas divinas; que seja o Pai, o Filho ou o Espírito, a “causa” comum delas é sempre o que elas são, seu próprio ser: amor e fidelidade.
Para muitas pessoas, também as cristãs, a Santíssima Trindade não passa de um problema de matemática: como pode haver três pessoas divinas em um só Deus? Parece que esse mistério nada tem que ver com a vida delas. Se a Trindade fosse um problema matemático, deveríamos procurar uma “solução”. Na realidade, não se trata de uma fórmula matemática, mas de um resumo de duas certezas de nossa fé:
1) Deus é um só;
2) o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Deus. Isso nos convida à “contemplação” do mistério de Deus. Pois um mistério não é para o colocarmos dentro da cabeça, mas para colocar a cabeça (e a pessoa toda) nele...
Moisés (primeira leitura) invoca o nome de Deus: “SENHOR, Deus misericordioso e clemente, lento para a ira, rico em amor e fidelidade...”. São essas as primeiras qualidades de Deus. Deus é um Deus que ama. Jesus (evangelho) revela em que consiste a manifestação maior do amor de Deus para com o mundo: ele deu o seu Filho único, que quis morrer por amor a nós. O Pai e o Filho estão unidos num mesmo amor por nós. Em sua carta, João retoma o mesmo ensinamento: “Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos a vida por ele” (1Jo 4,9).
Assim, tanto no Antigo Testamento como no Novo, Deus é conhecido como “amor e fidelidade”. Essas são as qualidades que se manifestam com toda a clareza em Cristo (a “graça e verdade” de que fala Jo 1,14). Em Jesus, Deus se manifesta como comunhão de amor: o Pai, Jesus e o Espírito que age no mundo, esses três estão unidos no mesmo amor por nós. Um solitário não ama. Deus não é um ancião solitário. Deus é amor (1Jo 4,8), pois ele é comunidade em si mesmo, amor que transborda até nós.
Se Deus é comunidade de amor, também nós devemos sê-lo, nele. Se tanto ele nos amou, a ponto de enviar seu Filho, que deu sua vida por nós, também nós devemos dar a vida pelos irmãos, amando-os com ações e de verdade (cf. 1Jo 3,16-18). No amor que nos une, realizamos a “imagem e semelhança de Deus”, a vocação de nossa criação (Gn. 1,26).
O conceito clássico do ser humano é ser individualista. Mas isso não é cristão... Se Deus é comunidade, e nós também devemos sê-lo, não realizamos nossa vocação vivendo só para nosso sucesso individual, propriedade privada e liberdade particular. A Trindade serve de modelo para o homem novo, que é comunhão. Devemos cultivar os traços pelos quais o povo se assemelha ao Deus Trindade: bondade, fidelidade, comunicação, espírito comunitário etc.
Como pode haver três pessoas em um só Deus? Pelo mistério do amor, que faz de diversas pessoas um só ser. Deus é comunidade, e nós também devemos sê-lo.

padre Johan Konings, sj

SOLENIDADE DE PENTECOSTES

04 de Junho de 2017

“Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava”. Que Espírito é este, que encheu hoje os apóstolos e a inteira Igreja de Cristo?
Ele é o Espírito do Ressuscitado, soprado pelo Cristo Senhor: “Jesus disse: ‘Como o Pai me enviou (no Espírito Santo), eu também vos envio (neste mesmo Espírito)!"Depois soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo!”
Nele, tudo fora criado desde o princípio: “O Espírito do Senhor encheu o universo; ele mantém unidas todas as coisas e conhece todas as línguas” (Sb. 1,7). Somente no Santo Espírito podemos compreender que toda a criação e toda a história são penetradas pela vida de Deus que nos vem pelo Cristo; somente no Santo Espírito podemos perceber a unidade e bondade radicais da criação que nos cerca, mesmo com tantas trevas e contradições. É o Santo Espírito, doce Consolador, que nos livra do desespero e da falta de sentido!
Nele tudo se mantém, tudo tem consistência, tudo é precioso: “Encheu-se a terra com as vossas criaturas: se tirais o seu respiro, elas perecem e voltam para o pó de onde vieram. Enviais o vosso Espírito e renascem e da terra toda a face renovais”. É por sua ação constante que tudo existe e persiste no ser. Sem ele, tudo voltaria ao nada e nada teria consistência real. Nele, tudo tem valor, até a mais simples das criaturas...
Sem ele, nada, absolutamente, podemos nós: “Sem a luz que acode, nada o homem pode, nenhum bem há nele!” Por isso Jesus disse: “Sem mim, nada podeis fazer (Jo 15,5)”, porque sem o seu Espírito Santo que nos sustenta e age no mais íntimo de nós, tudo quanto fizéssemos não teria valor para o Reino dos Céus. Jesus é a videira, nós, os ramos, o Espírito é a seiva que, vinda do tronco, nos faz frutificar...
Ele é a nova Lei – não aquela inscrita sobre tábuas de pedra, mas inscrita no nosso coração (cf. Ez. 11,19; Jr. 31,31-34), pois “o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm. 5,5). A lei de Moisés, em tábuas de pedra, fora dada no Sinai em meio a relâmpagos, trovões, fogo, vento e terremotos (cf. Ex 19); agora, a Nova Lei, o Santo Espírito nos vem em línguas de fogo e vento barulhento e impetuoso, para marcar o início da Nova Aliança, do Amor derramado no íntimo de nós!
Ele tudo perdoa e renova e, Cristo, pois é Espírito para a remissão dos pecados: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados!” É, pois, no Espírito que a Santa Igreja anuncia a paz do Evangelho do perdão de Deus para a humanidade em Cristo Jesus!
Ele nos une no Corpo de Cristo, que é a Igreja, pois “fomos batizados num único Espírito para formarmos um só corpo...” – Neste Corpo, ele nos enche de dons, carismas e ministérios, pois “a cada um é dada a manifestação do Espírito para o bem comum”. É no Espírito que a Igreja é uma na diversidade de tantos dons e carismas; uma nas diferenças de seus membros...
Ele faz a Igreja falar todas as línguas, fá abrir-se ao mundo, procurar o mundo com “santa inquietude”, não para render-se ao mundo ou imitá-lo ou perder-se nele, mas para “anunciar as maravilhas de Deus” em Cristo Jesus, chamando o mundo à conversão e à vida nova em Cristo!
Enfim, Ele torna Jesus sempre presente no nosso coração e no coração da Igreja e no testemunha incessantemente, sempre e em tudo que Jesus é o Senhor, pois “ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo!” – para a glória de Deus Pai.

dom Henrique Soares da Costa

ASCENSÃO DO SENHOR
28 de Maio de 2017

A exaltação e senhorio de cristo e a evangelização
Quarenta dias depois da Páscoa, a Igreja celebra a Ascensão do Senhor. Na realidade, o que se celebra hoje é bem mais do que uma aparição na qual Jesus é elevado ao céu. É toda a realidade de sua glorificação que celebramos, aquilo que os primeiros cristãos chamaram de “estar sentado à direita do Pai”. Assim, a última aparição de Jesus aos apóstolos aponta para uma realidade que ultrapassa o quadro da narração. Por isso, não precisamos preocupar-nos em “harmonizar” a ascensão segundo At. 1,1-11, em Jerusalém (1ª leitura), com a de Mt. 28,16-20, na Galileia (evangelho). Pode tratar-se de duas aparições, dois acontecimentos diferentes, que têm o mesmo sentido: Jesus, depois de sua ressurreição, não veio retomar sua atividade de antes na terra (cf. sua advertência a Maria Madalena em Jo 20,17) nem implantar um reino político de Deus no mundo, como muitos achavam que ele deveria ter feito (cf. At. 1,6). Não. Jesus realiza-se agora em outra dimensão, a dimensão de sua glória, de seu senhorio transcendente. A atividade aqui na terra, ele a deixa para nós (“Sede as minhas testemunhas... até os confins da terra”; At. 1,8), e nós é que devemos reinventá-la a cada momento. Na ressurreição, Jesus volta a nós, não mais “carnal”, mas em condição gloriosa, para nos animar com seu Espírito (At. 1,8; Mt. 16,20; cf. Jo 14,15-20, evangelho de domingo passado).
1ª leitura (At. 1,1-11)
A primeira leitura narra a ascensão de Jesus e a missão dos apóstolos segundo o livro dos Atos dos Apóstolos. Os dias entre a Páscoa e a ascensão formam “o retiro de preparação para o desabrochar da Igreja”: 40 dias, como os 40 dias de Moisés e de Elias no Horeb, como os 40 anos de Israel no deserto. Nesses dias, Jesus deu as últimas instruções aos seus: a promessa do Espírito e a missão de evangelizar. Os discípulos não devem ficar olhando o céu, mas deverão levar a mensagem de Jesus ao mundo inteiro, “até os confins da terra” (At. 1,8), e para isso receberão a força do Espírito. Até o Senhor voltar, sua Igreja será missionária.
2ª leitura (Ef. 1,17-23)
Na exaltação do Cristo, revela-se a força de Deus. A carta aos Efésios se inicia com um hino de louvor (vv. 2-10), seguido por um enunciado sobre o plano da salvação (vv. 11-14) e uma súplica pelos fiéis (vv. 15-19), que se expande numa proclamação dos grandes feitos de Deus em Cristo (vv. 20-23). Essa súplica e contemplação constituem a leitura de hoje. Deus ressuscitou Jesus e o fez cabeça da Igreja e do universo. A Igreja é seu “corpo”, ela o torna presente no mundo, ela é a presença atuante de Cristo no mundo. Celebrando a glorificação do Cristo, tomamos consciência de nossa própria vocação à glória. Também a oração do dia e os prefácios próprios falam nesse sentido.
Nestes tempos de “diminuição” da Igreja, podemos encontrar nessa leitura uma perspectiva maior e um ânimo mais firme. Cristo se completa em sua Igreja, e esta encontra no Senhor ressuscitado e glorioso a sua firmeza. Não há por que ficarmos medrosos e desanimados.
Evangelho (Mt. 28,16-20)
O evangelho é o final do Evangelho segundo Mateus. Traz as últimas palavras do Senhor ressuscitado: a despedida de Jesus e a missão dos apóstolos. Tudo isso à luz da compreensão que Mateus tem do evangelho. No início do evangelho, Jesus é entendido como aquele que realiza o sentido pleno da profecia do “Emanuel”, Deus-conosco (Mt. 1,23). Depois, Mt 4,15-16 ressaltou que a atuação desse “Emanuel” se iniciou na “Galileia dos gentios”, primeiro destinatário da mensagem da salvação, realizando-se assim o sentido pleno de Is. 8,23-9,1. Mas, durante sua missão terrestre, Jesus se restringiu às ovelhas perdidas de Israel (Mt. 10,5-6). Agora, na cena final (28,16-20), o Senhor glorioso transcende os limites de Israel. Suas palavras finais significam o universalismo da missão dos apóstolos e da expansão da Igreja. Todos os povos serão discípulos de Cristo (assinalados pelo batismo). O fim do Evangelho de Mateus revela o sentido universal de todo o ensinamento nele consignado (cf. sobretudo o Sermão da Montanha, Mt. 5-7).
Assim, ao celebrarmos a entrada de Jesus na glória, não celebramos uma despedida, mas um novo modo de presença; celebramos que ele é, realmente, o Emanuel, o Deus-conosco, para sempre e para todos (Mt. 28,20). Esse novo modo de presença é um aperitivo da realidade final: assim como ele entra na sua glória, isto é, como Senhor glorioso, assim ele voltará, para concluir o curso da história (cf. At. 1,11). Pouco importa como a gente imagina isso, o sentido é que, desde já, Jesus é o Senhor do universo e da história (cf. o salmo responsorial, Sl. 47) e nós, obedientes a sua palavra, colaboramos com o sentido definitivo que ele estabelece e há de julgar.
O senhorio de Jesus e a evangelização
Temos o costume de considerar a ascensão de Jesus (como também a ressurreição) principalmente como um milagre. Mas o sentido principal desse fato é o que exprimem os termos “exaltação” ou “enaltecimento”, a entronização de Jesus na glória de Deus. Esses termos, evidentemente figurativos, significam o seguinte. Os donos deste mundo haviam jogado Jesus lá embaixo (se não fosse José de Arimateia a sepultá-lo, seu corpo teria terminado na vala comum...). Mas Deus o colocou lá em cima, “à sua direita”. Deu-lhe o “poder” sobre o universo não só como “Filho do homem”, no fim dos tempos (cf. Mc. 14,62), mas, desde já, por meio da missão universal daqueles que na fé aderem a ele. E nós participamos desse poder, pois Cristo não é completo sem o seu “corpo”, que é a Igreja, como nos ensina a 2ª leitura.
Com a ascensão de Jesus, começa o tempo para anunciá-lo como Senhor de todos os povos. Mas não um senhor ditador! Seu “poder” não é o dos que se apresentam como donos do mundo. Jesus é o Senhor que se tornou servo e deseja que todos, como discípulos, o imitem nisso. Mandou que os apóstolos fizessem de todos os povos discípulos seus (evangelho). Nessa missão, ele está sempre conosco, até o fim dos tempos.
O testemunho cristão, que Jesus nos encomenda, não é triunfalista. É fruto da serena convicção de que, apesar de sua rejeição e morte infame, “Jesus estava certo”. Essa convicção se reflete em nossas atitudes e ações, especialmente na caridade. Assim, na serenidade de nossa fé e na vivência radical da caridade, damos um testemunho implícito. Mas é indispensável o testemunho explícito, para orientar o mundo àquele que é a fonte de nossa prática, o “Senhor” Jesus.
A ideia do testemunho levou a Igreja a fazer da festa da Ascensão o dia dos meios de comunicação social – a “mídia”: imprensa, rádio, televisão, internet. Para uma espiritualidade “ativa”, a comunidade eclesial deve se tornar presente na mídia. Como é possível que num país tão “católico” como o nosso haja tão pouco espírito cristão na mídia e tanto sensacionalismo, consumismo e até militância maliciosa em favor da opressão e da injustiça?
Ao mesmo tempo, para a espiritualidade mais “contemplativa”, o dia de hoje enseja um aprofundamento da consciência do “senhorio” de Cristo. Deus elevou Jesus acima de todas as criaturas, mostrando que ele venceu o mal mediante sua morte por amor e dando-lhe o poder universal sobre a humanidade e a história. Por isso, a Igreja recebe a missão de fazer de todas as pessoas discípulos de Jesus.
Uma idéia que permeia a liturgia deste dia (como de todo o tempo pascal) e se exprime na oração sobre as oferendas e na oração depois da comunhão é que o cristão deve viver com a mente no céu, comungando na realidade da glorificação do Cristo. Essa participação é novo modo de presença junto ao mundo; não uma alienação, mas, antes, o exercício do senhorio escatológico sobre este mundo. Viver com a mente junto ao Senhor glorioso não nos dispensa de estar com os dois pés no chão; significa encarnar, neste chão, aquele sentido da história e da existência que em Cristo foi coroado de glória.

padre Johan Konings "Liturgia dominical"



A Igreja celebra nos próximos dias duas grandes festas: ASCENSÃO e PENTECOSTES.
As Leituras bíblicas refletem sobre os dois fatos:
- A Ascensão: com o discurso da Despedida.
- O Pentecostes: com a promessa do Espírito Santo...
  e a Imposição das mãos dos apóstolos.
A Liturgia nos mostra que Deus está presente na sua Igreja, pelo Espírito Santo, mesmo depois da volta de Jesus ao Pai.
A 1ª leitura narra o início da missão evangelizadora da Igreja, fora de Jerusalém. (At 8,5-8.14-17)
Os Apóstolos Pedro e João são enviados à Samaria, para completar a Iniciação cristã realizada pelo Diácono Felipe conferindo o Dom do Espírito Santo aos recém-batizados, através do gesto da imposição das mãos.
Essa passagem constitui o "Pentecostes Samaritano", como na casa do Centurião romano tem lugar o pentecostes "pagão".
O episódio lembra duas verdades:
- O Batismo é completado pela Unção com o óleo do Crisma   e pela imposição das mãos do Bispo, no sacramento da Confirmação.   É o momento em que recebemos a Plenitude do Espírito Santo.
- Para uma comunidade se constituir de fato como Igreja,   não basta uma aceitação isolada e independente da Palavra,   mas é convidada a viver a sua fé em comunhão com toda a Igreja.
Na 2ª Leitura, Pedro exorta os cristãos à perseverança e à fidelidade aos compromissos assumidos com Cristo no Batismo. (1Pd 3,15-18)
O Evangelho faz parte do discurso da DESPEDIDA de Jesus. É o testamento que o mestre deixa à Comunidade antes de partir. (Jo 14,15-21)
Os discípulos se mostram abalados e tristes... Jesus os anima, declarando que não os deixará órfãos no mundo.
Ele vai ao Pai, mas vai encontrar um modo de continuar presente e de acompanhar a caminhada dos seus discípulos. É uma alusão à sua volta invisível, mas real, mediante o Espírito Santo, que o substituirá junto aos discípulos e permanecerá sempre com eles e com toda a Igreja.
É a possibilidade de viver em intensa comunhão com o Pai e o Filho, pelo Espírito da Verdade, que nos é dado como dom da Páscoa.
Para isso, é preciso um amor autêntico, que se manifesta na observância dos Mandamentos:
"Quem me ama... guarda os meus mandamentos..."
Só quem vive esse amor está apto a receber o Espírito Santo. O amor supera o medo, a separação e a morte...
- Jesus fala de "Os MEUS Mandamentos...":  
Não se trata dos 10 Mandamentos, pois já existiam no Antigo Testamento...
Pouco antes, Jesus resumira toda a Lei e os Profetas  em "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como ele nos amou"
Conseqüências desse amor vivenciado dos Mandamentos:
- Merece receber o Espírito Santo:
  "Ele vos dará o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber".
- É alguém amado pelo Pai...: "Ele será amado pelo Pai..."
- Torna-se capaz de perceber a manifestação de Cristo:
   "Eu o amarei e me revelarei a ele..."
- Sobretudo, torna-se MORADA DE DEUS:
   "Viremos a ele e faremos nele morada..."    
A Comunidade cristã será então a presença de Deus no mundo:
Ela e cada membro dela se converterão em Morada de Deus, o espaço onde Deus vem ao encontro dos homens.
Na Comunidade dos discípulos e através dela, realiza-se a ação salvadora de Deus no mundo.
Esse "caminho" proposto por Jesus para muitos parece um caminho de fracasso, que não conduz nem à riqueza, nem ao poder, nem ao êxito social, nem ao bem estar material. Parece não dar sabor à vida dos homens do nosso tempo.
No entanto, Jesus garante que é nessa identificação com Cristo e nesse "caminho" do amor e da entrega, que se encontra a felicidade plena e a vida definitiva. Jesus promete aos discípulos o envio de um "defensor", de um "intercessor", que irá animar a comunidade cristã e conduzi-la ao longo da sua história.
A Comunidade cristã, identificada com Jesus e com o Pai, animada pelo Espírito, é o "Templo de Deus", o lugar onde Deus habita no meio dos homens. Através dela, o Deus libertador continua a concretizar o seu plano de salvação.
Procuremos viver intensamente essa presença de Cristo, no meio de nós, agora na Eucaristia
e depois no amor vivenciado com os irmãos!
O Espírito Santo não pode continuar sendo o "ilustre desconhecido"!

                                                           Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa 

5º DOMINGO DA PÁSCOA
14 de Maio de 2017

A liturgia de hoje deve ser contemplada à luz da leitura evangélica, tomada de João. Essa leitura, junto com o prólogo de João, fornece, como veremos, a chave da mensagem do Quarto Evangelho: a manifestação de Deus em Jesus Cristo. Por outro lado, a primeira e a segunda leituras dirigem nosso olhar para a comunidade nascida da fé em Jesus, a Igreja. Por isso, a dinâmica da homilia poderá desdobrar-se na ordem inversa das leituras, pois o que o evangelho faz entrever é a base daquilo que as leituras evocam.
1ª leitura (At. 6,1-7)
A primeira leitura continua a narração dos primórdios da jovem comunidade nos tempos depois da Páscoa e Pentecostes. A caridade cria novas tarefas, porque o crescimento da comunidade tinha trazido um novo problema. Além dos convertidos do judaísmo tradicional de Jerusalém, entraram convertidos do “judeu-helenismo”, judeus helenizados, que viveram nas cidades comerciais do Mediterrâneo, ou pagãos convertidos, prosélitos, que tinham aderido ao judaísmo e agora passavam à comunidade cristã. A entrada dessas pessoas, que não pertenciam aos clãs tradicionais, tornou necessário um novo serviço na comunidade: a organização da assistência às viúvas desse grupo e do “ministério dos pobres” em geral, ao lado dos apóstolos, que serão em primeiro lugar servidores da Palavra e fundadores de comunidades.
2ª leitura (1Pd. 2,4-9)
A segunda leitura casa bem com a primeira. Fala do mistério da Igreja, templo de pedras vivas, sustentadas pela pedra de arrimo que é Jesus Cristo, “pedra angular rejeitada pelos construtores” (1Pd 2,7; cf. o salmo pascal, Sl 118[117],22). Em 1Pd 2,9, a Igreja é chamada pelo título por excelência do povo de Israel segundo Ex 19,6, “sacerdócio régio”, sacerdócio do Reino. Assim como o povo de Israel foi escolhido por Deus para celebrar a sua presença no meio das nações, assim a Igreja é o povo sacerdotal, escolhido por Deus para santificar o mundo. Ela é chamada a ser o “sacramento do Reino”, sinal e primeira realização do Reino no mundo. Com essas imagens, Pedro destaca a dignidade e responsabilidade dos que receberam o batismo na noite pascal. Graças ao Concílio Vaticano II, valorizamos agora melhor esse sacerdócio dos fiéis, que designa a santificação do mundo como vocação do povo de Deus como tal, isto é, de todos os que podem ser chamados de “leigos” (em grego, laós = povo; nesse sentido, também os membros da hierarquia são “leigos”!). Como o sacerdote santifica a oferenda, assim todos os que levam o nome cristão devem santificar o mundo pelo exercício responsável de sua vocação específica, na vida profissional, no empenho pela transformação da sociedade, na humanização, na cultura etc. Tal “sacerdócio dos fiéis” não entra em concorrência com o sacerdócio ministerial, pois este é o serviço (“ministério”) de santificação dentro da comunidade eclesial, aquele é a missão santificadora da Igreja no mundo, como tal. O sacerdócio dos fiéis significa que a Igreja, como comunidade, e todos os fiéis pessoalmente, em virtude de seu batismo, recebem a missão de santificar o mundo, continuando a obra de Cristo.
Evangelho (Jo 14,1-12)
No domingo passado, Cristo foi chamado a “porta das ovelhas”. No evangelho de hoje, vemos com maior clareza por que Cristo é o acesso ao Pai: Caminho, Verdade e Vida. O sentido desses três termos, que constituem uma unidade (o Caminho da Verdade e da Vida), é apresentado mediante pequena encenação. Jesus inicia sua despedida (Jo 13,31-17,26) dizendo que sua partida é necessária: ele vai preparar um lugar para seus discípulos. Quando Jesus sugere que eles conhecem o caminho, Tomé, o cético, responde que não o conhecem. Então, Jesus explica que ele mesmo é o caminho da Verdade e da Vida, o caminho pelo qual se chega ao Pai. Na Bíblia, caminho e caminhar significam muitas vezes o modo de proceder. O caminho ou caminhar reto é o que hoje chamaríamos de moral ou virtude. Portanto, se Jesus chama a si mesmo de caminho, não se trata de algo teórico, uma doutrina, mas de um modo de viver. É vivendo como Jesus viveu que conhecemos o seu caminho e encontramos a vida e a verdade às quais ele nos conduz (v. 6a). Se, pois, ele diz que ninguém vai ao Pai senão por ele (v. 6b), não está proclamando uma ortodoxia que exclui os que não confessam o mesmo credo, mas dá a entender que os que chegam ao conhecimento/experiência de Deus são os que praticam o que ele, em plenitude, praticou: o amor e a fidelidade até o fim. E isso pode acontecer até fora do credo cristão.
Depois da pergunta de Tomé, temos a pergunta de Filipe: “Mostra-nos o Pai, isso nos basta” (Jo 14,8). Ora, qualquer judeu piedoso, qualquer pessoa piedosa, quer conhecer Deus – que Jesus costuma chamar de Pai. Porém, diz João no prólogo de seu evangelho, ninguém jamais viu a Deus (Jo 1,18). Agora, Jesus explica a Filipe: “Quem me viu, viu o Pai”. Nesse momento, quando (segundo a contagem judaica) já se iniciou o dia de entregar a vida por amor até o fim, Jesus revela que, nele, contemplamos Deus. Nosso perguntar encontra nele resposta; nosso espírito, verdade; nossa angústia, a fonte da vida. Nesse sentido, ele mesmo é o caminho que nos conduz ao Pai e, ao mesmo tempo, a Verdade e a Vida que se tornam acessíveis para nós. “O Unigênito, que é Deus e que está no seio do Pai, no-lo fez conhecer” (Jo 1,18). Jesus não falou assim quando realizava seus “sinais”: o vinho de Caná, o pão para a multidão, nem mesmo a cura do cego ou a revivificação de Lázaro. Pois o sentido último para o qual a atuação de Jesus apontava não era fornecer vinho ou pão, ou substituir um médico ou curandeiro, mas manifestar o amor do Pai, o Deus-Amor.
Trata-se de ver a Deus em Jesus Cristo na hora de sua entrega por amor. Para saber como é Deus, o Absoluto da nossa vida, não precisamos contemplar outra coisa senão a existência de Jesus de Nazaré, “existência para os outros”, na qual Deus imprimiu seu selo de garantia, no coroamento que é a ressurreição. Muitas vezes, tentamos primeiro imaginar Deus para depois projetar em Jesus algo de divino (geralmente, algo de bem pouco humano…). Devemos fazer o contrário: olhar para Jesus de Nazaré, para sua vida, para sua palavra e sua morte, e depois dizer: assim é Deus – isso nos basta (cf. Jo 14,8-9). E isso é possível porque Jesus, trilhando até o fim o caminho que ele mesmo é, assumindo ser a “graça e a verdade” (Jo 1,14), o amor e a fidelidade de Deus até o fim, mostra Deus assim como ele é, pois “Deus é amor”, diz o mesmo João em sua primeira carta (1Jo 4,8.16). Podemos dizer, com Paulo, que Jesus é o rosto do Pai, a perfeita imagem dele (cf. Cl 1,15). Assim como Jesus procede, Deus é. Ele está no Pai e o Pai está nele (Jo 14,11), e quem a ele se une fará o que ele fez, e mais ainda, agora que ele se vai para junto do Pai (14,12) e deixa, por assim dizer, o campo aberto para a ação dos que creem nele, animados pelo Espírito-Paráclito (14,13-17, continuação do texto de hoje).
Dicas para reflexão
Para o cristão, o gesto de amor e fidelidade de Jesus até o fim é a suprema revelação de Deus. Não podemos, nesta existência terrena, conhecer a Deus em si. Ele é “o além de nossos horizontes”. Mas ele se manifesta a nós no justo e santo, aquele que faz sua vontade e lhe pertence por excelência, Jesus de Nazaré. Mais exatamente: quando este, “na carne” (cf. 1Jo 4,2), leva a termo o amor e a fidelidade (“a graça e a verdade”, Jo 1,14), os traços fundamentais de Deus já manifestados no seu agir em relação a Israel (veja, por exemplo, Ex 34,6). Jesus, Palavra de Deus “acontecendo em carne” (cf. Jo 1,14), não se limita a um só povo. Toda a carne humana é assumida nesse homem, que vive o amor e a fidelidade de Deus até o fim, de modo que o que se pode dizer de Deus é isto: “Deus é amor”. Amor que ama primeiro e é conhecido em Jesus, mas também quando amamos nossos irmãos (1Jo 4,10-12).
Aí entra o pensamento acerca da comunidade eclesial, que constitui o segundo grande tema deste domingo. Como Cristo encarnou o que Deus fundamentalmente significa para a humanidade – amor radical –, sua comunidade é chamada a manifestar essa mesma realidade de Deus ao mundo. Aí está sua santa vocação, seu sacerdócio, de que participam todos os que foram batizados em Cristo (e, assim, no Pai e no Espírito). Ser cristão não é simplesmente proclamar um credo ou pertencer a uma instituição, mas encarnar o Deus-Amor trilhando o “caminho” que é Jesus.

padre Johan Konings, sj

4º DOMINGO DA PÁSCOA
07 de Maio de 2017

Jesus, a porta de pastores e ovelhas
O quarto domingo pascal é conhecido, na pastoral, como o domingo do Bom Pastor. A oração do dia é inspirada por esse tema (a fraqueza/fragilidade do rebanho e a fortaleza do Pastor). Porém, desde a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, o conjunto literário do “Bom Pastor”, no Evangelho de João, foi repartido pelos três anos do ciclo, A, B e C. Neste ano A, a leitura do evangelho não apresenta, propriamente, a parábola do Bom Pastor (Jo 10,11-18, evangelho do ano B), e sim o trecho anterior, a parábola da porta e dos pastores (Jo 10,1-10). Essa parábola dá ensejo à exploração de outros temas que não os tradicionais, para que, segundo o desejo do Concílio, seja “ricamente servida” a Mesa da Palavra.
1ª leitura (At 2,14a.36-41)
A primeira leitura é a continuação da pregação missionária de Pedro que já ouvimos no domingo anterior. Apresenta-se o querigma cristão e a conversão, o que combina bem com o espírito da Páscoa como celebração do batismo. Pedro conscientiza os judeus de Jerusalém de que Jesus, rejeitado e morto por eles, foi por Deus constituído Senhor e Cristo (v. 36). Essa pregação provoca o arrependimento (metanoia) no coração dos ouvintes: convertem-se e aderem ao círculo dos discípulos (v. 37-41). O povo de Israel é agora obrigado a optar, e não só Israel, mas também os que o Senhor chamou “de longe”, os não israelitas (v. 39; cf. Is 57,19). Parte da população de Jerusalém se converte, então, àquilo que Pedro anunciou. Essa conversão pode reter, hoje, a nossa atenção. É o protótipo da adesão à Igreja em todos os tempos. Nós estamos acostumados a nascer já batizados, por assim dizer. Mas isso não quer dizer que nos tenhamos convertido para aderir a Cristo na sua Igreja. Pensemos naquela multidão que, pouco antes, desconhecia ou até desprezava o caminho e a atitude de Jesus de Nazaré e, ativa ou passivamente, havia concordado com sua crucifixão. Agora que Pedro, pela força do Espírito, lhes mostra que essa vida (de Jesus) foi certa e por Deus coroada, eles deixam acontecer no seu coração a verdadeira metanoia, a “revirada” do coração. Em virtude daquilo que lhes foi pregado a respeito do Cristo, mudam sua maneira de ver, sua escala de valores. Essa metanoia é o passar pela porta que é Cristo, como diz o evangelho, o recusar-se a ladrões e assaltantes, que se apresentam sem passar por ele. É aderir a nada que não seja conforme Cristo, marcado por sua vida e situado no seu caminho. Será que nós fizemos essa conversão?
2ª leitura (1Pd. 2,20b-25)
Pedro ensina a trilhar os passos de Jesus Cristo pastor os que vivem na condição de escravo ou servo (cf. 1Pd 2,18). Assemelhado ao Servo Padecente de Deus (cf. Is 52-53), Cristo deu, no seu sofrer, o exemplo da paciência. A imagem das ovelhas perdidas, no v. 25, corresponde à imagem do pastor, ao qual o rebanho se confia pelo batismo. Ele nos abre o caminho certo: não o da violência opressora, mas o da justiça que, para se provar verdadeira, não se recusa a sofrer.
Evangelho (Jo 10,1-10)
O evangelho de hoje é a parábola da porta do rebanho e dos pastores. No contexto anterior, a história do cego (Jo 9), os fariseus mostraram ser os verdadeiros cegos. Eles deveriam ser os pastores de Israel, mas não o são. Em continuidade direta com esse episódio – pois não há nenhuma nova indicação de cenário –, Jo 10 mostra quem não é e quem é o verdadeiro pastor. Os vv. 1-5 narram uma parábola: a cena campestre do redil comunitário, onde entram e saem os pastores e as ovelhas, mas onde também entram, por vias escusas, os assaltantes, para roubar e matar. As autoridades judaicas não entendem a parábola (v. 6), pois só entende quem crê em Cristo. Em seguida, nos vv. 7-18, a parábola é explicada em dois sentidos: Jesus é a porta (vv. 7-10), Jesus é o pastor (vv. 11-18). No trecho lido hoje, é apresentada a parábola introdutória e a primeira explicação: Jesus Cristo é a porta. Por ele, entram os pastores verdadeiros, por ele são conduzidas as ovelhas até os prados onde encontrarão vida. Antes dele vieram pessoas que entravam e saíam, não pela porta, mas por outro lugar: eram assaltantes, conduziam as ovelhas para a perdição, para tirar-lhes a vida. Pouco importa quem sejam esses assaltantes – Jesus parece pensar nos mestres judeus de seu tempo – não os devemos seguir. O que importa é a mensagem positiva: que passemos pela porta que é Jesus Cristo. Só o caminho que passa por ele é válido. Essa porta se situa, portanto, na comunidade dos fiéis a Cristo. Na comunidade que representa o Cristo, depois da ressurreição, encontramos o que nos serve para sempre; teremos o mesmo acesso ao Pai que os apóstolos encontraram na pessoa de Jesus (cf. Jo 14,6-9). Jesus com a sua comunidade é a porta que dá acesso ao Pai. Jesus dá acesso ao caminho da salvação tanto aos pastores, para entrarem, quanto aos rebanhos, para saírem rumo às pastagens. Onde há vida, é por Cristo que chegamos a ela (cf. Jo 14,6). O prefácio da Páscoa II (Cristo, nosso guia para a vida nova) e a oração final (proteção e “prados eternos” para o rebanho) dão continuidade a esse tema.
Salvação por meio de Jesus
O tempo pascal é um tempo de reflexão sobre a realidade de nosso batismo e de nossa fé. Ora, nosso batismo não é real sem metanoia, sem mudança de caminho, para conscientemente passar por Cristo. O batismo por conveniência não tem nada que ver com a conversão implicada no batismo verdadeiro.
Conversão como reconhecimento do que está errado e adesão a Cristo como escolha do caminho certo, eis o que nos propõe a liturgia de hoje. Mas, apesar de certa austeridade nessas considerações, temos também o testemunho da gratificação vital que essa conversão a Cristo nos traz. No contexto em que vivemos, podemos, porém, fazer uma pergunta: a salvação vem só por Cristo?
A parábola e sua primeira explicação (Jesus, a Porta) nos ensinam que pastor, mesmo, é só quem passa através de Jesus e faz o rebanho passar por ele. O sentido fundamental da pastoral é ir às pessoas por Cristo e conduzi-las através dele ao verdadeiro bem. As maneiras podem ser muitas: antigamente, talvez, usavam-se modos mais paternalistas; hoje, modos mais participativos. Mas pode-se chamar de pastoral uma mera ação social ou política? Por mais importante que seja, ainda não é, de per si, ação pastoral cristã. Para ser pastoral cristã, a atuação precisa ser orientada pelo projeto de Cristo, que ele nos revelou, dando sua vida por nós.
Nessa ótica, os pastores devem ir aos fiéis (não aguardá-los de braços cruzados), através de Cristo (não através de mera cultura ou ideologia), para conduzi-los a Deus (não apenas à instituição que é a Igreja), fazendo-os passar por Cristo, ou seja, exigindo adesão à prática de Cristo. Os fiéis devem discernir se seus pastores não são “ladrões e assaltantes”, e o critério para discernir é este: se chegam através de Cristo e fazem passar os fiéis por ele.
A julgar pelas palavras do Novo Testamento, parece que toda a salvação passa por Cristo. Mas isso deve ser entendido num sentido inclusivo, não exclusivo. Todo caminho que verdadeiramente conduz a Deus, em qualquer religião e na vida de “todos aqueles que procuram de coração sincero” (Oração Eucarística IV), passa, de fato, pela porta que é Jesus. Escrevendo, provavelmente, a pessoas que já aderiram à fé em Jesus, o Evangelho de João ensina: não precisam procurar a salvação fora desse caminho. Isso vale ser repetido para os cristãos de hoje. Por outro lado, não é preciso que todos confessem o Cristo explicitamente para encontrar a salvação. Basta que, nas opções da vida, optem pela prática que foi, de fato, a de Cristo. Agir como Cristo é a salvação. E é a isso que a pastoral deve conduzir.

padre Johan Konings, sj


3º DOMINGO DA PÁSCOA
30 de Abril de 2017

A liturgia do segundo domingo pascal apresentou a comunidade apostólica e sua fé em Jesus Cristo ressuscitado. Agora, o terceiro domingo apresenta a mensagem que essa comunidade anunciou ao mundo, a pregação dos apóstolos nos primórdios da Igreja: o “querigma”. A perspectiva do anúncio universal é criada pela antífona da entrada, com o Salmo 66[65],1-2: “Aclamai a Deus, toda a terra”, enquanto a oração do dia evoca a renovação espiritual dos que creem e recebem a condição de filhos de Deus.
1ª leitura (At. 2,14a.22-33)
A primeira leitura apresenta o “querigma” apostólico, o anúncio – no discurso de Pedro em Pentecostes – da ressurreição de Jesus e de sua vitória sobre a morte. É o protótipo da pregação apostólica. Suprimida a introdução do discurso, por ser a leitura de Pentecostes (At. 2,15-21), a leitura de hoje se inicia com o v. 22, anunciando que o profeta rejeitado ressuscitou, cumprindo as Escrituras (Sl. 16[15],8-10). Não se trata de ver aí uma realização “ao pé da letra”, mas de reconhecer nas Escrituras antigas a maneira de agir de Deus desde sempre, a qual se realiza num sentido “pleno” em Jesus Cristo. Ou melhor: naquilo que se vê em Jesus, aparece o sentido profundo e escondido das antigas Escrituras. O importante nesse querigma é o anúncio da ressurreição como sinal de que Deus “homologou” a obra de Jesus e lhe deu razão contra tudo e todos. Isso é atestado não só por testemunhas humanas, mas também pelo testemunho de Deus mesmo, na Escritura. O Salmo 16[15], por exemplo, originalmente a prece de quem sabe que Deus não o entregará à morte, encontra em Cristo sua realização plena e inesperada. Esse salmo é também o salmo responsorial de hoje e terá de ser devidamente valorizado.
2 leitura (1Pd. 1,17-21)
Na segunda leitura, continua a leitura da 1Pd iniciada no domingo passado. Jesus Cristo é visto como aquele que nos conduz a Deus. Sua morte nos remiu de um obsoleto modo de viver. Por meio de Cristo, ou seja, quando reconhecemos e assumimos a validade do seu modo de viver e de morrer, chegamos a crer verdadeiramente em Deus e o conhecemos como aquele que ressuscita Jesus, aquele que dá razão a Jesus e “endossa” a sua obra. Isso modifica nossa vida. Desde o nosso batismo, chamamos a Deus de Pai; mas ele é também o Santo que nos chama à santidade (1Pd. 1,16; cf. Lv. 19,2). O sacrifício de Cristo, Cordeiro pascal, obriga-nos à santidade. Os últimos versículos desta leitura (v. 19-21) constituem uma profissão de fé no Cristo, que desde sempre está com Deus: ele nos fez ver como Deus verdadeiramente é, e por isso podemos acreditar que Deus nos ama.
Evangelho (Lc. 24,13-35)
O evangelho é preparado pela aclamação, que evoca o ardor dos discípulos ao escutar a Palavra de Deus (cf. Lc. 24,32). Trata-se da narrativa dos discípulos de Emaús (lida também na missa da tarde no domingo da Páscoa). A homilia pode sublinhar diversos aspectos.
1) “Não era necessário que o Cristo padecesse tudo isso para entrar na glória?” (Lc. 24,26). Cabe parar um momento junto ao termo “o Cristo”. Não é apenas de Jesus como pessoa que se trata, mas de Jesus enquanto Cristo, Messias, libertador e salvador enviado e autorizado por Deus. Não se trata apenas de reconhecer a vontade divina a respeito de um homem piedoso, mas do modo de proceder de Deus no envio de seu representante, o “Filho do homem” revestido de sua autoridade (cf. Dn. 7,13-14), que deve levar a termo o caminho do sofrimento e da doação da vida (cf. Lc. 9,22.31).
2) Jesus “lhes explicou, em todas as Escrituras, o que estava escrito a seu respeito” (Lc. 24,27). Em continuidade com a primeira leitura, podemos explicitar o tema do cumprimento das Escrituras. As Escrituras fazem compreender o teor divino do agir de Jesus. Enquanto os discípulos de Emaús estavam decepcionados a respeito de Jesus, fica claro agora que, apesar da aparência contrária, Jesus agiu certo e realizou o projeto de Deus. As Escrituras testemunham isso. Jesus assumiu e levou a termo a maneira de ver e de sentir de Deus que, embora de modo escondido, está representada nas antigas Escrituras. Ele assumiu a linha fundamental da experiência religiosa de Israel e a levou à perfeição, por assim dizer. Mas só foi possível entender isso depois de ele ter concluído a sua missão. Só à luz da Páscoa foi possível que as Escrituras se abrissem para os discípulos (cf. também Jo 20,9; 12,16).
3) Reconheceram-no ao partir o pão (cf. Lc. 24,31 e 35). A experiência de Emaús nos faz reconhecer Cristo na celebração do pão repartido. Na “última ceia”, o repartir o pão fora reinterpretado, “ressignificado”, pelo próprio Jesus como dom de sua vida pelos seus e pela multidão (Lc. 22,19); e à comunhão do cálice que acompanhava esse gesto, Jesus lhe dera o sentido de celebração da nova e eterna aliança (Lc. 22,20). Assim puderam reconhecê-lo ao partir do pão. Mas o gesto de Jesus na casa dos discípulos significava também a rememoração do gesto fundador que fora a Última Ceia, a primeira ceia da nova aliança. Desde então, esse gesto se renova constantemente e recebe de cada momento histórico significações novas e atuais. Que significa “partir o pão” hoje? Não é apenas o gesto eucarístico; é também o repartir o pão no dia a dia, o pão do fruto do trabalho, da cultura, da educação, da saúde… Os discípulos de Emaús, decerto, não pensavam num mero rito “religioso”, mas em solidariedade humana. Ao convidarem Jesus, não pensaram numa celebração ritual, mas num gesto de solidariedade humana: que o “peregrino” pudesse restaurar as forças e descansar, sem ter de enfrentar o perigo de uma caminhada noturna. O repartir o pão de Jesus é situado na comunhão fraterna da vida cotidiana. Esse é o “aporte” humano que Jesus ressignifica, chamando à memória o dom de sua vida.
Entender as Escrituras e partir o pão
A liturgia de hoje nos conscientiza de que Jesus, apesar – e por meio – de seu sofrimento e morte, é aquele que realiza plenamente o que a experiência de Deus no Antigo Testamento já deixou entrever, aquilo que se reconhece nas antigas Escrituras quando se olha para trás à luz do que aconteceu a Jesus. Ao tomarmos consciência disso, brota-nos, como nos discípulos de Emaús, um sentimento de íntima gratidão e alegria (“Não ardia o nosso coração…?” [Lc. 24,32]) que invade a celebração toda, especialmente quando, ao partir o pão, a comunidade experimenta o Senhor ressuscitado presente no seu meio.
A saudade é a benfazeja presença do ausente. Quando alguém da família ou uma pessoa querida está longe, a gente procura se lembrar dessa pessoa. É o que aconteceu com os discípulos de Emaús. Jesus fora embora… mas, sem que o reconhecessem, estava caminhando com eles. Explicava-lhes as Escrituras. Mostrava-lhes o veio escondido do Antigo Testamento que, à luz daquilo que Jesus fez, nos faz compreender ser ele o Messias: os textos que falam do Servo Sofredor, o qual salva o povo por seu sofrimento (Is. 52-53); ou do Messias humilde e rejeitado (Zc 9-12); ou do povo dos pobres de Javé (Sf. 2-3) etc. Jesus ressuscitado mostrou aos discípulos de Emaús esse veio, textos que eles já tinham ouvido, mas nunca relacionado com aquilo que Jesus andou fazendo… e sofrendo.
Isso é uma lição para nós. Devemos ler a Sagrada Escritura por intermédio da visão de Jesus morto e ressuscitado, dentro da comunidade daqueles que nele creem. É o que fazem os apóstolos na sua primeira pregação, quando anunciam ao povo reunido em Jerusalém a ressurreição de Cristo, explicando os textos que, no Antigo Testamento, falam dele, como mostra a primeira leitura de hoje. Para a compreensão cristã da Bíblia, é preciso ler a Bíblia na Igreja, reunidos em torno de Cristo ressuscitado.
O que aconteceu em Emaús, quando Jesus abriu as Escrituras aos discípulos, é parecido com a primeira parte de nossa celebração dominical, a liturgia da Palavra. E muito mais parecido ainda com a segunda parte, o rito eucarístico: Jesus abençoa e parte o pão, e nisso os discípulos o reconhecem presente. Desde então, a Igreja repete esse gesto da fração do pão e acredita que, neste, Cristo mesmo se torna presente.
Emaús nos ensina as duas maneiras fundamentais de ter Cristo presente em sua ausência: ler as Escrituras à luz de sua memória e celebrar a fração do pão, o gesto pelo qual ele realiza sua presença real, na comunhão de sua vida, morte e ressurreição. É a presença do Cristo pascal, glorioso – já não ligado ao tempo e ao espaço, mas acessível a todos os que o buscam na fé e se reúnem em seu nome.

padre Johan Konings, sj


2º DOMINGO DA PÁSCOA
23 de Abril de 2017

Nos domingos depois da Páscoa, a liturgia nos põe em contato com a primeira comunidade cristã. As primeiras leituras são uma sequência de leituras tomadas dos Atos dos Apóstolos. Nas leituras do evangelho, é-nos apresentada a “suma teológica” do século I, o Evangelho de João. As segundas leituras são tomadas de outros escritos muito significativos quanto aos temas batismais e da fé; no ano A, a primeira carta de Pedro.
O segundo domingo pascal, especificamente, é marcado pelo tema da fé batismal. É o antigo domingo in albis (“em vestes brancas”). Nesse domingo, os neófitos (os novos fiéis, literalmente “brotos novos”), batizados na noite pascal, apresentavam-se vestidos com a veste branca que receberam na noite de seu batismo: são “como crianças recém-nascidas” (como se dizia no canto da entrada). A oração do dia pede que progridamos na compreensão dos mistérios básicos da nossa fé, os “sacramentos da iniciação cristã” – batismo, eucaristia e confirmação –, e a oração final reza por mais profundo entendimento do mistério da ressurreição e do batismo. Quanto às leituras, embora não exista estrita coerência temática entre as três, todas elas nos fazem participar do espírito do mistério pascal.
1ª leitura (At. 2,42-47)
A primeira leitura nos apresenta o ideal da comunidade cristã: a comunidade primitiva dos cristãos de Jerusalém. A descrição de At. 2,42-47 acentua especialmente a comunhão dos bens, que corresponde ao sentido do partir o pão – comemoração do Senhor Jesus. Outros textos semelhantes sobre a vida da comunidade encontram-se em At. 3,32-37 e 5,12-16. Tanto essa comunhão perfeita como os prodígios operados pelos apóstolos serviam de testemunho para os demais habitantes de Jerusalém, testemunho que não deixava de ter sua eficácia. Essa leitura é, portanto, mais do que um documento histórico sobre os primeiros tempos depois da Páscoa: é convite para restabelecermos a pureza cristã das origens.
2ª leitura (1Pd. 1,3-9)
A segunda leitura é tomada da primeira carta de Pedro, que é uma espécie de homilia batismal. Na perspectiva de seu autor, a volta gloriosa do Senhor estava próxima; os cristãos deviam passar por um tempo de prova, como ouro na fornalha, para depois brilhar com Cristo na sua glória. Nessa perspectiva, a fé batismal se concebe como antecipação da plena revelação escatológica: é amar aquele que ainda não vimos e nele crer, o coração já repleto de alegria diante da salvação que se aproxima (e já alcançada na medida em que a fé nos põe em verdadeira união com Cristo).
Evangelho (Jo. 20,19-31)
O evangelho constitui o fim do Evangelho de João: Jo 20,19-31 (o capítulo 21 de João é um epílogo que excede a estrutura literária do evangelho propriamente). O Evangelho de João é composto de dois painéis, introduzidos pelo prólogo (1,1-18). O primeiro painel, 1,19-12,50, narra os “sinais” de Jesus. Esses sinais manifestam que Jesus é o enviado de Deus e que Deus está com ele e, ao mesmo tempo, revelam simbolicamente o dom que Jesus mesmo é. No segundo painel, os capítulos 13-20, Jesus, na hora de sua despedida, abre o seu mistério de união com o Pai e inclui nele os seus discípulos, antes de assumir, livremente, a morte por amor e ser ressuscitado por Deus. Sua ressurreição é o sinal de que ele vive e sobe à glória do Pai (20,17). No trecho que ouvimos hoje, manifesta-se o dom do Espírito de Deus a partir da glorificação/exaltação de Jesus (cf. 7,37-39). Na sua despedida, Jesus prometeu aos seus o Espírito e a paz (14,15-17.26-27). Agora, o Ressuscitado, enaltecido e revestido com a glória do Pai, traz esses dons aos seus (20,21-22), que serão seus enviados como ele o foi do Pai (20,21). Para essa missão, recebem o poder de perdoar, poder que, segundo a Bíblia, é exclusivo de Deus e, portanto, só pode ser comunicado por quem comunga de sua autoridade. De fato, já no início do Evangelho de Marcos, Jesus se caracteriza como o “Filho do homem” (cf. Dn. 7,13-14), que recebe de Deus esse poder (Mc. 2,10). Segundo Jo 20,19-23, o Ressuscitado dá à comunidade dos fiéis o Espírito de Deus e a missão de tirar o pecado do mundo – também a missão que João Batista reconheceu em Jesus no início do evangelho (Jo 1,29). À maneira semítica e bíblica, a missão de perdoar é expressa na forma afirmativa (“a quem perdoardes os pecados, serão perdoados”) e negativa (“a quem os retiverdes [= não perdoardes], serão retidos” Jo 20,23). Mas isso não significa que os seguidores e sucessores de Jesus poderão administrar o perdão arbitrariamente. Muito antes, trata-se do poder de administrar o perdão concedido por Deus: munida do Espírito de Deus, a comunidade reconhecerá quem recebe dele o perdão e quem não. E não deixa de ser significativo que Jesus exprima essa presença do Espírito exatamente pelo perdão e não pelo dom das línguas ou algo assim. Pois o que o ser humano procura, em profundidade, é exatamente esse “estar bem com Deus e com os irmãos”, que o pecado impede, mas o perdão possibilita. Todo o culto judaico girava em torno da reconciliação com Deus e com a comunidade. A carta aos Hebreus explica que Jesus, enquanto sumo sacerdote definitivo, realiza essa reconciliação de uma vez para sempre. O que Jesus confia aos seus em Jo 20,22-23 é mais que mera “jurisdição”. É o dom da vida nova, na “paz”, no shalom, o dom do Messias por excelência. Unidos na comunhão da verdadeira videira que é Jesus (Jo 15,1-8), temos a vida em abundância (Jo 10,10).
A segunda parte do evangelho de hoje conta a história de Tomé. O texto põe em evidência Tomé entre os que viram o Ressuscitado (cf. At. 10,41; 1Jo 1,1-3), mas visa às gerações seguintes, que, sem terem visto, deverão crer – com base no testemunho das testemunhas privilegiadas. “Felizes os que não viram e, contudo, creram” (Jo 20,28) é bem-aventurança que se dirige a nós (cf. 1Pd. 1,8, primeira leitura de hoje). E é para esse fim que os que viram nos transmitiram, por escrito, o testemunho evangélico, como diz o autor nas palavras finais (Jo 20,30-31).
Daí podermos dizer: “Cremos na fé dos que testemunharam”, a fé dos apóstolos, a fé apostólica. A Tomé é dado experimentar a realidade do Crucificado que ressuscitou, e o apóstolo proclama a sua fé, tornando-se verdadeiro fiel. Mas há outros a quem não será dado esse tipo de provas que Tomé requereu e recebeu; eles terão de acreditar também e são chamados felizes por crerem sem ter visto. Esses “outros” somos todos nós, cristãos das gerações pós-apostólicas. Mas, em vez de provas palpáveis, a nós é transmitido o testemunho escrito das testemunhas oculares, para que nós creiamos e, crendo, tenhamos a vida em seu nome (20,30-31). A fé dos apóstolos é nossa.
Nossa fé “apostólica”
Todo o mundo gosta de ter provas palpáveis para acreditar. Mas para que ainda acreditar quando se têm provas palpáveis? E as pretensas provas, que certeza dão? Nossa fé não vem de provas imediatas, mas da fé das “testemunhas designadas por Deus” (At. 10,41), principalmente dos apóstolos.
Os apóstolos foram as testemunhas da ressurreição de Jesus. Eles puderam ver o Ressuscitado e por isso acreditaram. Tomé foi convidado por Jesus a tocar nas chagas das mãos e do lado (evangelho). Tomé pôde verificar e acreditou: “Meu Senhor e meu Deus!” Nós não temos esse privilégio. Seremos felizes se crermos sem ter visto (Jo 20,29). Mas, para que isso fosse possível, os apóstolos nos deixaram os evangelhos, testemunho escrito do que eles viram e da fé no Cristo e Filho de Deus que abraçaram (Jo 20,30-31).
O Cristo descrito nos evangelhos é visto com os olhos da fé dos apóstolos. Um incrédulo o veria bem diferente. Nós cremos em Jesus como os apóstolos o viram. A participação na fé dos apóstolos nos dá a possibilidade de “amar Cristo sem tê-lo visto” e de “acreditar nele (como Senhor e fonte de nossa glória futura), embora ainda não o vejamos” (2ª leitura).
Nós acreditamos na fé dos apóstolos e da Igreja que eles nos deixaram. Então, nossa fé não é coisa privada. É apostólica e eclesial. Damos crédito à Igreja dos apóstolos. Os primeiros cristãos faziam isso materialmente: entregavam os seus bens para que ela os transformasse em instrumentos do amor do Cristo. Crer não é somente aceitar verdades. É agir segundo a verdade do ser discípulo e seguidor do Cristo.
É inútil querer verificar e provar nossa fé sem passar pelos apóstolos e pela corrente de transmissão que eles instituíram, a Igreja. É impossível verificar, por evidências fora do âmbito dos evangelhos, a ressurreição de Cristo. Ora, o importante não é “verificar”, ao modo de Tomé, mas viver o sentido da fé que os apóstolos (incluindo Tomé) transmitiram. A fé dos apóstolos exige que creiamos em seu testemunho sobre Jesus morto e ressuscitado e também que pratiquemos a vida de comunhão fraterna na comunidade eclesial que brotou de sua pregação.
Num tempo de hiperindividualismo, como é o nosso, essa consciência de acreditarmos naquilo que os apóstolos acreditaram é muito importante. Deles recebemos a fé, nossa “veste branca”, e, na comunidade que eles fundaram, nós a vivemos. Ora, por isso mesmo é tão importante que essa comunidade, por todo o seu modo de viver o legado do Ressuscitado, seja digna de fé.

padre Johan Konings, sj

DOMINGO DE PÁSCOA



16 de Abril de 2017


Hoje é o domingo da Páscoa de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, e queremos proclamar em todo o mundo, em todos os cantos, proclamar em nossas casas e famílias, sobretudo, em nosso coração: Jesus está vivo e ressuscitado. A morte não tem nem teve a palavra final, a vitória é da vida. A vitória é de Jesus Cristo, vivo e ressuscitado, que está entre nós.
Proclamar a ressurreição de Cristo, proclamar que cremos que Ele está vivo e ressuscitado é anunciar aquilo que cremos e acreditamos, a razão primeira e última da nossa fé: somos seguidores do Cristo crucificado. Porém, Ele não ficou pregado na cruz; Ele foi colocado no túmulo, saiu vivo e está ressuscitado para a glória de Deus.
O túmulo está vazio, e passaram-se mais de dois mil anos deste mais importante fato histórico de toda a humanidade. O elemento principal não foi Cristo ter nascido, pois, Ele nasceu, viveu, morreu, mas ressuscitou. É este Cristo ressuscitado que levamos a todos os cantos da terra, é esta verdade que deve estar dentro do nosso peito, essa esperança e confiança n’Ele que precisa mover a nossa fé.
Veja, os apóstolos ainda não tinham compreendido as Escrituras, segundo a qual Jesus deveria ressuscitar. Muitas vezes, também não compreendemos, não temos a ciência, a fé necessária e importante para acreditar no Cristo vivo e ressuscitado.
Às vezes, comportamo-nos como se Jesus continuasse morto, como se a verdade da ressurreição não fosse plena no meio de nós. E quando nos entregamos ao desânimo, ao cansaço, quando deixamos a nossa vida perder o rumo, a fé, a esperança, quando não sabemos em quem colocar a nossa confiança. Quando digo que a minha vida não tem mais jeito, quando encontro um caminho que não tem mais solução, é sinal de que não coloquei n’Ele, a minha confiança, a minha esperança, a minha fé.
Hoje, não é só o dia de proclamarmos que Cristo está vivo e ressuscitado. Precisamos assumir, com a nossa vida, as consequências da Sua ressurreição para cada um de nós.
É preciso voltar-se para Cristo, olhar para Ele, prostrar-se na Sua presença e dizer: “Senhor, eu creio que está vivo, que está no meio de nós. Eu creio que o Senhor me trouxe vida nova e plena. Eu creio na Sua ressurreição gloriosa e bendita entre nós. Por isso, quero ser um homem novo, vivo e ressuscitado!
Proclamemos com a nossa vida que Jesus está vivo e ressuscitado no meio de nós.

Uma feliz e santa Páscoa para todos!

Padre Roger Araujo

SÁBADO SANTO - VIGÍLIA PASCAL
15 de Abril de 2017


Neste dia, em que nos preparamos para celebrar de forma tão solene a Vigília Pascal, a Ressurreição gloriosa de Cristo, precisamos ir até nossa alma, nosso coração e às decisões que fazemos em nossa vida, para que os acontecimentos pascais aconteçam dentro do nosso coração e da nossa vida.
A Páscoa é a decisão de passar do homem velho para o novo, do homem que não conhecia Cristo ou O conhecia de forma superficial, para o homem que O conhece de forma profunda e apaixonante. Páscoa é transformação, libertação, restauração e vida nova! Páscoa não é apenas memória, recordação de um acontecimento passado, mas memória viva e atual, é a celebração, com Cristo, da vida nova que Ele nos trouxe.
É preciso deixar que as sementes da Ressurreição de Jesus brotem em nossa alma e coração, e que nossas obras e nossa vida testemunhem para o mundo que Cristo está vivo e no meio de nós!
Celebremos a Páscoa de Cristo com o coração renovado e com sentimentos novos! Nada de levar para frente as velhas mágoas, os rancores e ressentimentos antigos, nada de levar para frente aquilo que torna nossa vida viciante, velha e sem gosto; nada de cultivar sentimentos negativos, nada de permanecer na mesma tristeza e no inconformismo. Nada de perder a esperança e nos entregarmos ao desânimo, vencidos pelo cansaço, pela dor ou sofrimento.
A vida pode até continuar do mesmo jeito, porém, a cada dia, temos um leão a vencer, uma dificuldade a enfrentar, mas o gosto será outro e a visão diferente, quando soubermos transfigurar todas as coisas no olhar do Cristo ressuscitado.
Que a Páscoa não seja uma simples celebração daquilo que se realizou na vida de Cristo, mas que seja a celebração daquilo que Deus realiza em nossa vida. Ele nos tira da sepultura, da vida velha, e nos convida a cantar “Aleluia” e “Glória no mais alto dos Céus”, com a nossa vida e com nosso testemunho!

Deus abençoe você!
Padre Roger Araujo

SEXTA-FEIRA SANTA - CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR E ADORAÇÃO DA SANTA CRUZ

14 de Abril de 2017


Nesta Sexta-feira da Paixão de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, queremos olhar para a face desfigurada de Cristo. Sei que preferimos olhar para o Cristo belo, de olhos azuis, brilhante e assim por diante. Mas o Cristo que anunciamos e pregamos é o Cristo Jesus Crucificado!
O Cristo que, hoje, contemplamos pregado numa cruz não tem uma bela aparência; pelo contrário, a sua aparência é desprezível e repugnante de olharmos com os nossos olhos. Tão desprezível, desfigurado e amargurado encontra-se o corpo do Senhor. Ele foi castigado e desprezado pelos homens; Ele foi pisoteado e cuspido, foi de todas as formas dilacerado pela maldade humana. De modo que, aquele que está pregado na cruz, nem aparência humana tem.
O Cristo que está atrás de mim é belo, o Cristo que temos em nossa casa também. O crucifixo que carregamos é apenas a aparência melhorada pela arte, daquilo que de verdade é o Cristo que foi pregado na cruz. Aquilo que Isaías nos descreve mostra-nos em que condição Jesus encontrava-se.
Meus irmãos, não desviemos nosso olhar do Cristo Crucificado. Ele nos leva para a nossa própria humanidade para reconhecermos a nossa própria pobreza humana, reconhecermos que o ser humano nem sempre é bonito.
Reconheçamos no Cristo Crucificado a nossa humanidade pobre, esfacelada, pisoteada. Reconheçamos n’Ele o rosto de tantos desfigurados da humanidade; o rosto de tantos que passam fome, que são oprimidos pela violência, pela maldade humana. Reconheçamos o rosto de nossos doentes, daqueles que estão sofrendo, padecendo em nossos hospitais. Eles são para nós a expressão do Cristo vivo e crucificado!
Quando alguém é tomado por um doença grave, o câncer, por exemplo, a pessoa fica desfigurada. Muitas vezes, nem queremos olhar para essas pessoas porque o nosso coração não têm condições, ficamos assim tão movidos. Desculpe-me, mas mais cedo ou mais tarde, quando a “irmã morte” nos visitar o nosso corpo vai se desfigurar. Por mais que coloquemos aparências boas ou usemos uma maquiagem, quando tiramos a maquiagem somos o pó da terra.
Não tenhamos medo de encarar a realidade humana que somos. Cada realidade humana desfigurada, remete-nos ao Cristo crucificado e desprezado, que veio para resgatar, libertar e levar a plenitude àqueles que nele creem, têm vida e esperança.

Deus abençoe você!
Padre Roger Araujo

QUINTA-FEIRA SANTA - INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA E LAVA-PÉS
13 de Abril de 2017



O Tríduo Pascal é inaugurado com a celebração desta noite. Celebramos nesta noite um “adeus”: a despedida de alguém que vai voltar para o Pai, mas que concomitantemente, deixa uma profunda nostalgia, sobretudo por causa do modo como essa despedida será levada a efeito, na noite seguinte.  Assim, esta celebração está envolvida de um mistério de alegria, de júbilo, de encantamento, principalmente quando cantamos o Glória, o Hino de Louvor, ao som dos sinos manifestando a grandeza da misericórdia de Deus. Mas é uma alegria em tom menor, misturada com lágrimas e lamentos, uma alegria reticente, uma alegria inibida. É a única celebração litúrgica do ano em que se entoa o glória e não se canta o Aleluia! Isso porque esta liturgia reflete bem o espírito dos fiéis diante dos últimos acontecimentos de Jesus. Eles sabem o que os Apóstolos naquele noite não sabiam: que Jesus está trilhando o horizonte, o seu caminho até a glória. Ao mesmo tempo, porém, sentem profundamente a dor desta noite de traição e de aflição.
Estamos diante do Testamento que Jesus nos legou: a Eucaristia, o Sacerdócio e o Amor Fraterno. Celebramos a última Ceia do Senhor, porque nessa noite Jesus foi traído por Judas Iscariotes. Nesta noite Jesus foi preso no Jardim das Oliveiras. Nesta noite Jesus foi levado, amarrado, à casa de Caifaz, e acusado de se fazer Filho de Deus. Aquele que assumira a condição humana por amor, sofre o ódio e a perseguição. Aquele que passou pelo mundo fazendo o bem; é preso e é açoitado como criminoso. Essa é à noite da traição. Essa é à noite do beijo de Judas. Noite do não da parte da criatura humana à verdade de Deus.
Mas não viemos aqui para celebrar a maldade. Viemos aqui para celebrar o amor e a fidelidade. Vamos atualizar o mistério da instituição da Eucaristia, como dom de Deus para cada um de nós. Queremos celebrar, viver o amor e a fidelidade de Deus, encarnados na pessoa santíssima de Jesus de Nazaré, manifestados em três grandes gestos que podem ser o seu testamento: a instituição da Eucaristia, a instituição do Sacerdócio Ministerial e o anúncio do seu Evangelho que consiste no amor fraterno. Tudo isso foi legado na sala do Cenáculo, uma casa particular, para ser anunciado e vivificado por todos os seus Seguidores. Instituídos no interior de uma residência estes tesouros são levados para o mundo, como sinais da nova aliança de Deus com a humanidade. Nova aliança que gera e transforma esta noite, de noite da traição em noite do amor e da fraternidade, em noite da misericórdia e da acolhida, em noite da santidade e da graça.
Vamos refletir um pouco sobre o mistério que celebramos com fé: a Santa Eucaristia. Com a instituição da Eucaristia Jesus permanece em nosso meio, em forma de alimento, de comida, na fração do pão que se transforma no corpo e na espécie do vinho que se transforma no sangue do Redentor. Jesus está em nosso meio como família, como alimento pascal, como alimento eterno. O próprio Cristo instituiu a Eucaristia ao afirmar: “Tomai todos e comei. Isto é meu Corpo; Tomei e bebei, Isto é o meu Sangue!” Jesus é o próprio Pão Vivo que desceu do céu para nos salvar. Quem comer deste pão viverá eternamente. Promessa feita por Jesus que foi realizada na última Ceia e que nós atualizamos diariamente nas Igrejas do mundo inteiro, fazendo memória do mesmo sacrifico do Cristo. Na forma visível, palpável do pão, mas numa presença misteriosa, real e verdadeira, que encanta nossa existência nos tornando filhos do Senhor presente em nosso meio.
Eucaristia mistério que nossa inteligência não pode explicar, mas que devemos com candura de coração e de alma acreditar. Este inaudito mistério, o mistério inefável, isto é, que não pode ser expresso por palavras, mas vivido e acreditado, porque a Eucaristia é “o fundamento, o centro e o ponto mais alto da vida cristã”.
A segunda reflexão desta noite é sobre o Sacerdócio. O Sacerdócio foi instituído para que a Eucaristia fosse celebrada como dimensão maior da expressão do amor divino pela humanidade. Ao celebramos a Santa Missa, celebramos o amor, o Sacramento da Vizinhança de Deus, o Sacramento da presença de Deus, o Sacramento da Comunhão. Assim Jesus instituiu os Sacerdotes, o seu segundo gesto grandioso como divindade, misterioso como a Eucaristia, mas cem por cento humano: instituiu o sacerdócio, fez o padre e o ligou para sempre à origem e à finalidade da Eucaristia. A partir da última Ceia, é o sacerdote – e exclusivamente o sacerdote de Cristo – que faz a Eucaristia, que a celebra. Ela é a principal e central razão do ser do sacerdócio. Sacerdote, dom divino que o Cristo, sumo e eterno sacerdote do Pai, quis repartir com o homem; e significa também aquele que faz as coisas sagradas, o dispensador dos mistérios divinos e o santificador do povo de Deus.
Sobre a vida sacerdotal, na missa do Crisma dom Eurico dos Santos Veloso, assim vaticinou: “queridos padres, meus irmãos, vamos fazer a nossa reflexão sobre o único aspecto de são José: Pai de Jesus Cristo, é a sua paternidade que tem certa analogia com a nossa fraternidade, Padre = pai.
Por isso podemos cantar: Vinde alegres cantemos, a Deus demos louvor.
A um Pai exaltemos sempre com mais fervor. São José a vós nosso amor,
sede nosso bom protetor. Aumentai em nós o fervor.
Será que a nossa paternidade sacerdotal tem afinidades com a de São José?
Será que a nossa vida sacerdotal comporta a fidelidade às virtudes das quais José nos deu o exemplo? Vejamos...
A paternidade de José e a nossa.
Pedindo-nos a renúncia de ser pais segundo a carne, o Senhor nos ofereceu uma outra paternidade, de origem infinitamente superior: uma paternidade que eu diria virginal, sim virginal, em relação a Ele, em seu Ser Eucarístico, e uma, não menos virginal, para com as Pessoas nas quais misticamente, Ele quer nascer e crescer. (eucaristia - batismo).
Ainda ressoa em nossos ouvidos as palavras daquele que nos fez presbíteros: “Recebe o poder de oferecer o Sacrifício a Deus.” (accipe potestatem oferre sacrificium Deo”)... e nas admoestações: “Ainda que todo o povo de Deus seja em Cristo um sacerdócio régio, Jesus Cristo escolheu alguns discípulos, escolheu você, a mim, para exercermos, em Seu nome e publicamente na Igreja, o ofício sacerdotal, em favor da humanidade.”
A nos cabe continuar a sua função de Mestre, Sacerdote e Pastor e assim fomos constituídos para servir ao Cristo Mestre, para servir ao Cristo Sacerdote e para servir ao Cristo Pastor, edificando e fazendo crescer o Seu Corpo que é a Igreja, Novo Povo de Deus, Templo do Espírito Santo. Meus caros padres, fomos constituídos para celebrar o Culto Divino, principalmente no Sacrifício do Senhor, que pelas nossas mãos é oferecido sobre o altar.
E isto, meu caro padre, cada vez que celebramos a Santa Missa, fazemos eucaristicamente nascer Jesus para o mundo. E não é também sem um gemido interior, onde a ação de graças se mistura às dores do parto, que fazemos nossas, as palavras de Paulo, resumindo admiravelmente a nossa missão referente às pessoas: “Meus filhinhos, que de novo estou dando a luz na dor, até que Cristo seja formado em vós.” (Gal. 4,19)”
O amor deve ser sempre o sinônimo da acolhida que, por conseguinte gera a paz. Amor, perdão que gera comum união com o Cristo, que é a terceira lição que Jesus nos dá na noite de hoje. Jesus levanta-se da mesa, coloca um pano sobre a sua cintura, pega um pouco de água, se ajoelha e começa a lavar os pés dos apóstolos, dos seus discípulos, um por um. Lavar os pés para o povo hebreu era o maior gesto de humildade e até de humilhação. Mas Jesus quis ensinar os seus sacerdotes que este deveria ser o gesto de todos os seus seguidores: estar a serviço do outro, especialmente daqueles que passam necessidades especiais. Lavar os pés, amar o irmão, perdoar, servir, fazer todos os gestos de justiça de misericórdia e de amizade. E celebrando estes gestos presidir a Eucaristia colocando em prática o que dá no testemunho.
Viver estas obras de caridade no quotidiano, assim a Eucaristia só se torna verdadeira comunhão, verdadeira comum/união, se aprendermos a viver a lição do Lava-pés: a lição do amor, a lição do perdão, a lição da amizade, que nos permite seguir o nosso egoísmo, mas ensina a servir a todos; que não nos permite a exploração de ninguém, mas nos ensina a conviver em volta da mesma mesa, respeitando as diferenças e os carismas de cada um.
Celebremos com fé, com a Igreja, Comunidade de amor, alimentada e expressa pela Eucaristia e animada pelos ministros ordenados, o mistério pascal de Cristo. Nesta noite ele é entregue e entrega-se aos discípulos como Corpo dado e Sangue derramado, antecipação de sua total entrega ao Pai.
Que possamos todos, fiéis e presbíteros, todos sacerdotes pelo mesmo batismo, sair desta celebração vivendo intensamente o mistério do amor de Cristo que nos chama a conversão e a vivência de uma fé misericordiosa e participativa, gerando compromisso de autenticidade cristã.

padre Wagner Augusto Portugal


SOLENIDADE DE DOMINGO DE RAMOS 
09 de Abril de 2017

 Mateus 21,1-11
“Dizei à filha de Sião: ‘Eis que o teu rei vem a ti, manso e montado num jumento, num jumentinho, num potro de jumenta!” – Assim o nosso Jesus entra hoje em Jerusalém para sofrer sua paixão e fazer sua Páscoa deste mundo para o Pai.
Jerusalém é a cidade do Messias; nele deveria manifestar-se o Reino de Deus. O Senhor Jesus, ao entrar nela de modo solene, realiza a esperança de Israel. Por isso o povo grita: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!” Hoje, com nossos ramos levados em procissão, fazemos solene memória desse acontecimento e proclamamos com nossos cânticos que Jesus é o Messias prometido! Também nós cantaremos daqui a pouco: Hosana ao Filho de Davi!
Mas, atenção! Este Messias não vem como rei potente, num majestoso cavalo de guerra, símbolo de força e poder! Ele vem num burrico, usado pelos servos nos seus duros trabalhos. Ele vem como manso e humilde servo! Eis o escândalo que Israel não suporta! Esperava-se um Messias que fosse Rei potente e Deus envia um servo humilde e frágil! Que lógica, a de Deus! E, misteriosamente, Israel não consegue compreendê-la e refutará Jesus! Mas, e nós, compreendemos de verdade essa lógica? Hoje, seguir o Cristo em procissão é estar dispostos a aceita-lo como Messias que tem como trono a cruz e como coroa os espinhos! Segui-lo pela rua é comprometer-se a segui-lo pela vida! Caso contrário, nossa liturgia não passará de um teatro vazio...
Vamos com Jesus! Aclamemos Jesus! E quando na vida, a cruz vier, a dor vier, os espinhos vierem, tomemos nas mãos os ramos que levaremos hoje para nossas casas e recordemos que nos comprometemos a seguir o Cristo até a morte e morte de cruz, para chegarmos à Páscoa da Ressurreição! 
Mateus 26,14 – 27,66
O mistério que hoje estamos celebrando – a Paixão e Morte do Senhor – e vamos celebrar de modo mais pausado e contemplativo nesses dias da Grande Semana, foi resumido de modo admirável na segunda leitura desta Eucaristia: o Filho, sendo Deus, tomou a forma de servo e fez-se obediente ao Pai por nós até a morte de cruz. E o Pai o exaltou e deu-lhe um nome acima de todo nome, para nossa salvação! Eis o mistério! Eis a salvação que nos foi dada! 
Mas isso custou ao Senhor! É sempre assim: os ideais são lindos; coloca-los na vida, na carne de nossa existência, requer renúncia, lágrimas, sangue! O Filho, para nos salvar, teve que aprender como um discípulo, teve que oferecer as costas aos verdugos e o rosto às bofetadas! Que ideal tão alto; que caminho tão baixo! Que ideal tão sublime, que meios tão trágicos!
Foi assim com o nosso Jesus; é assim conosco! É na dor da carne da vida que o Senhor nos convida a participar da sua cruz e caminhar com ele para a ressurreição. Infelizmente, nós, que aqui nos sentamos à mesa com ele, tantas vezes o deixamos de lado: “Quem vai me trair é aquele que comigo põe a mão no prato!” – Eis! É para nós esta palavra! Comemos o seu Pão ao redor deste Altar sagrado e, no entanto, o abandonamos nas horas de cruz: “Esta noite vós ficareis decepcionados por minha causa!” – Que pena! Queríamos um Messias fácil, um Messias que nos protegesse contra as intempéries da vida, que fosse bonzinho para o mundo atual. Como seria bom um Messias de acordo com o assassinato de embriões, com o aborto, com a libertinagem reinante... Mas, não! Esse Messias prefere morrer a matar, esse Messias exige que o sigamos radicalmente, esse Messias nos convida a receber a mesma rejeição que ele recebe do mundo: Minha alma está triste até à morte. Ficais aqui e vigiai comigo!” 
rmãos, que vos preparais para celebrar estes dias sagrados, não vos acovardeis, não renegueis o nosso Senhor, não o deixeis padecer sozinho, crucificado por um mundo cada vez mais infiel e ateu, um mundo que denigre o nome de Cristo e de sua Igreja católica! Cuidado, irmãos! Não é fácil, não será fácil a luta: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca!” Que nos sustente a força daquele que por nós se fez fraco! Que nos socorra a intercessão daquele que orou por Pedro para que sua fé não desfalecesse! E se, como Pedro cairmos, ao menos, como Pedro, arrependamo-nos e choremos!
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos porque pela vossa santa cruz remistes o mundo!

dom Henrique Soares da Costa


5º DOMINGO DA QUARESMA 
02 de Abril de 2017

Jesus e a morte da humanidade
1. A vida de muitos tem sido como um túmulo que devora as esperanças. Muita gente tem razão de se queixar: "Nossos ossos estão secos, nossa esperança está desfeita. Para nós tudo está acabado" (1ª leitura: Ez. 37,12-14). Nosso país está cheio de Lázaros, Martas e Marias, e o consolo que eles recebem são pêsames e amarras sempre mais consistentes (evangelho: Jo 11,1-45). Isso porque uma minoria optou por viver segundo seus instintos egoístas (2ª leitura: Rm 8,8-11), gerando a cada dia uma sociedade sempre mais desigual e injusta.
2. A esperança vem da Palavra de Deus. Ele nos tira dos túmulos e por seu espírito nos faz reviver. Jesus nos mostrou que a morte não tem a última palavra. Mais ainda, ele nos ordena que desamarremos e deixemos caminhar todos os que estão sendo impedidos de viver, pois o Espírito que o animou a libertar os oprimidos e ressuscitar os mortos está presente em nós pelo batismo.
1ª leitura (Ez. 37,12-14) - Javé liberta seu povo da morte
3. Como se sentia o povo de Deus exilado na Babilônia? A resposta a esta pergunta está em Ez. 37,11: "A casa de Israel anda dizendo: Nossos ossos estão secos, nossa esperança está desfeita. Para nós tudo está acabado". Este versículo, por sua vez, procura explicar o sentido daquilo que o profeta viu, ou seja, uma multidão de ossos secos que se cobrem de nervos, carne e pele, formando enorme exército de seres vivos (37,1-10).
4. O povo de Deus no exílio tomou consciência de sua situação: ele é como ossos ressequidos dentro de um túmulo, ou seja, um povo morto. E toma consciência também de que o exílio do povo, a perda da liberdade e dos bens que garantem a vida é resultado da má administração das lideranças políticas.
5. Por meio de Ezequiel, o Deus que promete e cumpre (v. 14b) anuncia que vai abrir os túmulos e tirar seu povo das sepulturas, a fim de reconduzi-lo à terra de Israel. Trata-se de linguagem simbólica que denuncia a situação de morte em que vive o povo exilado (túmulos) e anuncia a libertação, traduzida em termos de volta à própria terra.
6. O povo estava muito desanimado e havia perdido a memória dos grandes feitos libertadores de Deus. Por isso o texto insiste em afirmar que ele é Javé, aquele que fala e cumpre o que diz (vv. 13-14). Com isso Ezequiel pretende reavivar no povo a memória dos acontecimentos narrados no livro do Êxodo, ou seja, a presença do Deus que ouve os clamores do seu povo e o liberta de seus opressores. A ação de Javé tem conotação política: tomar consciência das causas que geram a desgraça do povo e agir para transformar radicalmente a situação.
Evangelho (Jo 11,1-45): Jesus e a morte da humanidade
7. A ressurreição de Lázaro é o sétimo sinal do quarto evangelho. A função dos sinais é levar as pessoas a tomar partido: a favor de Jesus e da vida, ou contra ele e a favor da morte. De fato, Marta crê que Jesus é a Ressurreição e a Vida (vv. 25-27), ao passo que as autoridades político-religiosas dos judeus declaram a morte de Jesus (v. 45ss). A ressurreição de Lázaro é também o ponto alto do ensino batismal das primeiras comunidades cristãs. Esse episódio pretende conduzir as pessoas à profissão de fé em Jesus-Vida (20,31).
8. A ressurreição de Lázaro é apenas um sinal que aponta para uma realidade maior e mais profunda: a vitória de Jesus sobre a morte e sua glorificação. Este é o sentido do v. 4: "Esta doença não é para a morte, mas para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela".
9. Lázaro, Marta e Maria são a própria humanidade envolta em situações de morte. A doença dele é a doença do mundo; suas amarras (v. 44) são as amarras de todas as pessoas impossibilitadas de andar e viver (perda da liberdade que gera opressão política). E para todos eles Jesus dá a mesma ordem: "Desamarrem-no e deixem que ele ande". Marta e Maria recordam o sofrimento, esperança e fé dos sofredores de ontem e de hoje. E Betânia é toda comunidade com suas esperanças e temores de que a morte tenha a última palavra sobre nossas vidas.
a. Vv. 1-16: Amor gera confiança…
10. Entre Jesus, Lázaro, Marta e Maria, isto é, entre ele e a comunidade cristã, e entre os membros da comunidade, vigoram relações de amor e fraternidade. Maria era aquela que ungiu o Senhor com perfume e que tinha enxugado os pés dele com seus cabelos (v. 2). Ungir com perfume é gesto de amor. Além disso o texto sublinha que Lázaro é amigo de Jesus (v. 3) e vice-versa. Amor gera confiança e solidariedade em situações difíceis. (Notar como nesses versículos iniciais se insiste nas palavras amor, amizade, irmão/irmã.)
11. A doença que provocou a morte de Lázaro não é sinal de que Jesus não ame a humanidade. Para ele, a doença que conduz à morte é de outro tipo: trata-se do pecado, que é adesão a um arranjo social injusto (cf. 5,14: "Não peque de novo, para que não lhe aconteça alguma coisa pior"). Jesus não livra somente da morte física. Ao contrário, dá-lhe novo sentido. Assim, os que crêem não têm motivos para temer a morte.
12. A relação de amor culmina na Hora de Jesus. Nesse sentido, a ressurreição de Lázaro é apenas um sinal que aponta para a realidade profunda do evangelho, isto é, a revelação de que a morte-ressurreição de Jesus é a prova maior do amor que Deus tem pelos seus. É por isso que Jesus tem coragem de voltar à Judéia, fato ao qual os discípulos se opõem, com medo de que ele seja morto. Jesus vai à Judéia a fim de res-suscitar seu amigo. Isso acarretará a morte de Jesus, que é a expressão máxima de solidariedade com os sofrimentos humanos. Mas o Pai o ressuscitará, e sua ressurreição é a prova definitiva de que a vida vence a morte.
13. À coragem de Jesus opõe-se o medo dos discípulos (v. 8) que relutam em aceitar o projeto de Deus. Na pessoa de Tomé, decidem ir ao encontro da morte (v. 16), pois não entendem que, para o Mestre, a morte é apenas sono (vv. 11-12).
14. Jesus é a luz. Se alguém caminha de dia, não tropeça. Mas quem caminha de noite, tropeça, porque não há luz nele (v. 9). Essa afirmação de Jesus recorda toda sua atividade libertadora iniciada em Caná da Galiléia (cap. 2), onde realizou o primeiro de seus sinais. O dia de Jesus inicia em Caná e termina com a ressurreição de Lázaro. Depois disso começa a "noite", isto é, o tempo dos tropeços: os discípulos caem, as autoridades matam Jesus… O dia recomeça definitivamente na manhã da ressurreição… Jesus se alegra por causa disso, pois o contraste entre morte e alegria já prenuncia a vitória do Ressuscitado.
b. Vv. 17-27: …que gera fé em Jesus, Ressurreição e Vida…
15. Jesus chegou a Betânia quatro dias após a morte do amigo. Para o povo da Bíblia, o quarto dia após a morte significa a perda total de esperança. O diálogo de Jesus com Marta manifesta a precariedade da esperança, pois ela crê apenas que seu irmão irá ressuscitar no último dia, de acordo com a crença daquele tempo. Contudo, Marta é mais forte que a irmã, pois esta fica sentada em casa (v. 20), enquanto a outra sai de casa (do ambiente de desespero) e toma a iniciativa de dialogar com Jesus.
16. Jesus convida Marta a crescer na fé. Para ela, teria sido necessária a presença física de Jesus para evitar a morte do irmão (v. 21), e ela interpreta as palavras do Mestre em termos de ressurreição no final dos tempos (v. 24).
17. O texto apresenta duas formas contrastantes de se solidarizar diante da morte. Em primeiro lugar, a solidariedade dos amigos e vizinhos (v. 19), que vão à casa das irmãs para dar pêsames e fazer lamentações em altos brados, símbolo do desespero. Em segundo lugar, a solidariedade de Jesus. Ele não entra nesse ambiente dominado pelo desespero. Fica fora e chama para fora, porque traz do Pai a forma perfeita de solidariedade: "Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que esteja morto vai viver! E todo aquele que vive e crê em mim não ficará morto para sempre" (vv. 25-26). Marta é convidada à fé madura, passando da presença física à adesão à pessoa de Jesus. Esse processo, contudo, é gradual e lento (cf. v. 40).
c. vs. 28-44: …que faz passar da morte à vida
18. Marta deu provas de que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus que veio ao mundo (v. 27), e testemunha isso à irmã sem esperança. Os que são dominados pelo desespero crêem que Maria estivesse indo ao túmulo para chorar (v. 31), mas ela foi para o lugar onde estava Jesus (v. 32a). Maria ainda pensa à semelhança de sua irmã, antes que esta declarasse sua fé em Jesus Ressurreição e Vida (v. 32b). Maria chora, e seu choro é acompanhado pelos judeus que com ela estavam (note-se que não se fala do choro de Marta!). Jesus também se comove (vv. 33.38), mas seu choro não é marcado pelo desespero. É um choro de solidariedade com os sofrimentos humanos.
19. Jesus manda tirar a pedra do túmulo, apesar de Marta lhe recordar que não há mais esperança (v. 39). Ela e todos os que aderem a Jesus são chamados a ler os sinais em profundidade: "Eu digo isso por causa do povo que me rodeia, para que creia que tu me enviaste" (v. 42; cf. v. 45 e leia 20,31).
20. Lázaro, ao apelo de Jesus, sai do túmulo de braços e pernas amarrados (v. 44a). São as amarras que impedem às pessoas serem livres e viver. Jesus ordena que os presentes o desamarrem e o deixem ir (v. 44b). Para onde terá ido? Só descobriremos o rumo que ele tomou se lermos o fato na profundidade da fé.
21. Lido à luz da nossa realidade hoje, o episódio recorda a morte de tantos que vivem sujeitos a este sistema injusto e opressor, causador de morte e opressão... (Lázaro) e a falta de consciência das pessoas (Marta e Maria) de que é possível transformar essa situação de morte em vida. – Soltar as amarras torna-se, então, conscientização sócio-política em vista da participação dos cidadãos nos destinos do povo.
2ª leitura (Rm. 8,8-11) - A vida no Espírito
22. O capítulo 8 de Romanos tem como tema central a vida no Espírito, que se opõe à vida segundo os instintos egoístas. O Espírito Santo, que animou toda a vida de Jesus, se manifesta na vida das comunidades, ajudando-as a recordar o que Jesus fez, a fim de que possam dar continuidade ao projeto do Pai. Vida no Espírito, portanto, é viver do modo como Jesus viveu, doando-se plenamente. A Lei do Espírito é a lei das opções que animaram Jesus e implantaram o projeto de Deus em nossa história.
23. A isso se opõe a vida "segundo a carne". Para Paulo, carne é a pessoa abandonada a si própria e a seu egoísmo, fazendo de si mesmo um ídolo. Quem vive segundo a carne põe-se no centro de tudo: o mundo todo gira ao redor da pessoa e de seus interesses. Desse modo as pessoas servem a si próprias, adoram a si próprias e buscam a própria auto-afirmação. Daí nascem os instintos egoístas (que é outro modo de traduzir a palavra carne). Viver segundo a carne é pautar a vida por critérios contrários aos de Jesus, que foram os critérios da doação e entrega aos outros. Aí não reside o Espírito de Deus. É por isso que Paulo afirma: "Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus" (v. 8).
24. Ao sermos batizados, recebemos o Espírito que animou a vida de Jesus. Também nós somos movidos pelo Espírito, pois ele habita em nós (v. 11). Por isso o cristão não se coloca no centro do mundo; pelo contrário, o centro de sua vida é a pessoa de Jesus e seu projeto e a pessoa dos outros com suas necessidades.
25. O Espírito é a força do Pai que gerou Jesus no seio de Maria. Ele é, portanto, força de encarnação. Viver nele é encarnar-se na realidade da mesma forma que Jesus, pois quem não se encarna jamais será capaz de sentir os apelos da humanidade, nem será capaz de colaborar positivamente na trans-formação da sociedade. Os que vivem segundo o Espírito entendem que libertação é sair de si para os outros, da mesma forma que Jesus, voltado para o seio do Pai, saiu do Pai e veio morar no meio de nós.
Pistas para reflexão
26. As leituras deste domingo são um apelo à libertação. Deus não quer que seu povo, suas criaturas, sejam ossos ressequidos abandonados nos túmulos. Ao contrário, pela força de sua Palavra promete e liberta seu povo de qualquer espécie de servidão e morte (Ez. 37,12-14; 1ª leitura).
27. Jesus ama a humanidade e se solidariza com os Lázaros, Martas e Marias de todos os tempos, ordenando que soltemos as amarras que prendem os dominados. Nem sequer a morte física dos seus amados e as tramas diabólicas que seus adversários lhe armam serão capazes de impedir o curso vitorioso de sua ressurreição (Jo 11,1-45; evangelho). Por isso nos perguntamos: Onde e como estamos soltando as amarras dos que hoje são condenados a morrer?
28. Jesus morreu e ressuscitou, comunicando-nos seu Espírito. Viver segundo o Espírito é fazer nossas as opções de Jesus, traduzidas em doação e entrega de si aos outros (Rm. 8,8-11; 2ª leitura). O que é uma política "segundo a carne" e uma política "segundo o Espírito"? Quem a comunidade (Igreja) põe como centro de atenção? O que significa agradar a Deus num tempo de tantas desigualdades e discriminações sociais como o nosso?

padre José Bortolini

4º DOMINGO DA QUARESMA 
26 de Março de 2017


O Evangelho de hoje é mais uma belíssima catequese batismal que nos prepara para a santa Páscoa. Não esqueçamos que em muitas paróquias adultos estão terminando seus preparativos para o Batismo.
No Domingo passado, no Evangelho da Samaritana, vimos que Jesus é o Messias que dá a verdadeira água do Espírito Santo, água que jorra para a vida eterna.
Neste hoje, “ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença”. Esse homem simboliza os judeus; pode simbolizar também a humanidade toda. Os discípulos, apegados a uma crença popular antiga, tão combatida por Jeremias e Ezequiel, pensavam que o cego estava pagando pelos pecados seus ou dos seus antepassados. É a uma crença errada, semelhante à superstição da reencarnação: “Quem pecou para que nascesse cego: ele ou seus pais?” Não há resposta, não há explicação! Os segredos da vida pertencem a Deus! Se crermos no seu amor, se nos abandonarmos nas suas mãos, a maior dor, o mais inexplicável sofrimento pode ser confortado pela certeza de que Deus está conosco e nos fortalece: “Nem ele nem seus pais pecaram: isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele!” Até na dor e no sofrimento Deus está presente quando somos abertos à sua presença. Pena que nosso mundo superficial e incrédulo não compreenda isso... Se se abrisse para Jesus, o Inocente crucificado e morto... Na sua luz, contemplamos a luz da vida: “Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo!” Mas, o nosso mundo se fecha na sua racionalidade cega e orgulhosa...
Jesus, cospe no chão e faz lama. A saliva, para os judeus, continha o espírito; simboliza, então, como a água, o dom do Espírito. Depois, Jesus ordena: “Vai lavar-te na piscina de Siloé!” É a piscina do Enviado de Deus, do Messias, imagem da piscina do nosso Batismo, na qual somos iluminados pelo Senhor que é luz do mundo! Por isso o homem vai e retorna vendo. Eis o que é o cristão, o discípulo de Cristo: aquele que era cego, foi lavado na piscina batismal e voltou vendo. Porque ele vê, os judeus o expulsam da sinagoga, como o mundo também nos expulsa de sua amizade a apreço! Não somos do mundo, como o Senhor nosso não é do mundo; ele nos separou do mundo! Agora, curado da cegueira, aquele que foi iluminado pode ver Jesus; ver com a fé, ver a realidade mais profunda, ver que ele é o Senhor, Filho de Deus: “Acreditas no filho do Homem?’ ‘Quem é, Senhor para que eu creia nele?’ Jesus disse: ‘Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo!’” Para isso te curei, para isso fiz-te enxergar! “’Eu creio, Senhor!’ E prostrou-se diante de Jesus!”
Também nós fomos iluminados pelo Cristo no Batismo. Para nós valem as palavras de São Paulo: “Outrora éreis treva, mas agora sois luz no Senhor! Vivei  como filhos da luz! Não vos associeis às obras das trevas!” Eis, caros irmãos: iluminados por Cristo não podemos pensar como o mundo, sentir como o mundo, agir como o mundo! Devemos viver na luz e ser luz para o mundo! Mas, não é fácil; não basta querer! Sem a graça do Senhor, nada conseguiremos, a não ser sermos infiéis! Por isso a necessidade dos exercícios quaresmais; por isso a oração, a penitência e a  caridade fraterna, por isso a necessidade da confissão de nossos pecados! Não nos esqueçamos: não poderemos zombar de Cristo: seremos julgados na sua luz: “Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não vêem vejam e os que vêem se tornem cegos!” – Eu vim para revelar a luz aos humildes, aos que se abrem à minha Palavra e à minha Presença, e vim revelar a cegueira do mundo confiado na sua própria razão, na prepotência de seus próprios caminhos! Porque este mundo diz que vê, que sabe, que está certo, seu pecado permanece! Somente se abrir-se para a luz do Cristo, caminhará na luz e enxergará de verdade!
E nós, caminhamos na luz ou permanecemos nas trevas? Que o Senhor ilumine a nossa vida.

dom Henrique Soares da Costa


3º DOMINGO DA QUARESMA 
19 de Março de 2017


A Quaresma é tempo de caminho para a santa Páscoa, Páscoa de Cristo e nossa. Ora, é pelo batismo e a eucaristia que entramos misteriosamente na Páscoa do Senhor, no seu mistério de morte e ressurreição. Por isso celebramos a Noite Santa de Páscoa com o batismo e a eucaristia! Pois bem, o Evangelho de hoje é uma belíssima catequese batismal!
Acompanhemos passo a passo este texto belíssimo. “Chegou uma mulher da Samaria para buscar água”. Essa mulher, essa samaritana, essa pagã, representa os povos não-judeus, os que ainda não conheciam o Deus verdadeiro. Eles vêm, sedentos, procurando uma água que não sacia definitivamente; eles têm de voltar sempre ao poço, buscam saciar a sede de tantos modos, e continuam sempre com sede: “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo”. Consumismo, sexo, liberdade desenfreada, droga, poder, dinheiro, ciência sem ética nem limites, facilidades... nada disso sacia de modo definitivo o nosso coração! Jesus provoca a mulher: “Se conhecêsseis o dom de Deus e quem é que te pede ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva”. Frase estupenda! O Dom de Deus é o Espírito Santo; é ele á água que jorra para a vida eterna. Em Jô. 7,37, Jesus convidou: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba aquele que crê em mim”. E o Evangelista recorda que do seio do Messias sairão rios de água viva, o Espírito Santo (cf. Jô. 7,38). E quem é que pede de beber? O Messias, isto é, o Ungido com o Espírito, o doador do Espírito, da água que nos sacia de vida eterna!
Diante disso, a Samaritana – e nós também – suplica: “Senhor, dá-me dessa água!” Esta água só pode ser recebida no sacramento do Batismo! Como aquele outro pedido: “Senhor, dá-nos deste pão” (Jô. 6,34). Eis o Batismo; eis a Eucaristia! É assim que a vida de Jesus nos chega! Mas, não se pode receber o Batismo sem primeiro se reconhecer pecador, sem primeiro confessar seu pecado e buscar a remissão no Espírito Santo que Jesus dá! Quem não se humilha diante do Senhor, quem não se reconhece pecador, não beberá dessa água! Por isso, Jesus revela o pecado da mulher, toca seu ponto fraco, fá-la reconhecer-se indigna, não para envergonhá-la, mas para libertá-la com a verdade: “Vai chamar teu marido!” A mulher era adúltera, com vários maridos, como os pagãos, com seus vários deuses! Jesus, então, revela que os pagãos adoram o que não conhecem, porque “a salvação vem dos judeus!” Interessante o ecumenismo de Jesus: não mascara a verdade, não nega a verdadeira fé, em nome de um falso diálogo! A salvação vem dos judeus, porque é dos judeus que Cristo vem – ele, o único verdadeiro Salvador, fora do qual não há nem pode haver salvação alguma! Há tanto teólogo sabido esquecendo isso! Por outro lado, o judaísmo vai ser superado: “Está chegando a hora em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e Verdade” e não mais em Jerusalém! Eis: quando Cristo der o seu Espírito, é nesse Espírito de Verdade, Espírito de Cristo, recebido nas águas do Batismo, que a humanidade encontrará a Deus! Esses são os adoradores que o Pai procura, pois a salvação definitiva vem de Cristo, presente nos sacramentos da sua Igreja católica, sobretudo no Batismo e na Eucaristia! É nele que judeus e pagãos são chamados a formar um só povo de verdadeiros adoradores!
Finalmente, o misterioso diálogo de Jesus com os apóstolos: “Tenho um alimento que não conheceis: o meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra”. O alimento de Jesus é levar o Reino do Pai a todos os povos, judeus e pagãos! É o que Jesus acabara de fazer com a Samaritana... e ela está chamando outros até Jesus. Por isso, Jesus diz: "Levantai os olhos e vede os campos: eles estão dourados para a colheita! O ceifeiro já está recebendo o salário e recolhe fruto para a vida eterna! Um é o que semeia, outro o que colhe!" O Senhor está semeando para que os Apóstolos colham depois da Páscoa! Mas, a conversão daqueles samaritanos é já um sinal e uma antecipação da colheita, da conversão dos pagãos.
Que dizer mais? Somos a colheita de Cristo! “Estamos em paz com Deus por Jesus Cristo”. Porque fomos batizados nele, vivemos na esperança, pois já experimentamos em nós a vida eterna, pois “o amor de Deus foi derramado como água em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado!” E tudo isso, graças ao que Cristo semeou com sua morte, tornando-se grão que dá fruto para a vida eterna! Eis que prova de amor tão grande o Pai nos deu! Eis em que consiste o Reino que Jesus veio anunciar e trazer! Eis a obra do Pai, que é o alimento de Jesus!
Eis! Na sede do nosso caminho de vida e de Quaresma, olhemos para Jesus, aproximemo-nos dele, o Rochedo que, ferido na cruz, de lado aberto, faz jorrar a água do Espírito para o seu povo peregrino e sedento. O mundo, tão sedento, procura matar a sede em tantas águas sujas, envenenadas, águas que matam! Que nós matemos nossa sede no Cristo, novo Rochedo, que jorra a água do Espírito, que dura para a vida eterna! Que ele alimente nosso caminho quaresmal até a Páscoa da glória!

dom Henrique Soares da Costa

2º DOMINGO DA QUARESMA 

12 de Março de 2017


Do Tabor ao Calvário

A Vida cristã pode ser comparada a uma caminhada que deve ser percorrida na escuta atenta de Deus, na observância total aos seus planos.  A Quaresma é um momento forte para rever essa caminhada.
As Leituras bíblicas de hoje nos ajudam...
Na 1a Leitura, vemos a caminhada de Abraão: (Gen 12,1-4)
- Deus chama Abraão, convida-o a deixar a terra e a família e a partir ao encontro de uma outra terra,   para ser um sinal de Deus no meio dos homens.
- Deus lhe oferece a sua bênção e a promessa de uma família numerosa,   que será testemunha da Salvação de Deus diante de todos os povos.
- Diante do desafio de Deus, Abraão pôs-se a caminho.   Abraão percebe o projeto de Deus e o segue de todo o coração.
* Abraão é uma figura típica da História da Salvação:
   Confiante na Palavra de Deus, torna-se o modelo de uma fé obediente    e em marcha à luz plena, embora através da cruz e da provação. Também nós somos peregrinos em busca de uma Terra Prometida.
Na 2ª leitura, Paulo exorta Timóteo a superar a sua timidez e  não desanimar diante das dificuldades ao longo da caminhada. (2Tm 1,8b-10)
* A resposta agradecida ao chamado de Deus requer de nós fé, confiança e fidelidade a toda prova no deserto da vida, como nômades de Deus  a exemplo de Abraão e a exemplo de Cristo, nosso Mestre de vida.
No Evangelho, vemos a Caminhada de Jesus:  (Mt 17,1-9) A caminho de Jerusalém, Jesus faz o primeiro anúncio da Paixão. O caminho da salvação esperado pelos discípulos é bem diferente. Por isso, ficam profundamente desanimados e frustrados.
A aventura parece encaminhar-se para um grande fracasso.
- Para fortalecer o ânimo profundamente abalado dos discípulos,  Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João, e revela-lhes no Monte Tabor a glória da divindade.  Após um momento de medo, eles reencontram a paz e a alegria.
Com a TRANSFIGURAÇÃO, Mateus quer duas coisas:
- Revelar: QUEM É JESUS: É "o Filho amado do Pai" e
- Convidar: "Escutem o que ele diz".
* Pela Transfiguração, Deus demonstra que uma existência feita dom não é fracassada, mesmo quando termina na cruz.  A Celebração da Transfiguração de Jesus nos faz Testemunhas vivas da meta que nos aguarda.
- Por que Moisés e Elias?  Eles representavam para os israelitas todo o Antigo Testamento.
  Jesus é a explicação e a realização de toda a Lei e os Profetas.
  No Monte Sinai, falavam com Deus, aqui estão falando com Jesus...
- Israel era o filho predileto de Javé.
  Jesus é o Filho predileto do Pai, que os discípulos devem ouvir.
  Por isso: "os três levantaram os olhos e viram só Jesus."   Moisés e Elias desapareceram, já cumpriram a sua missão: apresentar ao mundo o Messias, o novo Profeta, o novo Legislador.
O Prefácio resume o sentido do evangelho de hoje:
"Cristo, depois de anunciar a morte a seus discípulos,
mostrou-lhes no Monte santo o esplendor de sua glória
para testemunhar, de acordo com a Lei e os Profetas,
que a Paixão é o caminho da Ressurreição."
A Nossa caminhada para Deus:
Também nós somos chamados por Deus a uma caminhada, que é íngreme e difícil, como a escalada de uma alta montanha. No final dessa viagem, que começa com o BATISMO,
seremos envolvidos pela mesma "nuvem luminosa", que envolveu o Mestre e brilharemos como o sol no Reino do Pai.
Como os apóstolos, também seremos tentados a desanimar. Mas Jesus nos dá força para enfrentar e olhar além. Ao transfigurar-se aos apóstolos na glória da Trindade,
quis manter viva neles a chama da esperança. Com a sua morte, o sonho não tinha acabado.
Por isso, eles e nós não devemos desanimar, por causa da cruz.
+ "Descer o Monte"
Na Transfiguração, Jesus nos revela também o valor da Vida, as belezas criadas por Deus na Natureza que devemos cultivar e guardar.  Em Jesus aparece a beleza do ser humano
e de toda natureza que o envolve.
Diante das ameaças e agressões à Vida, Jesus nos tranquiliza: "Levantai-vos. Não tenhais medo!". Convida-nos a "descer o Monte" e retomar  a dolorosa caminhada em defesa da Vida.
Pela Transfiguração, Jesus mostra que essa realidade hostil, em que vivemos, pode e deve ser mudada, transfigurada... O caminho é escutar o Filho amado e segui-lo com fidelidade...
Que a Caminhada Quaresmal nos ajude a descobrir esse Cristo glorioso,  a escutar e acolher a sua voz para que a Páscoa aconteça dentro de cada um de nós.

                                      Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa 

1º DOMINGO DA QUARESMA 
05 de Março de 2017



Logo no início deste santo caminho para a Páscoa, a Palavra de Deus nos desvenda dois mistérios tremendos: o mistério da piedade e o mistério da iniqüidade! Esses dois mistérios atravessam a história humana e se interpenetram misteriosamente; dois mistérios que nos atingem e marcam nossa vida, e esperam nossa decisão, nossa atitude, nossa escolha! Um é mistério de vida; o outro, mistério de morte.
Comecemos pelo mistério da iniqüidade: “O pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”. Eis! A vida que vivemos, a vida da humanidade é uma vida de morte, ferida por tantas contradições, por tantas ameaças físicas, psíquicas, morais... Viver tornou-se uma luta e, se é verdade que a vida vale a pena ser vivida, não é menos verdade que ela também tem muito de peso, de dor, de pranto, de fardo danado. Mas, como isso foi possível? Escutemos a primeira leitura: “O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um ser vivente”. Somos obra de Deus, do seu amor gratuito: do nada ele nos tirou e encheu-nos de vida. Mais ainda: “O Senhor Deus plantou um jardim em Éden, ao oriente, e ali pôs o homem que havia formado”. Vede: o Senhor não somente nos tirou do pó do nada, não somente nos encheu de vida; também nos colocou no jardim de delícias, pensou nossa vida como vida de verdade toda banhada pela luz do oriente. E mais: nosso Deus passeava no jardim à brisa do dia (cf. Gn 3,8), como amigo do homem. Eis o mistério da piedade, o projeto que Deus concebeu para nós desde o início, apresentado pela Palavra de modo poético e simbólico: um Deus que é Deus de amor, de ternura, de carinho, de respeito pela sua criatura, com a qual ele deseja estabelecer uma parceria; um homem chamado a ser plenamente homem: feliz na comunhão com Deus, feliz em ter no seu Deus sua plenitude e sua vida; homem plenamente homem nos limites de homem. O homem é homem, não é Deus! Somente o Senhor Deus é o Senhor do Bem e do Mal. Por isso as duas árvores no Éden: a do conhecimento do Bem e do Mal (isto é, o poder de decidir por si mesmo o que é bem ou mal, certo ou errado) e a árvore da Vida (da vida plena, da vida divina). Se o homem confiasse em Deus, se cumprisse seu preceito, se reconhecesse seus limites, um dia comeria do fruto da árvore da Vida...
Mas, o homem foi seduzido; é seduzido inda agora: deseja ser seu próprio Deus, sem nenhum limite, sem nenhuma abertura à graça! Somente sua vontade lhe importa, somente sua medida! Hoje, como no princípio, ele pensa que é a medida de todas as coisas! Eis aqui o seu pecado! O Diabo o seduz: primeiro distorce o preceito de Deus (“É verdade que Deus vos disse: ‘Não comereis de nenhuma das árvores do jardim’?”), semeando no coração do homem a desconfiança e o sentimento de inferioridade; depois, mente descaradamente: “Não! Vós não morrereis! Vossos olhos se abrirão e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal!” Ser como Deus, decidindo de modo autônomo o que é certo e o que é errado; decidindo que a libertinagem é um bem, que as aventuras com embriões humanos, que o aborto, que a infidelidade feita de preservativos, são um bem... Decidindo loucamente que levar a sério a religião e a Palavra de Deus é um mal... Ser como Deus... Eis nosso sonho, nossa loucura, nossa mais triste ilusão! Tudo tão atraente, tudo tão apto para dar conhecimento, autonomia, felicidade... O resultado: os olhos dos dois se abriram: estavam nus... estamos nus... somos pó e, por nós mesmos, ao pó tornaremos, inapelavelmente!
Então, nosso destino é a morte? Não há saída para a humanidade? O mistério da iniqüidade destruiu o mistério da piedade? Não! De modo algum! Ao contrário: revelou-o ainda mais: “A transgressão de um só levou a multidão humana à morte; ma foi de modo bem superior que a graça de Deus... concedida através de Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos. Por um só homem a morte começou a reinar. Muito mais reinarão na vida, pela mediação de um só, Jesus Cristo, os que recebem o dom gratuito e superabundante da justiça”. Eis aqui o mistério tão grande, o mistério da piedade, o centro da nossa fé: em Cristo revelou-se todo o amor de Deus para conosco; pela obediência de Cristo a nossa desobediência é redimida; pela morte de Cristo na árvore da cruz, nós temos acesso ao fruto da Vida, da Vida plena, da Vida em abundância, da Vida que nunca haverá de se acabar! Pela obediência de Cristo, pelo dom do seu Espírito, nós temos a vida divina, nós somos divinizados, somos, por pura graça, aquilo que queríamos ser de modo autônomo e soberbo! Assim, manifestou-se a justiça de Deus: em Jesus morto e ressuscitado por nós – e só nele! – a humanidade encontra vida!
Mas, esta salvação em Jesus teve alto preço: a encarnação do Filho de Deus e sua humilde obediência, até a morte e morte de cruz. O Senhor desfez o nó da nossa desobediência, da nossa auto-suficiência, da nossa prepotência, renunciando ser o senhor de sua existência humana: ele acolheu a proposta do Pai, ele se fez obediente: à glória do pão (dos bens materiais, dos prazeres, do conforto) ele preferiu a Palavra do Pai como único sentido e única orientação de sua vida; à glória do sucesso (a honra, a fama, o aplauso), ele preferiu a humildade de não tentar Deus; à glória do poder (da força, das amizades poderosas e influentes, do prestígio político para impor e conseguir tudo) ele preferiu o compromisso absoluto e total com o Absoluto de Deus somente. Assim, Cristo Jesus, o Homem novo, o novo Adão (de quem o primeiro era somente figura e sombra) abriu-nos o caminho da obediência que nos faz retornar ao Pai!
Este é também o nosso caminho. Nossa vocação é entrar, participar, da obediência de Cristo pela oração, a penitência e a caridade fraterna para sermos herdeiros de sua vitória pascal! Este sagrado tempo que estamos iniciando é tempo de combate espiritual, para que voltemos, pelo caminho da obediência Àquele de quem nos afastamos pela covardia da desobediência. Convertamo-nos, portanto! Deixemos a teimosia e a ilusão de achar que nos bastamos a nós mesmos! Sinceramente, abracemos os sentimentos de Cristo, percorramos o caminho de Cristo, convertamo-nos a Cristo!
Concluamos com as palavras da Coleta de hoje: “Concedei-nos, ó Deus onipotente, que, ao longo desta quaresma, possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder ao seu amor por uma vida santa”.

dom Henrique Soares da Costa

8º DOMINGO TEMPO COMUM 

26 de Fevereiro de 2017


“Eu nunca me esquecerei de ti”
Nas duas liturgias dominicais passadas, Jesus nos ensinava qual deve ser a nossa atitude para com os outros. No Evangelho deste domingo, ele nos revela qual deve ser a nossa relação para com as coisas materiais. Que lugar os bens materiais devem ter na nossa vida? Até que ponto podem determinar os nossos desejos e esforços?
Num primeiro momento, Jesus dá a motivação fundamental (6,19-24), discurso com figuras de linguagem riquíssimas que infelizmente não aparece no lecionário: são os versículos 19-23, os quais para facilitar a compreensão do texto, exponho-os aqui junto com o v. 24: “Não ajunteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam e roubam. Ao contrário, ajuntai para vós tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, nem os ladrões assaltam e roubam. Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração. A lâmpada do corpo é o olho: se teu olho for límpido, ficarás todo cheio de luz. Mas se teu olho for ruim, ficarás todo em trevas. Se, pois, a luz em ti é trevas, quão grandes serão as trevas! Ninguém pode servir a dois senhores: pois ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (este último, lema da Campanha da Fraternidade 2010).
Num segundo momento, Jesus fala de comportamentos práticos (6,25-32), e, conclui, lembrando o valor que deve ocupar o primeiro lugar em nossa vida, em nossas aspirações e em nossos sentimentos, finalizando com uma sentença sapiencial que devemos viver a vida inteira (6,33-34).
Bom, nos seus ensinamentos sobre o tesouro, sobre o olho como lâmpada do corpo e sobre os dois senhores, Jesus adverte o perigo das formas erradas de relação para com os bens materiais. Jesus fala contra o acúmulo dos bens materiais (juntar dinheiro movido pelo amor a este). Ele cita bens como o dinheiro, objetos de valor (joias) e roupas preciosas (roupas de grife), apenas para citar alguns dos muitos tipos de posses terrenas. Jesus diz que são tesouros inseguros, a traça e a ferrugem podem corroer, ou um ladrão pode roubá-los. Não teremos absolutamente nenhuma segurança com eles, já que de uma hora para outra, podemos nos encontrar com as mãos abanando. E, assim, todo o nosso esforço, todo o nosso cansaço termina em nada.
Justamente por esse motivo, a nossa busca deve ser por tesouros cuja consistência e segurança não corra nenhum tipo de ameaça. E isto só acontece com os tesouros espirituais, tais quais a justiça, o abandonar-se à vontade de Deus e cumpri-la: “Buscai em primeiro lugar a sua justiça” (6,33). A essa sim, devemos direcionar a nossa fadiga, a nossa vontade de acumular.
Além desta falsa ilusão de segurança e durabilidade das coisas materiais, há também o problema do vínculo: “Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”. A forte ligação para com os bens terrenos não é algo que podemos considerar neutro, tem sim suas consequências. Neles se manifesta a disposição do nosso coração.
Se as coisas materiais são o nosso tesouro, a coisa principal da nossa vida, com que gastamos todo o nosso esforço, todo o nosso tempo, aquilo que queremos conseguir e conservar incondicionalmente, onde queremos encontrar segurança e apoio, de onde depende a nossa satisfação, a consciência do nosso valor e o nosso valor próprio aos olhos dos outros, então tenhamos certeza absoluta de uma coisa: nosso coração pertence aos bens materiais. Nossa adoração, o centro de nossa vida, o deus da nossa vida é o dinheiro. Mesmo que de modo farisaico, falso, mentiroso, impostor, aparente, a gente queira se enganar e diga para nós mesmos e para os outros que o senhor da nossa vida é Deus. Não é mesmo! Para comprovar, é só fazer um exame de consciência e analisar durante um tempo, por exemplo, do que mais falamos, com que mais nos preocupamos, do que mais damos valor, se somos “mão de vaca” etc. Os fatos irão nos desmascarar. E o primeiro mandamento é claro: amarás o Senhor teu Deus sobre todas as coisas.
Através do olho, a luz entra no ser humano. Dependendo da condição do olho depende se no interior há clareza ou escuridão. De fato, os olhos capturam a luz que incide sobre a retina que transforma essa luz recebida em impulsos nervosos que adentram pelo nervo óptico, que por sua vez, leva essas informação ao cérebro, onde lá são interpretadas essas sensações luminosas. Portanto, se a pessoa tem glaucoma onde o nervo ótico vai sendo pouco a pouco danificado e a visão vai diminuindo, podendo chegar a cegueira, tudo ficará escuro. Pois bem, podemos sofrer de glaucoma espiritual, quando nosso é arrogante, invejoso, malicioso; ou podemos ter a visão clara quando nosso olhar é generoso, bondoso, misericordioso. Este olhar sempre é determinado de acordo com o que está no nosso interior. Ou seja, pelo simples olhar, nosso olho pode ser sadio ou doente, espiritualmente falando. Se o nosso modo de ver é sadio, as nossas atitudes corresponderão a isto; se o nosso olhar é olhar doente, todo o nosso comportamento com relação às coisas e às pessoas, será um olhar distorcido e os nossos atos refletirão este fato.
As coisas materiais podem dominar uma pessoa. A relação entre aquele que possui e a coisa possuída pode ser tão doente que a pessoa se torne uma verdadeira escrava da coisa possuída e não o seu dono. A busca das coisas materiais pode ser tão preocupante que ela gaste a maior parte de seu tempo e cuidados com eles e se descuide dos valores mais importantes. Por fim, a pessoa chega a não servir mais a Deus, mas ao deus “dinheiro”. Porque estes dois serviços são incompatíveis e assim, a pessoa chega a adorar o dinheiro, a fazer do dinheiro um ídolo, a idolatrá-lo, e fazer de tudo o que há de mais errado para conseguir sempre mais.
Para não corrermos este perigo e porque nos ama imensamente, Jesus nos ensina para que tenhamos uma relação justa e sadia com as coisas terrenas. O ser humano não pode viver sem os bens materiais só com a sua inteligência e sua vontade. Nós temos que nos alimentarmos, e nos vestirmos e tantas outras coisas necessárias. E nesta dependência está a relação certa com os bens. Mesmo nessa relação com os bens necessários para viver, Deus tem um lugar decisivo. Como devemos viver isso, Jesus nos ensina: mesmo com relação às nossas necessidades, os bens não devem jamais dar a preocupação de dominar os nossos pensamentos de modo angustiante e descontrolado.
Porque sobre todas as preocupações tem que estar a fé e a convicção de que “o vosso Pai que está nos céus sabe que precisais de tudo isso”. Esquecer Deus, não confiar em Deus e ser absorvido somente pelas preocupações para as coisas materiais, necessárias ou não, é paganismo e idolatria. A confiança em Deus e na sua bondade deve acompanhar todas as nossas preocupações e nos dar segurança e liberdade interior.
Com algumas reflexões, Jesus nos recorda que Deus nos conhece e que providencia tudo para nós. Dele já recebemos o dom maior de todos: “o corpo e a vida”. Imaginemos as coisas menores. Os pássaros não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns, e encontram sempre o que comer. Os lírios do campo não trabalham nem fiam e são vestidos esplendorosamente. Pois bem, se para os animais e os vegetais, Deus assim providenciou, imaginem para nós? Então, o que podemos conseguir com a simples preocupação? Preocupação é sinal de pouca fé.
Com esses exemplos, Jesus não quer dizer que não devamos trabalhar, nem semear, nem nos precavermos no sentido de planejar o futuro, mas ele quer simplesmente dizer que tudo isto não deve acontecer com uma preocupação cega, mas na confiança total em Deus. Obviamente há casos em pessoas morrem de fome, mas o que Jesus quer dizer é que o fato de se preocupar ansiosamente por isso não muda em nada o fato. Nesses casos, aí sim é que se requer confiança na Providência divina e fazer o que se pode.
Enfim, Jesus diz o que deve dominar os nossos esforços e desejos: a busca pelo Reino de Deus e a sua justiça. O sentido da vida não significa em preocupar-nos com tudo que esta vida terrena apresenta, mas vivendo esta vida terrena, nos orientarmos para a perfeita comunhão com Deus através do justo agir. O homem não pode prever o futuro, este está nas mãos de Deus. Então não serve a nada estar ansioso e inquieto pelo futuro. Jesus não fala contra a responsabilidade que temos para com o futuro, mas contra o estar ansioso por antecipação que significa falta de confiança nele. O Senhor é meu refúgio e rocha firme!

Dom Henrique Soares da Costa

7º DOMINGO TEMPO COMUM 
19 de Fevereiro de 2017

Nesse domingo, continuaremos o Sermão da Montanha. Jesus nos coloca a essência do seu ensinamento: O AMOR, para sermos "perfeitos como o Pai".
O Evangelho apresenta mais dois exemplos (antíteses), que mostram a novidade de Jesus em relação a antiga Lei: Perdão em vez de vingança, e Amor em vez de Ódio... (Mt, 5,38-48)
1) PERDÃO: "Ouvistes: Dente por dente, olho por olho..."
    É a conhecida Lei do talião, que não pretendia autorizar a vingança, mas limitar, proteger os direitos das pessoas contra os excessos da violência.Não podia ser maior do que a violência original...
               A intenção era 

    EU: "Não ofereçais resistência ao malvado...":
   Jesus cita quatro exemplos de situações de violência:
             - Violência física:                  Se te bater na Face direita à oferece a esquerda;
               - Injustiça econômica:         Se tomar tua túnica à dá-lhe também o manto;
               - Abuso do Poder:               Se mandar andar um Km à anda dois;
               - Empréstimo:                      Se alguém te pedir à não vires as costas.

Na lógica dos homens é uma loucura... O próprio Cristo diante da bofetada, não ofereceu a outra face... mas protestou...
- A Lei antiga procurava limitar a violência, mas, na prática, justificava...
- JESUS: Não é suficiente...
                o Cristão deve ser um sacramento de amor e de perdão.
PERDÃO: é uma extensão do amor. Através do perdão,
o amor é confirmado e a paz se faz presente na relação humana.
A não resistência ao malvado rompe o ciclo contínuo da vingança.
- Perdão é cortar o mal pela raiz, extinguindo a maldade e o ressentimento.
  A dificuldade de perdoar impede o seguimento radical de Jesus Cristo
- Não é uma resignação fatalista, mas a não violência ativa do amor...
   (Exemplos: M.L.King, Gandhi, Dom Romero...)
- Suportar a injustiça não significa aprová-la, pode ser uma denúncia profética...
  = Amar como Deus ama é o núcleo do novo.
     Só assim podemos rezar o Pai Nosso: "Perdoai, assim como perdoamos..".
* O Espírito de vingança ("Talião" de hoje)
   está bem enraizado também em nosso coração:
   "Quem ri por último, ri melhor..."; "Não levo desaforo para casa..."
2) AMOR AOS INIMIGOS: "Ouviste o que foi dito:
Amarás o teu próximo, e odiarás (não é preciso amar) o teu inimigo..."
    EU: "Amai os vossos inimigos, e rezai pelos que vos perseguem..."
- Já no Antigo Testamento encontramos:
. "Não guardes ódio no coração contra teu irmão".
. "Não procures vingança, nem guardes rancor aos teus compatriotas".
. "Amarás o próximo como a ti mesmo..." (1ª Leitura Lv 19,1-2.17-18)
O texto esclarece que a "Santidade" que o Senhor exige
não se manifesta em formas de religiosidade  externa,
mas no amor ao irmão.
Mas na prática, o amor ao próximo se limitava só para os compatriotas...
- JESUS: amplia as dimensões da caridade: amar até os inimigos...
  Motivo: Uns e outros são filhos de Deus = irmãos...
A compreensão de que somos todos filhos do mesmo Pai e Mãe e
a percepção de que seu amor é sem limites leva à fraternidade universal,
à solidariedade e à partilha, vivendo-se com alegria, tendo como meta a união e a paz.

E nos apresenta um Modelo: O Pai Celeste:
"Sede perfeitos como o Pai celeste é perfeito..." A Imitação de Deus, na sua perfeição ou santidade, concretiza-se no amor manifestado também ao inimigo. Trata-se de um amor gratuito e desinteressado, que supera a restrição à religião e à raça.
"Desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus".
O amor sem distinção possibilita fazer a experiência de filhos, reproduzindo na terra a bondade do Pai celeste, que "faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos." O amor leva a superar o espírito de hostilidade, a vingança, o ódio e o rancor, para construir a fraternidade. Só assim nos tornamos verdadeiros filhos de Deus...
- "Se amais aos que vos amam... que recompensa tendes?
- "Se saudais os vossos irmãos... Os gentios também o fazem..."
* Será um programa realizável? Ou uma Utopia para sonhadores, uma loucura?
Muitos cristãos provaram pelo seu testemunho heroico que é possível...
A 2ª Leitura responde que é uma loucura para os homens,
mas é "Sabedoria" para Deus. (1Cor 3, 16-23)
+ Temos inimigos a perdoar e rezar por eles?
+ Pessoas que não gostamos ou que não gostam de nós?
+ Qual a nossa atitude para com elas?
+ A Eucaristia que celebramos é de fato
    um gesto de COMUNHÃO com Deus e os irmãos?

                                                         Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa - 19.02.2017

6º DOMINGO TEMPO COMUM 

12 de Fevereiro de 2017

Caros Irmãos, hoje a Palavra santa nos fala sobre a Lei de Deus. Logo de saída, impressiona a afirmação peremptória de Jesus, nosso Senhor: “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento. Em verdade, Eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra!” Sejamos sinceros: um cristão deveria ficar inquieto com tais palavras, afinal nós não mais observamos a Lei de Moisés: não nos deixamos circuncidar, não guardamos o sábado, não fazemos restrições alimentares, distinguindo entre alimento puro e impuro... E agora: como nos haveremos com a palavra tão clara de Jesus?
Mas, o que o Senhor deseja mesmo dizer? Ele diz que não vem abolir a Lei, vem cumpri-la. Atenção: cumprir aqui não significa obedecer a Lei, mas realizá-la, dar cumprimento ao que ela anunciou e prometeu! Assim, cumprindo a Lei, Jesus a supera, como um botão que se cumpre na flor. Pensai, irmãos: o botão prepara a flor e sem botão não há flor. Mas, o botão existe para tornar-se flor e, quando se torna, cumpre-se, passa, deixando lugar à flor. É assim que Jesus cumpre a Lei: realiza o que ela anunciou. Agora, como o Velho Simeão, a Lei bem que pode dizer: “Agora, Senhor, podes deixar Tua serva ir em paz. Meus olhos viram a Tua salvação que prometeste!” (Lc. 2,29s). Jesus não abole a Lei, não a despreza; cumpre-a plenamente e, cumprindo-a, supera-a definitivamente! Com a chegada do nosso Salvador, com Sua santa morte e ressurreição, nem uma letra, nem uma vírgula da Lei ficou em vão: tudo se cumpriu Nele, que é a plenitude da Lei e dos profetas. Por isso mesmo, no Tabor, Moisés e Elias, a Lei e os profetas, apareceram envoltos na Glória de Jesus. É Ele, o Santo Messias, Nosso Senhor, Quem leva a Lei e os profetas à plenitude do cumprimento! É Ele – e só Ele – que, realizando tudo quanto a Antiga Aliança legislou e profetizou, a tudo deu cumprimento e a tudo superou!
Talvez algum de vós pergunte: Então não há mais lei alguma no cristianismo? Os cristãos são livres para fazerem como bem desejarem, para viverem como bem imaginarem, tudo em nome da bondade de Deus revelada em Jesus? Não, queridos irmãos! Este pensamento seria totalmente falso! O próprio São Paulo nos previne contra esta idéia torta: “Iremos pecar porque não estamos soba Lei, mas sob a graça? De modo algum!” (Rm. 6,15) – ele mesmo responde! A Lei de Moisés foi superada, mas o cristão vive sob uma nova Lei, dada no Espírito Santo de Amor, Espírito de Cristo Jesus, Espírito de Amor! Por isso mesmo, o Espírito foi derramado sobre a Igreja no dia de Pentecostes, festa judaica que celebrava o dom da Lei. Para os discípulos de Cristo, a Lei é o Espírito de Amor que, no Batismo foi derramado nos nossos corações (cf. Rm. 5,5); o cristão vive agora debaixo da Lei do Espírito de Cristo! Por isso o Apóstolo diz: “Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus habita em vós!” E previne: “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo!” (Rm 8,9) Portanto, é Ele, esse Santo Espírito, Quem nos dá a vida de Cristo, os sentimentos de Cristo, a sabedoria de Cristo, tão diferente daquela do mundo, para viver segundo Cristo. É o que diz o santo Apóstolo na Epístola de hoje: quem pode compreender os preceitos do Senhor? Somente os que são sábios segundo Deus! Mas, essa sabedoria de Deus é escondida aos olhos do mundo, à lógica da nossa sociedade; é uma sabedoria que desde a eternidade Deus destinou para nossa glória! Nenhum dos poderosos deste mundo conheceu essa sabedoria! E São Paulo adverte: “Se a tivessem conhecido não teriam crucificado o Senhor da glória”. A sabedoria do mundo, fechada para o Espírito de Cristo, mata o Senhor da Glória no nosso coração! A verdadeira sabedoria, da verdadeira lei, somente pode ser revelada através do Espírito, que “esquadrinha as profundezas de Deus!”
Compreendei, Irmãos: é o Espírito que Cristo nos deu no Batismo e nos dá sempre de novo nos sacramentos da Igreja, é Ele, esse Espírito de Amor, Quem imprime em nós a nova Lei, a Lei do Amor! Para os cristãos, a Lei, os mandamentos, resumem-se nisto: amar ao Senhor Deus e amar os irmãos como Cristo Jesus amou! E amou até entregar-Se na cruz! Eis a Lei de Cristo, eis a medida, eis o desafio, eis nosso consolo (porque ela é tão bela!), eis a nossa desolação (porque, por nós mesmos, é impossível amar assim, na medida de Cristo!)... Pensando na Lei do Senhor Jesus, sigamos o conselho do Eclesiástico: guardemos o preceito de amor do Senhor e viveremos Nele, graças a presença do Seu Espírito de Amor em nós! Deixemos conduzir pelo Espírito, obedeçamos a voz do Espírito em nós, pois “o Senhor não mandou ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença de pecar”, muito menos pecar contra o Espírito Santo de Amor, que nos impele a amar como Jesus! Mas, irmãos meus, coragem: o que é impossível ao homem não é impossível ao Senhor! Por isso Ele nos deu o Seu próprio Espírito: para que impulsionados por Ele, nós tenhamos em nós os Seus sentimentos, as Suas atitudes, cumprindo o preceito do Apóstolo:“Tende em vós os mesmos sentimentos do Cristo Jesus” (Fl. 2,5).
Agora sim, podemos compreender a palavra do Senhor Jesus: “Eu vos digo: se a vossa justiça não for maior que a justiça dos escribas e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus!”  Vede bem: a justiça, isto é a religiosidade, o cumprimento da Lei dos escribas e fariseus, ficava na Lei de Moisés, tinha a Lei de Moisés como critério. Isto serve para os judeus, não para nós! Para o cristão, a Lei é o Espírito de Cristo, Espírito de Amor, que nos imprime no coração os sentimentos de Cristo Jesus! A justiça do cristão, sua prática religiosa, deve ultrapassar a dos escribas e fariseus, pois é impulsionada pelo Espírito de Jesus! Por isso mesmo, no evangelho de hoje, o Senhor dá três exemplos da Lei de Moisés e os radicaliza, indo direto ao espírito mais profundo contido neles. São apenas exemplos, que nos mostram que o Espírito de Amor em nós, Espírito Santo de Cristo, leva-nos a amar na medida de Cristo, Ele que nos amou sem medida! Que coisa, que mistério, que desafio: diante do amor de Cristo, jamais poderemos estar em dia, tranquilos, achando que merecemos um prêmio! Diante Dele, por nós entregue, morto e ressuscitado, seremos sempre tão pequenos, tão devedores, tão deficitários!
Pensemos nestas coisas, Amados no Senhor, e deixemo-nos guiar pelo Espírito do Senhor! Que Ele mesmo venha amar em nós e nos fazer sentir como Jesus, pensar como Jesus, falar como Jesus, agir como Jesus, viver como Jesus – esta é a Lei e os profetas! A Cristo nosso Senhor, plenitude e cumprimento da Lei, que nos libertou da Lei de Moisés, a glória pelos séculos eternos. Amém.

dom Henrique Soares da Costa


5º DOMINGO TEMPO COMUM 

05 de Fevereiro de 2017
1ª. Leitura – Isaias 58, 7-10 – “As nossas boas ações atraem para nós a luz de Deus”
Por meio do profeta Isaias o Senhor nos recomenda repartir o pão com o faminto; acolher em casa o pobre e peregrino e cobrir aquele que está nu. Estas ações de justiça são como uma receita para que a Sua Luz brilhe no mundo, por nosso meio. Repartir o pão com o faminto significa também anunciar a Palavra, que é o Pão da vida, retirando as pessoas do estado de ignorância sobre amor incondicional de Deus, atraí-las para ter um encontro pessoal com Jesus, Salvador por meio do testemunho. A Palavra de Deus é alimento para a nossa alma e por meio dela nós também mudamos de mentalidade, de costumes e de hábitos. Acolher em casa os pobres e peregrinos significa também acolher de coração as pessoas a quem encontramos, com quem convivemos, compreendendo-as, perdoando-as, ajudando-as, aconselhando-as, enfim manter bom relacionamento com todos. Cobrir o nu é também consolar aquele que está deprimido e triste, levar esperança a quem está desiludido, falar da misericórdia de Deus para quem está arrependido, sentindo-se abandonado. Deus está sempre perto daqueles que se dispõem a seguir os Seus preceitos e se apresenta com toda a plenitude no coração de quem aceita a Sua correção. Diante de tudo que foi exposto precisamos repensar a nossa vida em relação aos nossos hábitos autoritários, à nossa linguagem maldosa, à forma como tentamos oprimir as pessoas quando desejamos que elas sejam como nós queremos.      As nossas boas ações atraem para nós a luz de Deus e a Sua glória manifesta-se em nós e através de nós.    Que a luz do Senhor brilhe nas trevas do nosso coração e vá iluminando e purificando os nossos pensamentos tolos levando-nos a agir com justiça. Assim, o Senhor também, apresentar-se-á e dirá a cada um de nós, “eis-me aqui” – Você já aprendeu a acolher o peregrino? – Como é o seu relacionamento com as pessoas as quais você encontra, mas não as conhece bem? – Você é uma pessoa misericordiosa? – O que você faz quando encontra alguém triste e desesperançado?  

Salmo 111 – “Uma luz brilha nas trevas para o justo, permanece para sempre o bem que fez!”
O salmista tece elogios ao homem justo e descreve como são as suas ações, a sua motivação, a sua mentalidade. Podemos também aprender como ser justo aos olhos do Senhor. O homem justo é correto, generoso e compassivo, caridoso e prestativo. Ele jamais vacila e, confiando plenamente no Senhor, tem um coração seguro, firme e tranquilo. Por isso, não teme receber notícias más, nada lhe tira a paciência. Reparte os dons que possui com as pessoas que necessitam dele. O bem que fizer permanecerá para sempre e por seu intermédio a glória e o poder de Deus manifestar-se-ão.
2ª. Leitura – 1 Coríntios 2, 1-5 – “o nosso testemunho de vida é a melhor pregação.”
São Paulo nos ensina a usar o poder do Espírito Santo para pregar a Palavra, sem nos valer da nossa sabedoria humana, da nossa intelectualidade nem tampouco da nossa oratória requintada. Anunciando a Jesus crucificado, São Paulo nos diz que não procurava argumentos elaborados por ele mesmo. Cumpria a sua missão com tremor, isto é, reconhecendo a sua fraqueza humana, mas com firmeza e convicção de que o próprio Espírito Santo era quem o instruía. Quando fazemos a experiência de nos deixar conduzir pelo Espírito Santo, mesmo nos sentindo impotentes e fracos, nós conseguimos falar de Jesus de coração, dando testemunho das maravilhas que a cada dia acontecem na nossa vida. A experiência de Deus, o testemunho de vida é a nossa melhor pregação. Jesus foi crucificado para nos redimir e, esta verdade deve nortear os nossos depoimentos a fim de que a fé das pessoas com quem nós compartilhamos se baseie no poder de Deus e não na nossa sabedoria humana. – Como você tem dado testemunho da ação de Deus na sua vida? – Você fala o que tem no seu coração ou procura palavras bonitas para impressionar? – Você já meditou tendo como quadro, Jesus Crucificado? – Faça isso, hoje e perceba qual é a sua reação!

Evangelho – Mateus 5, 13-16 – “As nossas ações de amor, mostram ao mundo a Luz de Deus”
Ser sal da terra e luz do mundo, eis a nossa missão de batizados!

Com figuras simples Jesus nos dá entendimento das grandes verdades que precisam nortear a nossa vida de cristãos. O sal é o amor de Deus, a Luz é o conhecimento de Deus.   Assim como o sal serve para dar sabor e conservar os alimentos, nós também temos o papel de animar, encorajar e dar esperança à vida das pessoas. Do mesmo modo que a luz tira a escuridão e revela o que está escondido, nós também, como a luz, temos a missão de desvendar ao mundo os mistérios de Deus e tirar as pessoas da ausência de conhecimento. As nossas ações de amor, bondade, misericórdia, perdão, compreensão, mostram ao mundo a Luz de Deus e que o Amor saboreia vida dos homens. Viver é mais do que apenas existir, portanto precisamos aproveitar o nosso tempo aqui na terra vivendo cada dia como se fosse o último. Não podemos nos esconder do mundo para iluminar apenas aqueles a quem amamos e convivemos de perto. Precisamos irradiar a Luz de Deus, sem interesse próprio, por amor. Quando amamos com o Amor de Deus nós conseguimos elevar o mundo manifestando a glória de Deus. “A glória de Deus é o homem vivendo em plenitude!” (Sto. Irineu) Ser luz do mundo é clarear a mentalidade deturpada e enganadora que reina na cabeça das pessoas desavisadas do Evangelho. É tirar da ignorância, aqueles (as) que não se conhecem, por isso não enxergam as suas próprias dificuldades. – Você tem levado alegria e esperança à  vida das pessoas? – Você é daqueles (as) que só pensam em si e nos seus problemas? – Você tem procurado tirar as pessoas da ignorância em relação às coisas de Deus? –Você tem sido sal da terra e luz do mundo?

4º DOMINGO TEMPO COMUM 
29 de Janeiro de 2017

As bem-aventuranças: ilustrações de como viver centrado em Deus
I. Introdução geral
A primeira e a segunda leitura deste domingo nos falam da eleição de Deus. Deus escolhe os pequeninos (fracos) para confundir os poderosos deste mundo. O evangelho, na mesma direção, apresenta o programa do discipulado de Jesus. Somente os pobres em espírito (pequeninos, fracos) poderão trilhar os caminhos do Senhor. As bem-aventuranças são o itinerário dos que seguem a Jesus de Nazaré. Felizes são aqueles que encontram apoio somente no Pai. Eles são felizes porque buscam o bem para todos. A sua felicidade está na prática do bem (amor). Na contramão da cultura atual, em que a felicidade se reduz a “bem-estar” individual, a felicidade de que nos fala Jesus encontra-se somente em Deus e, portanto, só seremos verdadeiramente felizes quando construirmos um mundo humano para todos! Quando, imitando a felicidade da Trindade, construirmos comunhão!
II. Comentários dos textos bíblicos
Evangelho: Mt 5,1-12a
As bem-aventuranças consistem no programa de seguimento de Jesus. São oito ou nove ilustrações de como viver centrado em Deus. O(a) discípulo(a) encontra a sua felicidade somente centralizado(a) em Deus. Sua recompensa vem da bondade divina.
Em Mt 5,1-12, Jesus apresenta as bem-aventuranças ilustradas, e Mt 25,31-46, as bem-aventuranças consumadas. Os bem-aventurados de Mt 5,1-12 correspondem aos benditos do meu Pai de Mt 25,31-46.
O convite de Jesus aos seus discípulos significa isto: descentralizai-vos de vós mesmos, não busqueis vossa felicidade segundo os vossos interesses. Centralizai-vos em Deus e sejais felizes construindo um mundo no qual todos possam ser felizes. Ninguém é feliz sozinho. Só de Deus vem a verdadeira felicidade, e ele é Pai de todos.
As bem-aventuranças
“Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino de Deus” (v. 3). Os pobres no espírito – correspondentes ao conceito de pequeninos em Lucas — são aqueles que não possuem nenhum apego aos bens deste mundo. Eles são capazes de repartir os bens com os outros. São felizes porque sabem que os critérios de felicidade de Deus são diferentes dos critérios humanos. Não possuem nenhum bem mundano! O coração deles não tem amarras. Estão livres para voltar-se para Deus. Por isso mesmo, sua recompensa só pode ser o Reinado de Deus. Descentralizados de si, tudo repartem, pois seu tesouro é um só: Deus. Onde há partilha, há lugar para todos: todos são inclusos!
“Felizes os que choram, porque serão consolados” (v. 4). Os que choram são aqueles que padecem a injustiça de uma sociedade excludente. Os marginalizados, os que não contam para um sistema econômico cuja base se assenta no consumo. São “os estranhos” porque não participam do mercado de consumo. As sobras da sociedade, que se deixam escravizar para poder sobreviver. Os renegados, vítimas de preconceitos bestiais. Enfim, todos os sofridos cujos sofrimentos são impostos pelo próprio ser humano. Eles são consolados porque Deus “sofre onde sofre o amor” (Jürgen Moltmann). Deus sempre se põe ao lado do fraco e indefeso. Dos últimos, Deus faz os primeiros para que nem mesmo os que se fazem primeiros escapem de seu amor misericordioso.
“Felizes os mansos, porque receberão a terra por herança” (v. 5). Essa bem-aventurança nos remete à primeira. Enquanto aquela se refere à pessoa, esta trata da relação com o próximo. Mansos são todos aqueles que estabelecem relações alicerçadas na não violência. Diante do outro, os mansos apresentam-se desarmados, sem preconceitos, sem defesas. Eles acolhem o outro. Centralizam-se no próximo. Por isso, a herança deles é a terra, ou seja, o reinado de Deus!
“Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (v. 6). Os famintos e sedentos de justiça são aqueles que procuram ser justos e realizar a vontade de Deus. Aqueles que constroem um mundo mais humano, no qual todos possam viver com dignidade. Estes, que querem um mundo mais justo para todos, serão saciados com o Reinado de Deus!
“Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (v. 7). Os misericordiosos são aqueles que se deixam mover pela compaixão: neles, o amor está sempre em ato, os põe para fora, em comunhão com o próximo. Destes o Senhor não se esquecerá no juízo final: “estive nu e me vestistes, faminto e me destes de comer, doente e fostes me visitar”, idoso e não me desprezastes, no mundo das drogas e me acolhestes.
Os misericordiosos colocam-se no lugar do outro. O amor misericordioso os descentraliza. O outro é o seu centro. Por isso eles bendizem a Deus, ou seja, falam bem do Deus misericordioso. A fala deles é gestual, operativa! A misericórdia é amor sempre em ato, nunca abstrato!
“Felizes os puros no coração, porque verão a Deus” (v. 8). Os puros no coração são todos aqueles que não se deixam corromper por outros deuses: dinheiro, poder, consumo… Eles são puros no seu ser mais profundo. Por isso, eles entram em comunhão com Deus: “Verão a face divina”.
“Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (v. 9). Os promotores da paz são todos os que constroem a paz, criam laços de fraternidade, estabelecem canais de comunicação onde não há dialogo, restabelecem amizades rompidas pela intolerância. Estes serão considerados filhos de Deus.
“Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino de Deus” (v. 10). A vontade de Deus é que haja justiça para todos. Seu reinado será de justiça e paz. Os perseguidos por causa da justiça são aqueles que buscam realizar a vontade de Deus, a instauração de seu Reino. Eles, perseguidos por causa da justiça, não revidam com o mal. Perdoam (não revidam) seus perseguidores, por isso contribuem para extinguir o pecado do mundo, tal como o “Cordeiro de Deus”. Deles é o Reinado do Pai.
A última bem-aventurança refere-se aos seguidores de Jesus. Jesus é a causa da perseguição de seus discípulos. Essa bem-aventurança consiste num convite de alegria que Jesus faz aos seus discípulos. Como os profetas foram perseguidos por causa do anúncio da misericórdia divina e, portanto, por anunciar a vinda do Filho de Deus, assim são os seguidores dele. Assim como o próprio Jesus foi rejeitado pelo poder constituinte (político e religioso), os seus discípulos, de todos os tempos, têm a mesma sorte.
Perderíamos toda a profundidade desse programa de Jesus estendido a todos os seus discípulos se não víssemos nas bem-aventuranças que somente Deus é garantia de felicidade para o ser humano. Seguimos os passos de Jesus se o nosso coração não está apegado a falsas seguranças; quando não nos consolamos com as coisas do mundo; quando nos apresentamos completamente desarmados em face do nosso irmão; quando somos famintos e sedentos da justiça divina; quando nos deixamos mover pela misericórdia; quando em nosso coração só há lugar para o Pai; quando construímos a paz; quando o nosso objetivo é a realização da vontade do Pai e quando o mundo nos persegue porque trilhamos as pegadas de Jesus. Somente assim seremos verdadeiramente felizes.
I leitura: Sf 2,3; 3,12-13
Sofonias apresenta-se como profeta do pequeno resto de Israel! Israel confiou em si mesmo, mostrou-se autossuficiente até cair nas mãos dos assírios. De Israel, Deus escolheu um pequeno “povo humilhado e pobre” (pequeninos, fracos). Este não usa de violência, mas “busca apoio no Senhor”. Somente os que não usam de violência, que buscam a justiça, podem formar comunidade. Os que bastam a si mesmos, os que confiam em seu poder não podem construir nada em comum, pois lhes falta exatamente o princípio básico sobre o qual se assenta qualquer coisa em comum: comunhão!
II leitura: 1Cor 1,26-31
“Deus escolhe aquilo que é nada para mostrar a nulidade dos que são alguma coisa” (v. 28). Paulo apresenta as razões para a escolha de Deus: “para que quem se gloria, glorie-se no Senhor” (v. 31). Ora, a glória do Senhor é a cruz, tal como nos mostra João em seu evangelho. Portanto, a glória do Senhor é o amor. Assim, só há verdadeira glória para aqueles que praticam a caridade, pois estes se gloriam no Senhor, uma vez que quem ama o seu irmão ama a Deus.
O teor desse trecho da carta de Paulo aos cristãos de Corinto corresponde perfeitamente aos “pobres em espírito” da primeira bem-aventurança do Evangelho de Mateus. Os pobres em espírito são aqueles que buscam a glória de Deus, enquanto a glória dos que “são alguma coisa” na realidade é uma vanglória.
III. Pistas para reflexão
O desejo da felicidade caracteriza o ser humano. Assim como é próprio da razão a busca do conhecimento, é próprio da vontade a busca da felicidade. Nenhum ser humano pode deixar de buscá-la. A procura por ela é sempre individual. Eu e somente eu posso buscar a minha felicidade. Os caminhos que eu persigo para buscá-la são os meus caminhos. Mas embora a busca pela felicidade seja sempre individual, eu jamais posso ser feliz sozinho. Sou feliz se os outros também forem.
Somente o bem pode nos fazer felizes. O mal jamais pode propiciar felicidade. Ora, todas as pessoas, porque buscam ser felizes, buscam o bem. No fundo, todos buscamos Deus. Somente possuindo o bem soberano (Deus) seremos felizes. Como possuímos Deus? Na prática do bem (amor). Com efeito, na realização do bem, sou feliz. A felicidade, portanto, não se apresenta como algo que atingimos no final da nossa busca. Ela encontra-se na própria busca! O bem que eu procuro, encontro-o no bem que realizo!
Nossa vida é uma aventura! O seguimento de Jesus é uma boa aventura! Minha vida está sendo uma aventura, contento-me com alguns momentos de bem-estar, ou ela está sendo uma boa aventura? Minha felicidade, eu a apoio em Deus, em mim mesmo, ou no consumo?
A vida da Igreja está sendo uma boa aventura? Está sendo verdadeiramente “germe do Reino”? De fato, é dela o “Reino de Deus”?
A prática da Igreja arrancará de Jesus o convite: “Vinde, bendita do meu Pai”? A minha prática cristã me coloca à direita do meu Senhor?

padre Ivonil Parraz


3º DOMINGO TEMPO COMUM 
22 de Janeiro de 2017

Há muitos caminhos de realização humana. Dentro de cada ser humano há um apelo a ir em frente. Corpo, inteligência, vontade formam o ser humano que é um peregrino da realização, um buscador da felicidade. Não somos coisas, não somos pedras, não somos objetos. Há dentro dos seres retos um desejo de plenitude.
Ninguém pode passar pelo mundo em brancas nuvens. Através do trabalho de nossas mãos, das elocubrações da nossa inteligência e decisões de nosso querer vamos nos transformando, transformando o mundo que nos cerca. Somos “ativados” pelo chamado da vida. Ghandi, Martin Luther King, Madre Teresa são alguns desses exemplos de vidas que valeram à pena. Responderam generosamente ao apelo da vida. Somos convidados a ser irmãos de nossos irmãos os homens.
Há um chamamento a sermos de Cristo. Trata-se de revolução que se opera na vida de uma pessoa. Cristo Jesus, vivo e ressuscitado, se apresenta numa existência e quer arrancar de uma liberdade a decisão de seu seguimento. No seio de uma família cristã, freqüentando uma comunidade cristã, fazendo experiências de desejo de plenitude ou de não sentido da vida (desânimo e pecado) há aqueles que decidem livre e generosamente a serem seguidores de Cristo. O evangelho deste domingo descreve o chamamento ou a vocação de alguns apóstolos segundo a versão do quarto evangelho. Trata-se do chamamento para o seguimento de Jesus na qualidade de apóstolos, de enviados, de estreitos colaboradores da missão do Mestre.
Pedro e André são chamados por primeiro. Foram chamados no momento em que faziam seu trabalho de todos os dias. A ordem é: Segui-me. De pescadores de peixes, eles serão transformados em pescadores de homens. João faz questão de observar que eles imediatamente seguiram a Jesus. Não houve hesitação. Não consultaram nem este nem aquele. Muitos dos relatos de vocações são marcados pela urgência. Não se pode adiar o sim. Mais adiante o evangelista fala do apelo feito a Tiago e João.
Não basta ser marido e mulher. É preciso viver a vocação conjugal e familiar com garra. Viver o relacionamento familiar à luz da fé. Ser um casal e uma família chamados a deixar as coisas pequenas e a seguir Cristo. Não basta ser religioso ou ser religiosa. Não é suficiente rezar de manhã, colocar as rendas em comum, fazer isto ou aquilo. Será preciso ser profundamente “religioso”, profundamente consagrado a Deus. Não há vocação perfeita sem uma verdadeira mística. Não basta ter sido ordenado presbítero. Será fundamental ser instrumento, agir na pessoa de Cristo. Será importante celebrar a Eucaristia não por rotina mas na convicção mais profunda de que se está continuando a obra de Cristo. Precisamos de sacerdotes com zelo apostólico.
Todos os que são chamados a seguir a Cristo nos diferentes caminhos e nas diversas estradas serão pessoas que vivem um fogo interior. São como Cristo. Querem que o mundo incendeie!. O mundo não precisa de pessoas meramente “religiosas”, mas daqueles que respondem ao apelo de total seguimento.

frei Almir Ribeiro Guimarães


2º DOMINGO TEMPO COMUM 
15 de Janeiro de 2017


A pertença da comunidade cristã
A vocação da comunidade cristã é testemunhar a alegria de pertencer a Jesus Cristo. Essa pertença é o sentido íntimo da missão. Por isso a comunidade só é viva se consciente dessa sua condição. De outra forma, correria o risco de se considerar autossuficiente e cair na tentação do amor ao poder. Quem pertence a Jesus é guiado pelo poder do amor. Esse é o poder que conta.
Quando João Batista testemunha que Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo. 1,29), ensina à comunidade que seu Mestre é o homem da misericórdia, do perdão. Logo os seguidores devem ter as mesmas atitudes do Mestre. Isso só pode ocorrer se houver um encontro pessoal com ele. É preciso conhecer o amor para amar. A comunidade ama quando conhece Jesus, o amor de Deus feito homem.
Quando João Batista testemunha que Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, evoca a tradicional imagem bíblica do servo sofredor. Jesus é o servo fiel. Ele assume os pecados do seu povo, carrega nos ombros a dor de todo o mundo. Evoca também a imagem do cordeiro pascal, símbolo da ação libertadora de Deus, outrora em favor de Israel e agora ligada à libertação de toda a humanidade.
Desse modo, a comunidade tem a obrigação de saber quem é Jesus. Daí a necessidade da experiência do encontro verdadeiro com ele. Esse encontro se dá por meio da oração. A comunidade cristã tem a vocação de viver em contínua oração. Isso quer dizer que, mesmo nas ocupações e correrias do dia a dia, a comunidade persevera na oração, fazendo o bem. É justamente a bondade cristã que está presente no apelo do apóstolo Paulo em sua clássica saudação às comunidades: “A graça e a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo estejam convosco”.
A graça e a paz são distintivos da comunidade cristã. Não é à toa que na liturgia eucarística, antes da comunhão, quem preside reza pela paz e convida todos ao abraço. Além disso, por três vezes, pelo menos, pede-se que o Cordeiro de Deus tire o pecado do mundo.
A comunidade cristã, portanto, tem a missão de semear a bondade, o perdão, o amor. Ela é serva. Cristo é o modelo por excelência. É nele que somos, nos movemos e existimos (At. 17,28). Dele, por ele e para ele são todas as coisas (Rm. 11,36). Graça e paz a você!

padre Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp

EPIFANIA DO SENHOR 

08 de Janeiro de 2017

Onde a estrela parou
Epifania, em grego, significa manifestação: celebramos a manifestação de Deus ao mundo, representado pelos reis magos que vêm adorar o menino Jesus em Belém. Ele é a luz que brilha não só para o povo oprimido de Israel (como anuncia a 1ª leitura na noite de Natal), mas também para todos os povos, segundo a visão do profeta universalista que escreveu o fim do livro de Isaías. Essa visão recebe um sentido pleno quando os magos vindos do Oriente procuram, nos arredores de Jerusalém, o Messias que devia nascer da estirpe de Davi (Evangelho). A 2ª leitura comenta, mediante o texto de Ef. 3,2-6, esse fato como revelação do mistério de Deus para Israel e para os pagãos.
Assim, a liturgia de hoje realça o sentido universal da obra de Cristo. Mas não se trata do universalismo abstrato, global e midiático de nosso mundo contemporâneo. A inserção de Jesus na humanidade, que contemplamos no domingo passado (na festa da Mãe de Deus), acontece num ponto bem concreto e modesto: um povoado que nem está no mapa dos magos! O ponto por onde passa a salvação não precisa ser grandioso. O humilde povoado visitado pelos magos representa a comunidade-testemunha, o contrário do reino do poderoso Herodes. Belém é centro do mundo, porém não para si mesma, e sim para quem procura a manifestação de Deus. A estrela parou não sobre Roma nem sobre a Jerusalém de Herodes, mas sim sobre a Belém do presépio. Essa estrela não se importa com o poder humano. Deus manifesta-se no meio dos pobres, no Jesus pobre.
1ª leitura (Is 60,1-6)
Como foi recordado na 1ª leitura da noite de Natal, o profeta Isaías (9,1) anunciou nova luz para a Galileia, região despovoada pelas deportações praticadas pelos assírios em 732 a.C. Duzentos anos depois, o “Terceiro Isaías” retoma a imagem da luz. Aplica-a à Sião (Jerusalém) e ao povo de Judá, que acaba de voltar do exílio babilônico e está iniciando a reconstrução da cidade e do Templo (Is. 60,1). Jerusalém, restaurada depois do exílio babilônico, é vista como o centro para o qual convergem as caravanas do mundo inteiro. O profeta anuncia a adoração universal em Jerusalém. Enquanto as nações estão cobertas de nuvens escuras, a luz do Senhor brilha sobre Jerusalém. Esqueçam-se a fadiga e o desânimo, pois Deus está perto. As nações devolvem a Jerusalém seus filhos e filhas que ainda vivem no estrangeiro, e estes oferecem suas riquezas ao Deus que realmente salva seu povo.
Quinhentos anos depois, os magos (sábios, astrólogos) vindos do Oriente darão um sentido pleno e definitivo ao texto de Isaías: a eles o Cristo aparece como “luz” cheia do mistério de Deus.
2ª leitura (Ef. 3,2-3a.5-6)
As promessas do Antigo Testamento dirigem-se ao povo de Israel. Deus, porém, vê as promessas feitas a Israel num horizonte bem mais amplo. Seu plano é universal e inclui todos os povos, judeus e gentios. Os antigos profetas já tinham certa visão disso, mas os judeus do ambiente de Paulo apóstolo não pareciam percebê-lo. Paulo mesmo havia aprendido com surpresa a revelação do grande mistério, de que também os gentios são chamados à paz messiânica. Essa revelação, ele a assume como sua missão pessoal, a fim de levar a boa-nova aos gentios. 
Evangelho (Mt. 2,1-12)
O evangelho narra a chegada dos magos do Oriente que querem adorar o Messias recém- -nascido, cujo astro eles viram brilhar sobre Jerusalém (cf. 1ª leitura). A chegada dos magos e sua volta constituem a moldura (inclusão) dessa narrativa, cujo centro é a estupefação de Herodes e de toda a cidade por causa da notícia que os magos trazem. O ponto alto é a busca, pelos escribas, de um texto que aponte para esse fato. O texto em questão é Miqueias 5,1: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo”. Informado pelos escribas, Herodes encaminha os magos para adorarem o recém-nascido em Belém e informá-lo para que ele também vá (Belém fica a oito quilômetros de Jerusalém). O narrador, entretanto, deixa prever a má-fé de Herodes, que planeja matar os meninos recém-nascidos da região, tema que será desenvolvido no próximo episódio de Mateus, igualmente construído em torno de uma citação do Antigo Testamento.
No novo povo de Deus, não importa ser judeu ou gentio, importa a fé. O Evangelho de Mateus termina na missão de evangelizar “todas as nações” (28,18-20), e desde o início os “magos” prefiguram essa missão universal. Os doutores de Jerusalém, ao contrário, sabiam, pelas Escrituras, onde devia nascer o Messias – em Belém, a poucos quilômetros de Jerusalém –, mas não tinham a estrela da fé para os conduzir.
Dicas para reflexão
A visão do Terceiro Isaías sobre a restauração do povo na luz de Deus que brilha sobre a Cidade Santa realiza-se no povo fundado por Jesus Cristo. Este é o “mistério”, o projeto escondido de Deus, o evangelho que Paulo levou a judeus e gentios.
Mateus, no evangelho, traduz a fé segundo a qual Jesus é o Messias universal, numa narração que descreve a realização da profecia: astrólogos do Oriente veem brilhar sobre Belém, a cidade de Davi, a estrela do recém-nascido Messias, “rei dos judeus”. Querem adorá-lo e oferecer-lhe seus ricos presentes. Herodes, entretanto, com os doutores e os sacerdotes, não enxerga a estrela que brilha tão perto; é obcecado por seu próprio brilho e sede de poder. Os reis das nações pagãs chegam de longe para adorar o Menino, mas os chefes de Jerusalém tramam sua morte. As pessoas de boa vontade, aqueles que realmente buscam o Salvador, encontram-no em Jesus, mas os que só gostam de seu próprio poder têm medo de encontrá-lo.
Significativamente, o medo de Herodes, o Grande, o levará a matar todos os meninos de Belém de dois anos para baixo. A estrela conduziu os magos a uma criança pobre, que não tinha nada de sensacional. Mas o rei Herodes, cioso de seu poder, pensa que Jesus será poderoso e, portanto, perigoso. Para eliminar esse “perigo”, o rei, que tinha matado seus próprios filhos e sua mulher Mariame, manda agora matar todos os meninos de Belém.
Por que se matam ou se deixam morrer crianças também hoje? Porque os poderosos absolutizam seu poder e não querem dar chances aos pequenos, nem sequer de viver. Preferem sangrar o povo pela indústria do armamento, dos supérfluos, da fome... 
Pobre e indefeso, Jesus é o “não poder”. Ele não se defende, não tem medo. Em redor dele se unem os que vêm de longe, simbolizados pelos magos. E estes, avisados em sonho, “voltam por outro caminho”. O caminho, na Bíblia, é o símbolo da opção de vida da pessoa (Sl. 1). Os reis magos optaram por obedecer à advertência de Deus; optaram pelo menino salvador, contra Herodes e contra todos os que rejeitam o “menino”, matando vidas inocentes.
O nome oficial da festa dos Reis Magos, “Epifania”, significa manifestação ou revelação. Contemplamos o paradoxo da grandeza divina e da fragilidade da criança no menino Jesus. Pensamos nos milhões de crianças abandonadas nas ruas de nossas cidades, destinadas à droga, à prostituição. Outros milhões mortas pela fome, pela doença, pela guerra, pelo aborto. Órgãos extraídos, fetos usados para produzir células que devem rejuvenescer velhos ricaços… Qual é o valor de uma criança?
Deus se manifesta ao mundo numa criança, e nós somos capazes de matá-la, em vez de reconhecer nela a luz de Deus. Por que Deus se manifestou numa criança? Por esquisitice, para nos enganar? Nada disso. Salvação significa sermos libertados dos poderes tirânicos que nos escravizam para realizarmos a liberdade que nos permite amar. Pois para amar é preciso ser livre, agir de graça, não por obrigação nem por cálculo. Por isso, a salvação que vem de Deus não se apresenta como poder opressor, a exemplo do de Herodes. Apresenta-se como antipoder, como uma criança, que na época não tinha valor. 
O pequenino de Belém é venerado como rei, mas, no fim do Evangelho, esse “Rei” (Mt. 25,34) julgará o universo, identificando-se com os mais pequeninos: “O que fizestes a um desses mais pequenos, que são meus irmãos, a mim o fizestes” (25,40). Quanta lógica em tudo isso! 
Deus não precisa nos esmagar com seu poder para se manifestar. Para ser universal, prefere o pequeno, pois só quem vai até os pequenos e os últimos é realmente universal. Falta-nos a capacidade de reconhecer no frágil, naquele que o mundo procura excluir, o absoluto de nossa vida – Deus. Eis a lição que os reis magos nos ensinam.
O menino nascido em Belém atraiu os que viviam longe de Israel geograficamente. Mas a atração exercida por Jesus envolve também os social e religiosamente afastados, os pobres, os leprosos, os pecadores e pecadoras. Todos aqueles que, de alguma maneira, estão longe da religião estabelecida e acomodada recebem, em Jesus, um convite de Deus para se aproximarem dele.
Quem seriam esses “longínquos” hoje? O povinho que fica no fundo da igreja ou que não vai à igreja porque não tem roupa decente. Graças a Deus estão surgindo capelas nos barracos das favelas, bem semelhantes ao lugar onde Jesus nasceu e onde a roupa não causa problema. Há também os que se afastaram porque seu casamento despencou (muitas vezes se pode até questionar se ele foi realmente válido). Jesus se aproximou da samaritana, da pecadora, da adúltera... Será que para estas pessoas não brilha alguma estrela em Belém? 

Será que, numa Igreja renovada, o menino Jesus poderá de novo brilhar para todos os que vêm de longe, os afastados, como sinal de salvação e libertação?


SANTA MARIA MÃE DE DEUS 

01 de Janeiro de 2017


: Não violência e Paz

Nesse dia, celebramos várias comemorações: 
- O 1º dia do ano
- A Solenidade de Maria, Mãe de Deus
- O "Dia Mundial da Paz".

Vamos refletir sobre essas motivações:

1. Mais um ano, que começa... 
Inicialmente, desejo que o novo ano seja para todos vocês, 
cheio de Paz e Prosperidade, com todas as bênçãos de Deus... 
Olhando o ANO que termina e o outro que inicia... notamos que
muita coisa fizemos, muita coisa deixamos de fazer e
muita coisa ainda resta por fazer...

* E esse momento nos leva a uma ATITUDE:
- de GRATIDÃO:
     - a DEUS... pelo dom da VIDA... pela sua GRAÇA... pela sua FORÇA... 
     - às PESSOAS, que nos ajudaram em nossa caminhada... 
- de PERDÃO: pelas vezes que falhamos... 
  por pensamentos... por palawas... por ações... e omissões... 
- de PRECE: Implorando a Bênção de Deus sobre o novo ano...

Na Leitura, Moisés, em nome de Deus, a fonte de toda a Bênção,
comunica a Aarão e seus filhos o ministério de abençoar:
"Abençoareis os filhos de Israel assim: 
o Senhor te abençoe e te proteja! 
O Senhor volte seu rosto para ti e se compadeça de ti!. 
O Senhor dirija o seu olhar para ti e te conceda a Paz! 
Assim invocarão o meu nome, e eu os abençoarei..."  (Nm 6,22-27)

* É uma bênção litúrgica, que atualiza a Aliança e
assegura proteção, benevolência e paz.

+ Que sentido tem pedir a bênção? 
A bênção não é um ato mágico para resolver todos os nossos problemas.
Quem a recebe terá as mesmas dificuldades que os outros homens.
Entretanto, recebe a força necessária para enfrentá-las
através da nova luz que procede da nossa fé.

Pedir a BÊNCÃO: é uma maneira de reconhecer
a nossa dependência de Deus em todos os dias do novo ano.
- Pedir a bênção de nossas CASAS, 
  é desejar que o Cristo visite o nosso lar e permaneça sob nosso teto. 
- Pedir a bênção aos CARROS, não supõe que possamos abusar no trânsito...
- A força da bênção não depende dos poderes do Sacerdote que a profere,
  mas do poder e da vontade de Deus...
2. Hoje também é o DIA MUNDIAL DA PAZ

A Igreja quer nos lembrar desde o primeiro dia do ano, que a paz
anunciada pelos anjos em Belém, só é possível às pessoas de boa vontade, 
que se esforçam dia a dia para construir a Paz, 
paz que é antes de tudo obra de justiça e fruto do amor... 

- PAZ no coração... na família... na vizinhança... na comunidade... no trabalho...

- "A não violência, uma política pela paz" é o tema escolhido pelo papa Francisco para o Dia Mundial da Paz. A violência e a paz estão na origem de dois modos opostos de construir a sociedade. Ao invés, a paz tem consequências sociais positivas e permite um verdadeiro progresso. Devemos, portanto, agir nos espaços possíveis, negociando caminhos de paz, até mesmo onde tais caminhos parecem tortuosos ou impraticáveis. Com esta Mensagem, o Santo Padre deseja indicar um passo ulterior, um caminho de esperança apropriado às circunstâncias históricas presentes: chegar à solução das controvérsias por meio de negociações, evitando que elas se degenerem em conflito armado.

3. A Igreja celebra hoje também a festa de MARIA MÃE DE DEUS...

O Evangelho nos apresenta Maria, recebendo feliz a visita dos pastores... 
e meditando em seu coração tudo o que falavam do Messias... (Lc 2,16-21)
A reação dos pastores é numa atitude de ação de graças e de testemunho, 
glorificando e louvando a Deus, por tudo o que tinham visto e ouvido.

* A atitude meditativa de Maria, que interioriza e aprofunda os acontecimentos, 
e a atitude "missionária" dos Pastores, que proclamam a ação salvadora de Deus,
manifestada no nascimento de Jesus, são duas atitudes essenciais,
que devem estar presentes na vida de todos nós.

Na 2ª Leitura, Paulo lembra o Amor de Deus,
que enviou o seu Filho ao encontro dos homens
para os libertar da escravidão da Lei e para os tornar seus "filhos".
Nesta situação, podemos chamar a Deus de "Abbá" (papai)...

+ E Você, que planos tem para esse novo ano de 2017?

Que tal... COMEÇAR O ANO...

- Com um OLHAR novo sobre essa casa, essa cidade, esse trabalho,
  que a rotina já cansou e desgastou...

- Com um AMOR novo: com o pai... a esposa... os filhos ... o vizinho...
  que talvez no dia a dia acabou esfriando...

- com um CORAÇÃO novo, disposto a descobrir em tudo e em todos,
  o rosto e as mãos de um Cristo intensamente presente em nossa vida...

- E, a exemplo de MARIA, Mãe de Deus e Rainha da Paz, 
  SEMEAR PAZ, ao redor de nós, 
  para que esse novo ano seja mais humano, mais fraterno e mais cristão?...
É O QUE DESEJO A TODOS NÓS!...

                                                      Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa - 


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